Fim da taxa das blusinhas exige ações para fortalecer a produção nacional, dizem especialistas
O fim da chamada “taxa das blusinhas” deverá gerar uma concorrência desleal para as empresas brasileiras ao mesmo tempo em que amplia o poder de compra do consumidor. De acordo com alguns especialistas, é preciso que o governo implemente ações para minimizar os efeitos, como o incentivo à produção local e ampliação do acesso ao crédito.
O economista e conselheiro de política econômica, Stefan D’Amato, avalia que a economia de Minas Gerais, assim como no Brasil, tende a sentir os efeitos, principalmente, se considerar a participação relevante dos pequenos negócios e do setor têxtil na estrutura produtiva local. Ele pontua que os pequenos varejistas não poderão diminuir os preços para concorrer com as plataformas estrangeiras, devido à baixa margem de lucro e os juros elevados praticados no mercado.
“No curto prazo, o consumidor sentirá um alívio, mas no médio prazo, teremos uma maior preocupação com a quantidade de empregos e com o enfraquecimento da produção local”, alerta.
Para o economista da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de Minas Gerais (FCDL-MG), Vinicius Silva, o problema está na ausência de um equilíbrio entre as questões envolvendo a abertura de mercado para empresas estrangeiras e os impostos pagos pelo setor produtivo local. Entre os mais impactados, ele destaca as micro e pequenas empresas. “Quando tributamos as empresas que estão aqui e não as que vêm de fora, isso gera uma concorrência desleal”, acrescenta.
Já o economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead), Paulo Casaca, avalia que essa medida terá um impacto, principalmente, para o varejo físico e para a pequena e micro indústria. Os importadores e os consumidores, por sua vez, são citados como os principais beneficiados.
Impacto reduzido
No entanto, o especialista pondera que os efeitos poderão ser menores do que o que tem sido especulado por algumas entidades do setor produtivo. Ele pontua que há o risco dessas perspectivas mais pessimistas estarem superestimando o impacto real na economia, uma vez que o fim da taxação envolve uma pequena parcela do consumo.
“Haverá sim um impacto, devido à competitividade dos produtos importados, mas eu acredito que não será o suficiente para gerar dezenas de milhares de demissões e fechamentos de milhares de empresas, ou algo do tipo”, ressalta.
Para Casaca, as questões envolvendo o aumento do preço da gasolina, por exemplo, apresentam uma interferência ainda maior no mercado interno do que o fim da taxa das blusinhas. Ele ainda lembra que a discussão sobre o tema também tem apresentado um teor político, com uma parcela dos políticos buscando agradar os consumidores e outros visando aos empresários.
O economista relata que o empresário brasileiro tem ganhado competitividade ao longo dos últimos anos, com grande evolução tanto no setor de serviços quanto no comércio, por exemplo. Segundo ele, muitas empresas passaram a internalizar uma parte da produção no próprio negócio e também fortaleceram sua atuação no e-commerce.
Soluções para o problema

Entre as diferentes maneiras de reduzir os efeitos maléficos do fim da medida, D’Amato menciona a redução dos custos de produção no País. Isso porque as empresas brasileiras seguem pagando muitos impostos e enfrentando dificuldades na concessão de crédito.
“Precisamos melhorar o ambiente de negócios e o acesso ao crédito, incentivar a inovação e ajudar as pequenas empresas a se modernizarem e venderem mais no digital”, diz.
Porém, Silva ressalta que não há muitas contrapartidas para melhorar o cenário atual para os players nacionais. Entre as sugestões do economista da FCDL-MG, está a melhoria na logística e a implementação da isonomia tributária. Ele destaca que não se trata apenas de impedir o acesso do consumidor a produtos importados, mas sim, uma maior garantia de condições justas de concorrência para o comércio brasileiro sobreviver e seguir gerando empregos.
O especialista ainda avalia a necessidade de estímulos para a produção local e a modernização das fábricas no Brasil, além de uma maior valorização de produtos regionais e apoio para que os varejistas do canal físico, por exemplo, possam ingressar no mercado on-line.
“O fim da taxa das blusinhas não precisa ser uma sentença para o varejo. Nós precisamos de uma atuação forte do governo para transformar esse desafio em uma oportunidade de crescimento”, completa.
Quanto à atuação do governo, D’Amato afirmou que ele pode contribuir para o combate a práticas desleais de concorrência, como o subfaturamento e o dumping para ganhar mercado. Ele ressalta que as ações para proteção da produção nacional devem ser tomadas de forma que não penalizem os consumidores, que já sofrem com os efeitos da inflação.
Silva lembra que o período da pandemia de Covid-19 foi um momento que, apesar das dificuldades, também proporcionou mudanças estruturais nas relações de trabalho e de consumo. Portanto, a ideia é aproveitar o momento atual para se reinventar e melhorar o ambiente de competição no mercado interno.
Já Casaca mencionou a forte relação que o consumidor brasileiro tem com os produtos nacionais. “Eu espero que essa cultura de compra e de escolha de produtos nacionais se mantenha e que a parcela de prejudicados seja a menor possível”, declara.
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