Entenda como nova tarifa de Trump pune Brasil duas vezes e coloca China na mira
O governo Trump usou uma investigação sobre trabalho forçado para elevar sua tarifa global de 10% para 12,5% e colocar o comércio com a China no alvo, segundo especialistas ouvidos pela reportagem. A medida foi detalhada em um relatório publicado na madrugada de terça-feira (2).
Caso os EUA confirmem a medida e também a tarifa de 25% por supostas práticas desleais do Brasil, incluindo o Pix e a pirataria na rua 25 de Março, na capital paulista, parte dos produtores brasileiros será alvo de uma sobretaxa total de 37,5%.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) colocou como exceções para as taxas uma lista de produtos com potencial de pressionar ainda mais a inflação dos americanos. Segundo estimativa do governo brasileiro, 21,5% das exportações aos EUA seriam afetadas pelas taxas.
Como ficam as tarifas sobre o Brasil
O Brasil já pode ser alvo de uma tarifa de 25% devido à investigação dos EUA sobre suposta concorrência desleal das empresas brasileiras. A decisão sobre a aplicação ou não da medida cabe ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Como os EUA praticamente repetiram, nas duas apurações do USTR, a lista de exceções — que inclui itens com potencial inflacionário para a economia americana —, as sobretaxas de 12,5% e 25% se aplicariam e se somariam sobre a mesma gama de produtos. O total chegaria a 37,5%.
Nova tarifa substitui sobretaxa global
A alíquota de 12,5% substituiria a atual sobretaxa de 10% aplicada a todos os parceiros comerciais dos EUA. A investigação sobre trabalho forçado abordou 60 países que representam 99% do comércio externo americano e encontrou falhas em todo o grupo.
Após a Suprema Corte americana declarar o primeiro tarifaço de Trump inconstitucional, o presidente dos EUA recorreu à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para instituir uma nova taxa global de 10%. Essa legislação autoriza o presidente a impor tarifas temporárias sobre bens importados para lidar com balanços de pagamentos e emergências financeiras.
O que ficou fora da sobretaxa
Na investigação contra o Brasil, o USTR poupou produtos considerados estratégicos para a economia dos Estados Unidos ou que poderiam provocar aumento de preços e problemas de abastecimento caso fossem sobretaxados. Os itens também aparecem como exceções na investigação sobre trabalho forçado.
Entre os produtos que ficaram fora da tarifa estão:
- Café
- Carne bovina
- Suco de laranja
- Frutas tropicais, como manga, banana, abacaxi e mamão
- Medicamentos e vacinas
- Petróleo, gás natural e diversos minérios
- Componentes e equipamentos da indústria aeronáutica
As maiores preocupações, porém, estão concentradas nos produtos industrializados que não aparecem na lista de exceções.
Segundo estimativas de economistas e entidades empresariais, os segmentos potencialmente mais afetados incluem máquinas e equipamentos, produtos elétricos, madeira e manufaturados de madeira, móveis, parte da indústria de transformação, além de têxteis, confecções e calçados.
Para esses setores, a tarifa pode representar perda de competitividade em relação a concorrentes de outros países e dificultar a ampliação das exportações para o mercado americano.
Escopo da investigação dos EUA
Os EUA investigaram se 60 países conseguiram impor ou aplicar de forma eficaz a proibição de importar bens produzidos com trabalho forçado. O USTR considerou que todos, responsáveis por 99,4% do comércio externo americano, falharam em atingir os padrões necessários.
O que foi investigado
O escritório do representante de Comércio dos EUA analisou estatísticas oficiais de comércio entre 2024 e 2026 para mapear o fluxo de insumos suspeitos.
Nesse trabalho, foi considerado, por exemplo, se o Brasil compra alumínio bruto de regiões chinesas acusadas de trabalho forçado e depois exporta autopeças ou aviões para os EUA. Nesse caso, o critério de contaminação da cadeia produtiva é acionado.
Quem seria punido
O Brasil não possui uma proibição legal explícita contra a importação de produtos feitos com trabalho escravo, assim como China, Japão, Nova Zelândia, Suíça e Reino Unido. No total, são 54 países nessa lista.
Os outros seis países investigados não tiveram capacidade real de fiscalização em suas alfândegas. São eles:
- Canadá
- Equador
- União Europeia
- Indonésia
- México
- Paquistão
O que foi dito sobre o Brasil
A investigação aponta que o Brasil importa insumos críticos de países que utilizam trabalho forçado, como a China, e possui setores que exportam diretamente para o mercado americano.
Justificativa dos EUA
O escritório, comandado pelo embaixador Jamieson Greer, afirma que a leniência com essa prática se tornou um fardo para o comércio norte-americano e recomendou a aplicação de tarifas compensatórias.
Greer classificou a prática como dumping social: a redução artificial dos custos de produção por meio do trabalho forçado, gerando lucros fora das condições de mercado e criando concorrência desleal contra produtores que seguem as regras.
Segundo o embaixador, os EUA proíbem a entrada de produtos ligados ao trabalho escravo em seu mercado.
“Se os nossos parceiros comerciais não proíbem isso nas fronteiras deles, o produto contaminado por dumping social entra no mercado deles, reduz os custos das empresas locais e cria uma concorrência desleal contra os trabalhadores americanos.”
China contamina cadeia global de produção, dizem EUA
O documento do USTR dedica seções inteiras para ilustrar como os insumos da China entram na cadeia global e driblam a proibição americana por meio de outros países.
O relatório aponta o polissilício, matéria-prima utilizada em painéis solares, como o exemplo mais crítico de contaminação da cadeia produtiva. Indústrias de diversos países compram o insumo mais barato da China, montam os painéis solares e tentam exportar o produto final para os Estados Unidos.
O mesmo raciocínio é aplicado ao setor têxtil. O relatório cita dados independentes que apontam que mais de 200 regiões do mundo importaram algodão ou misturas de algodão da China, com destaque para polos têxteis como Bangladesh, Japão, Filipinas e Vietnã.
Como a maior parte do algodão chinês vem da região de Xinjiang, alvo de denúncias de trabalho forçado, o relatório conclui ser altamente provável que roupas manufaturadas nesses países e enviadas aos mercados globais estejam contaminadas por trabalho escravo.
Países investigados
- Argélia
- Angola
- Argentina
- Austrália
- Bahamas
- Bahrein
- Bangladesh
- Brasil
- Camboja
- Canadá
- Chile
- China
- Colômbia
- Costa Rica
- República Dominicana
- Equador
- Egito
- El Salvador
- União Europeia
- Guatemala
- Guiana
- Honduras
- Hong Kong (China)
- Índia
- Indonésia
- Iraque
- Israel
- Japão
- Jordânia
- Cazaquistão
- Kuwait
- Líbia
- Malásia
- México
- Marrocos
- Nova Zelândia
- Nicarágua
- Nigéria
- Noruega
- Omã
- Paquistão
- Peru
- Filipinas
- Catar
- Rússia
- Arábia Saudita
- Singapura
- África do Sul
- Coreia do Sul
- Sri Lanka
- Suíça
- Taiwan
- Tailândia
- Trinidad e Tobago
- Turquia
- Emirados Árabes Unidos
- Reino Unido
- Uruguai
- Venezuela
- Vietnã
Conteúdo distribuído por Folhapress
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