Fechamento de Hormuz faz fertilizantes irem para topo da agenda de chanceler brasileiro
O fechamento do Estreito de Hormuz em meio à guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel levou a importação de fertilizantes ao topo da agenda do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante visita a Pequim no início desta semana. A preocupação decorre da alta dos preços dos insumos após o início do conflito, o que acendeu um alerta entre agricultores brasileiros às vésperas do plantio da safra de verão.
O movimento ocorre na esteira das viagens realizadas pelo chanceler ao Uzbequistão e ao Cazaquistão, em maio, quando também tratou da aquisição de fertilizantes. As iniciativas integram a estratégia do governo federal de ampliar a diversificação de fornecedores e reduzir a dependência de um número restrito de países.
Na China, o objetivo foi garantir o abastecimento antes do início da principal safra agrícola brasileira, evitando novas pressões sobre os preços. O tema esteve entre os principais assuntos discutidos nos encontros com o vice-presidente chinês, Han Zheng, e com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi.
A viagem teve como destino oficial a capital chinesa para a 5ª edição do Diálogo Estratégico Global Brasil-China, mecanismo de consulta política entre os chanceleres dos dois países em funcionamento desde 2014.
Dados do Banco Mundial indicam que o preço dos fertilizantes avançou 12% no primeiro trimestre de 2026, atingindo, em abril, o maior patamar desde 2022. A expectativa da instituição é de uma alta acumulada de 30% ao longo deste ano.
O Brasil mantém elevada dependência da importação de fertilizantes utilizados na agricultura. Em 2025, os insumos adquiridos no exterior responderam por 93% do total consumido no País, segundo dados do governo compilados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A ureia está entre os produtos mais afetados pelo conflito. O fertilizante nitrogenado depende do gás natural em sua formulação, insumo que também registrou aumento de preços. O produto é amplamente utilizado no cultivo de milho, cana-de-açúcar e pastagens, gerando preocupação também para o setor pecuário.
Em 2025, a China foi a principal fornecedora de fertilizantes ao mercado brasileiro, respondendo por 26% do volume importado. A Rússia apareceu na sequência, com participação de 25%.
A dependência da China também expõe o Brasil ao risco de medidas de salvaguarda. O país asiático possui histórico de restrições às exportações de fertilizantes como instrumento de segurança alimentar, buscando equilibrar oferta e demanda internas diante de cenários de instabilidade geopolítica.
Em 2021, durante um período de forte alta de preços, o governo chinês orientou as principais fabricantes de fertilizantes a intensificarem esforços para garantir o abastecimento doméstico. Como consequência, empresas do setor anunciaram a suspensão de exportações.
No mesmo ano, Pequim passou a exigir certificados de inspeção para o embarque de fertilizantes e insumos relacionados, criando obstáculos às exportações e sendo apontada por analistas como uma forma indireta de restringir vendas ao exterior.
Relatos de fontes do setor, divulgados pelas agências Reuters e Bloomberg, indicam ainda que, após a escalada do conflito no Irã, a China teria reforçado inspeções alfandegárias e restringido exportações de alguns fertilizantes.
Em documento recente, a CNA afirma que os custos provocados por conflitos internacionais já estão chegando ao produtor rural brasileiro. A entidade defende que o País adote medidas para antecipar riscos, diversificar fornecedores e fortalecer alternativas produtivas e tecnológicas para reduzir a vulnerabilidade do setor agrícola.
Conteúdo distribuído por Folhapress
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