Economia

Novo tarifaço dos EUA preocupa indústria mineira; empresários apostam no diálogo

Fiemg afirma que sobretaxa de 25% pode afetar exportações, competitividade, investimentos e empregos ligados ao comércio exterior
Novo tarifaço dos EUA preocupa indústria mineira; empresários apostam no diálogo
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

Após o governo Trump propor, nessa segunda-feira (1º), um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) afirmou acompanhar a medida com preocupação e alertou para possíveis impactos relevantes na economia brasileira.

A entidade lembra que a tarifa adicional está em fase de consulta pública. Apesar disso, afirma que, se for aplicada, a medida afetará os negócios, pois os Estados Unidos são um dos principais destinos das exportações brasileiras e um mercado estratégico para bens industriais, produtos agroindustriais e cadeias produtivas de maior valor agregado.

“A imposição de tarifas adicionais, mesmo que parcial, tende a reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, ampliar o ambiente de incerteza para as empresas exportadoras e afetar investimentos, empregos e negócios ligados ao comércio exterior”, informou a entidade, em nota.

Diante da situação, a Fiemg defende que o governo brasileiro mantenha uma atuação “firme, técnica e diplomática” junto às autoridades norte-americanas, com o objetivo de evitar a entrada em vigor da tarifa, ampliar a lista de produtos isentos e preservar a competitividade das empresas brasileiras no mercado dos Estados Unidos.

“A Federação seguirá acompanhando os desdobramentos da investigação e seus impactos sobre a indústria nacional, reforçando a importância do diálogo institucional entre os dois países para a construção de uma solução capaz de proteger empregos, investimentos e cadeias produtivas brasileiras”, encerra.

Setor empresarial aposta no diálogo entre Brasil e EUA

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) avalia que o relatório dos Estados Unidos sobre a investigação comercial contra o Brasil reconhece os avanços do diálogo entre os dois governos, intensificado nas últimas semanas após o encontro entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, em 7 de maio. A entidade também ressalta que a medida ainda não é definitiva e pode não entrar em vigor.

“O relatório não é final e reforça que ainda há tempo para evitar a adoção de novas tarifas. O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão, preservando as condições necessárias para a evolução do comércio e dos investimentos entre os dois países”, afirmou o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, em nota à imprensa.

Setor cafeeiro defende ampliação da lista de exceções

O café faz parte da lista de produtos que permaneceriam isentos da nova tarifa de 25%. No entanto, segundo o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, o café solúvel não foi incluído entre as exceções e, portanto, pode ser taxado. O executivo lembra que o Brasil é o maior fornecedor de café para os Estados Unidos e que, neste momento, o principal objetivo é ampliar a lista de exceções para incluir o café solúvel.

“Nós temos o café solúvel brasileiro ainda sofrendo os 25% potencialmente. A gente vem sendo taxado com 10% e, agora, subiria, com essa proposta, para 25%. O que é importante destacar nesse processo: é uma negociação que se abre. Basicamente o governo americano está dizendo: Brasil, venha negociar, vamos fazer um acordo bilateral. Então, mais do que nunca, nós temos que fazer uma grande negociação, trabalhar com os dois governos, governo dos Estados Unidos, governo do Brasil, para avançar na negociação com vistas a um acordo bilateral que seja justo para os dois lados”, diz.

Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) manifesta preocupação

A maior parte dos cafés nacionais foi excluída de uma possível nova taxação estadunidense, com exceção do café solúvel. Diante desse cenário, a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) manifesta preocupação com os impactos “na importante indústria de café solúvel brasileira, representada pela ABICS, e as consequências ao longo de toda cadeia de valor do café nacional, com restrições de comércio”.

“Assim, a Associação permanecerá em constante contato com os parceiros e governo brasileiros, bem como com os pares norte-americanos, com o intuito de ajudar a esclarecer toda e qualquer dúvida que possibilite um cenário de isenção a todos os tipos de café do Brasil, incluindo os solúveis, por parte do governo dos Estados Unidos. Por fim, a BSCA reforça seu compromisso com a defesa de condições justas de comércio para todos os cafés brasileiros junto aos EUA, mantendo a comunidade cafeeira informada de forma clara, técnica e responsável sobre os próximos desdobramentos relacionados ao tema”, declara.

Carne também está fora de novo tarifaço

Outro item que está fora da lista de tarifas é a carne bovina. Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes, Derivados e de Frios de Minas Gerais (Sinduscarne), Pedro Braga, os Estados Unidos evitaram incluir o produto no novo tarifaço porque a mesma tentativa, feita no ano passado, elevou os preços da proteína no mercado americano.

