Guerra entre EUA e Irã eleva custos de obras em Minas Gerais e pressiona construção pesada
Desencadeada em fevereiro deste ano, a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã já impacta diversos setores da economia mineira, entre eles a construção pesada, atividade fortemente dependente de derivados de petróleo. No centro da crise está o Estreito de Ormuz, rota marítima por onde passa cerca de 20% do combustível fóssil consumido no mundo, cuja instabilidade pressiona os preços e insumos utilizados pelo setor.
Segundo o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG), Bruno Ligório, os custos dos serviços cujos insumos estão atrelados ao petróleo foram, nos últimos seis meses, os mais afetados.
“O cimento asfáltico de petróleo (CAP) – que é o betume usado na matéria-prima do asfalto e representa sozinho mais de 50% do custo [do asfalto] – subiu 32% esse ano com a guerra”, explica. Despesas com frete, conforme aponta o dirigente, também aumentaram.
Ligório destaca ainda que os reflexos dos conflitos geopolíticos atingem a produção nacional contribuindo para a pressão sobre os custos do setor. “A Petrobras pratica a chamada política de paridade internacional, ou seja, quando o preço do petróleo sobe lá fora, ele sobe aqui dentro, mesmo a gente tendo a produção nacional [de petróleo] significativa. Então, ela reajusta o combustível e o betume em função da cotação internacional”, diz.
O dirigente também revela que o reajuste do betume corroborou para um aumento final de 10% a 12% no custo das obras rodoviárias nos últimos seis meses. “Na construção civil, o impacto foi um pouco menor, entre 4% e 5%”, destaca, acrescentando que investimentos da cadeia produtiva industrial em Minas Gerais tiveram que ser postergados em função das instabilidades provocadas pelo cenário geopolítico internacional.
Construtoras recorrem à revisão de contratos para recompor perdas
O presidente do Sicepot-MG afirma que, para se adaptarem ao cenário de maior volatilidade registrado nos últimos seis meses, as grandes construtoras, responsáveis por obras públicas, têm solicitado aos órgãos contratantes dos respectivos projetos o chamado reequilíbrio econômico financeiro para a recomposição dos custos.
“É uma prática permitida por lei, inclusive diante de problemas de guerra, que justificam o desequilíbrio de um contrato. E é isso que nós estamos vivendo”, reforça. A prática, segundo ele, é observada em projetos das três esferas de poder, municipal, estadual e federal.
Ligório afirma ainda que o atual cenário trouxe problemas para os caixas das empresas, que vêm sentindo o aumento da necessidade de capital de giro em razão da alta dos custos.
“Quando a empresa pede um reequilíbrio econômico financeiro e não tem esse pedido avaliado e aprovado em tempo, [muitas vezes um amparo demora até seis meses], o cenário pressiona ainda mais o caixa e o capital de giro, que já vêm pressionado em função da taxa de juros mais alta”, explica.
Os efeitos desse panorama criam, segundo Ligório, um problema crônico para o setor. Isso porque algumas empresas são obrigadas a diminuir o ritmo de obra. “Aquelas com capacidade financeira mais sólida conseguem tocar, mas aí depende muito de cada contrato, de cada impacto e de cada empresa”. Nesse contexto, as pequenas e médias empresas, segundo o presidente, são ainda mais vulneráveis.
Setor projeta estagnação dos investimentos em infraestrutura em 2026
Diante de um cenário geopolítico internacional ainda incerto – o preço do petróleo voltou a subir nesta terça-feira (7) e pressiona os juros futuros após ataques iranianos a um navio-tanque do Catar no Estreito de Ormuz – as perspectivas do Sicepot-MG para 2026 são de estagnação no setor. Segundo Bruno Ligório, a expectativa é que o segmento mantenha em 2026 um investimento em infraestrutura correspondente a 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB).
“Não vemos crescimento para este ano porque os investimentos privados têm capex adiado. O setor público não teve aquela retomada ou aquela força esperada para um ano de eleições federais. Então a gente enxerga hoje ou projeta 2026, repetindo o que aconteceu em 2025. E o pipeline de crescimento, a gente adia isso para a partir do primeiro semestre de 2027, principalmente em função dos investimentos privados contratados”, conclui.
Ainda segundo Ligório, a meta do Sicepot-MG é que o aporte em infraestrutura represente, pelo menos, 4% do PIB nos próximos anos.
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