Famílias de BH têm alívio no endividamento, mas dificuldade de pagamento cresce
O orçamento das famílias belo-horizontinas apresentou sinais de alívio em agosto, mas a situação financeira ainda preocupa. Embora tenha diminuído a parcela de consumidores endividados e com contas em atraso, o percentual daqueles que afirmam não ter condições de quitar as dívidas aumentou.
Os dados, divulgados nesta segunda-feira (14), são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), aplicada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e analisada pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio-MG.
De acordo com a pesquisa, 86,4% dos consumidores de Belo Horizonte estavam endividados em agosto, queda de 1,8 ponto percentual em relação a julho, quando o índice era de 88,2%. Já a parcela com contas em atraso recuou 2 pontos percentuais, de 65,3% para 63,3%. Na contramão, 32,1% afirmaram não ter condições de pagar as dívidas, acima dos 31,2% registrados no mês anterior.
Na avaliação da economista da Fecomércio-MG Gabriela Martins, os dados apontam um cenário de alívio parcial. A redução dos atrasos ainda não representa uma recuperação consistente da capacidade financeira das famílias, mas pode ser um primeiro sinal de melhora.
Segundo ela, a queda do endividamento é positiva, mas a proporção de famílias nessa situação continua elevada. “Quando se fala de um alívio parcial, é certo que houve uma redução do endividamento, e isso é bom. No entanto, ainda há uma proporção muito alta de famílias que seguem endividadas, apesar dessa retração”, afirma.
Para Gabriela Martins, a redução gradual do endividamento é importante para a estabilização financeira das famílias e pode contribuir para a queda da inadimplência. “Esse processo de redução gradual do endividamento é importante para que haja uma estabilização financeira e, a partir daí, as famílias consigam sair da inadimplência”, explica.
A economista ressalta, porém, que a melhora precisa ser analisada em conjunto com a capacidade de pagamento das famílias. “A redução observada no número de endividados ainda não é suficiente para garantir uma queda também no número de pessoas que não têm condições de pagar as dívidas em atraso”, diz.
O movimento também pode estar relacionado ao menor acesso ao crédito por parte de algumas famílias. “Provavelmente, algumas famílias estão deixando de ter acesso ao crédito e, por isso, o endividamento acaba diminuindo. Mas muitas continuam em uma situação financeira complicada, com contas em atraso”, pondera.
Cartão concentra endividamento
O cartão de crédito permanece como o principal instrumento de endividamento na capital mineira. Em agosto, 96,2% dos consumidores endividados tinham compromissos nessa modalidade, percentual superior ao das demais formas de crédito. A pesquisa destaca ainda a necessidade de planejamento, especialmente diante do custo elevado do crédito rotativo.
Para Gabriela Martins, a elevada participação do cartão no endividamento está relacionada à facilidade de acesso e à ampla aceitação desse meio de pagamento pelo comércio e pelo setor de serviços. O cenário, porém, chama a atenção para a finalidade do crédito.
“Temos observado um movimento em que as famílias usam cada vez mais o crédito para despesas essenciais, o que mostra uma dependência maior desse recurso para o consumo básico”, afirma.
A economista avalia que o uso do cartão para despesas essenciais pode limitar a capacidade de compra de bens de maior valor. Nesse contexto, o carnê aparece como alternativa para famílias que já comprometeram o limite do cartão.
“Quando as famílias precisam adquirir um produto de maior valor, muitas já não têm limite disponível no cartão. Então, acabam recorrendo ao carnê e acumulando cada vez mais parcelas no orçamento mensal.”, explica.
Mais da metade dos atrasos supera 90 dias
A dificuldade de regularização fica ainda mais evidente quando se observa a duração dos atrasos. Entre as famílias com contas pendentes, 54,4% estão com pagamentos atrasados há mais de 90 dias. Em média, o tempo de atraso é de 68,8 dias. O quadro é mais delicado entre as famílias com renda de até dez salários mínimos: 65,2% possuem algum compromisso em atraso, contra 51,7% entre aquelas com renda acima desse patamar.
Outro dado reforça o peso das dívidas sobre a renda. Elas comprometem, em média, 34,4% do orçamento mensal das famílias. Em 80,4% dos casos, mais de 10% da renda está comprometida, enquanto 40,7% das famílias endividadas destinam mais da metade do orçamento às dívidas. O comprometimento médio é semelhante entre as faixas de renda pesquisadas: 34,7% entre famílias com até dez salários mínimos e 32,6% entre aquelas com renda acima desse patamar.
Consumo no radar do varejo
Para Gabriela Martins, os dados de agosto podem representar um primeiro sinal de melhora, mas ainda não permitem falar em recuperação consolidada da capacidade financeira das famílias. “Os dados deste mês começam a sinalizar uma possível melhora. Esse processo de redução gradual do endividamento é importante para que haja uma estabilização financeira”, afirma.
A economista ressalta, porém, que os juros elevados e o comprometimento da renda continuam pressionando a capacidade de pagamento. “A redução do endividamento traz algum alívio, mas os juros elevados e o alto comprometimento da renda com o pagamento de dívidas ainda têm um impacto muito negativo, a ponto de algumas famílias não conseguirem honrar esses compromissos”, explica.
O comportamento do consumidor também entra no radar do comércio nos próximos meses, com a proximidade do Dia das Crianças, da Black Friday e do Natal.
Segundo a especialista, algumas famílias podem estar administrando os gastos e o uso do crédito para preservar a capacidade de consumo nos próximos meses. “Muitas famílias podem estar de olho nos próximos meses e reduzindo agora os gastos no crédito para preservar a capacidade de consumo em outubro, novembro e dezembro”, conclui.
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