“No ano passado, quando o Trump colocou tarifa, o custo da carne subiu muito nos Estados Unidos para eles. Os principais players da pecuária mundial, incluindo Brasil, Estados Unidos e Austrália, estão passando por um momento de baixa de produção. O Brasil também está entrando nisso. Ele juntou esse ciclo da pecuária fraca nos Estados Unidos, com a tarifa da carne brasileira, que é uma das mais competitivas do mundo, e o preço começou ir lá em cima. Os Estados Unidos não conseguiram sustentar a alta do preço da carne lá. E agora a mesma coisa: ele quer tarifar outros itens para fazer uma pressão no Brasil, mas ele não pode sacrificar tanto a população com a carne, que é base alimentar deles lá. Ainda mais a carne brasileira que eles utilizam muito para a fabricação de hamburgueres, que é a base da alimentação principalmente para a população de baixa renda, que é o principal eleitor do Trump”, afirma.

Sistema Faemg Senar: taxação não traria bons frutos

Para o agronegócio, embora produtos como café e carnes estejam isentos de uma possível nova taxa, a tarifa de 25% não traria bons frutos para o produtor rural, na análise do presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio Salvo. Segundo ele, o setor já precisa lidar com muitas variáveis desafiadoras, como a dificuldade de crédito e a chance de El Niño, previsto para chegar no segundo semestre deste ano, com aumento de calor e chuvas, o que pode prejudicar o agro.

“Nós exportamos muito para os Estados Unidos, principalmente o café, carnes e complexo de soja, onde nós, mineiros, estamos crescendo muito. É sempre bom lembrar que o agro mineiro e brasileiro é muito competitivo. Nós temos preços competitivos quando comparado com o resto do mundo. Mas qualquer tipo de taxação, neste momento, não soa bem para nós, produtores rurais. Nós precisamos de mais tranquilidade. Vivemos um momento extremamente difícil, dificultoso, com dificuldade de crédito, com não-visibilidade de um Plano Safra para 26/27. E a gente não gostaria de ter mais esse problema. Vamos estudar, analisar, mas certamente não trará bons frutos e nem continuará dando ânimo ao nosso produtor, que já está sentido com todas as dificuldades: juros altos, possibilidade de El Niño, ainda mais uma taxação do nosso segundo maior comprador, que é os Estados Unidos”, declara.

Investigação dos EUA avança contra o Brasil

A nova tarifa do governo Trump foi divulgada nessa segunda como consequência do fim de uma investigação aberta na Seção 301 contra o Brasil. Nesse processo, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a taxação de 25% foi sugerida como resposta a “práticas comerciais injustas por parte do Brasil”. Entre essas práticas, estaria o Pix, ferramenta que, segundo o relatório, seria privilegiada no Brasil em detrimento de serviços de pagamento dos Estados Unidos.

Uma consulta pública sobre o relatório do USTR foi aberta e um relatório final sobre o tema deve ser publicado até 15 de julho. A decisão, no entanto, caberá ao presidente Trump.

Produtos isentos da nova tarifa de 25%

Veja abaixo alguns dos itens que ficaram isentos:

  • Frutas: laranja (polpa e suco, congelado ou não, além de bebidas à base de suco), tomates, mandioca, certas nozes (como castanha-do-pará e de caju), frutas (banana, abacaxi, manga, coco, goiaba).
  • Café: torrado e descafeinado, além de substitutos do café que contenham a planta em qualquer proporção, extratos, essências e concentrados de café (com exceção do café instantâneo não aromatizado) e preparações à base desses extratos ou do próprio café, chá, especiarias e mate.
  • Carnes bovinas: frescas, congeladas ou resfriadas (incluindo cortes de alta qualidade) e outros cortes processados ou não, com osso ou desossadas, além de fígado, língua e outros miúdos, carne seca ou defumada.
  • Minerais e combustíveis: minérios de ferro, manganês, cobre, alumínio e outros; além de carvão, petróleo bruto, gás natural.
  • Produtos químicos e farmacêuticos: certos medicamentos contendo antibióticos, vitaminas, vacinas para humanos e animais.
  • Componentes para aviação civil: uma lista ampla de produtos do setor, que inclui desde tubos de plástico e juntas de borracha até motores de turbina, sistemas de radar e assentos específicos para aeronaves.
  • Metais preciosos: ouro, prata e moedas em diversas formas.
  • Papel e madeira: pastas de madeira (celulose), certos tipos de papel e madeiras tropicais brutas ou serradas.

(Com informações da Folhapress)

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