Inflação perde força em Belo Horizonte em junho, mas sobe 3,24% no semestre
A inflação da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) perdeu força em junho e ficou abaixo das expectativas do mercado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado nesta sexta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), avançou 0,12%, desacelerando em relação aos 0,34% registrados em maio e ficando abaixo da média nacional, de 0,16%.
O principal fator para o resultado foi a queda de 0,89% no grupo Alimentação e bebidas, puxada principalmente pelo recuo dos preços das frutas (-6,1%) e dos legumes (-3,52%), enquanto a alta da energia elétrica residencial impediu uma inflação ainda menor ao elevar o grupo Habitação em 1,27%.
O resultado surpreendeu positivamente o mercado, que projetava uma inflação próxima de 0,30% para o mês a nível nacional. Com isso, o IPCA da RMBH acumula alta de 3,24% no primeiro semestre e de 3,84% em 12 meses. Entre as 16 regiões pesquisadas pelo IBGE, apenas Aracaju (-0,02%), São Paulo (-0,03%) e Recife (-0,04%) registraram deflação em junho.
A maior surpresa de junho veio do grupo Alimentação e bebidas que apresentou queda de 0,89%. Os alimentos que mais contribuíram para essa queda foram frutas (-6,1%) e legumes (-3,52%). Também apresentou retração o grupo de Saúde e cuidados pessoais (-0,03%).
No sentido oposto, as maiores contribuições para o resultado mensal vieram do grupo Habitação (+1,27%) com alta na energia residencial de 3,65%, refletindo a permanência da vigência da bandeira tarifária amarela, com acréscimo na conta de luz de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, além do reajuste de 5,21%, vigente desde 28 de maio em Belo Horizonte, como avaliou os especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio.
Os grupos de Transporte (0,36%), Despesas pessoais (0,4%), Vestuários (0,26%), Artigos de residência (0,26%) e Comunicação (0,33%) também apresentaram alta, enquanto Educação não apresentou variação.
Energia elétrica segue como vilã
Na avaliação do economista Gustavo Almeida, o desempenho da inflação na RMBH mostra que a região segue em trajetória mais favorável do que a média brasileira. “A RMBH continua apresentando uma inflação abaixo da média nacional tanto no resultado mensal quanto no acumulado do ano. Isso mostra que, apesar das diferenças regionais de consumo e logística, o comportamento dos preços na capital mineira tem sido relativamente mais benigno”, pontua.
O economista ressalta que dois movimentos opostos explicam o resultado de junho. De um lado, a queda dos alimentos ajudou a conter a inflação; de outro, a energia elétrica exerceu forte pressão sobre o índice. “O principal alívio veio da alimentação, cuja queda foi quase quatro vezes mais intensa do que a observada na média nacional. Em sentido contrário, praticamente toda a pressão do grupo Habitação veio da energia elétrica, refletindo tanto o reajuste tarifário quanto a permanência da bandeira amarela”.
O economista e professor do UniBH, Fernando Sette Junior, também avalia que o índice confirma a desaceleração inflacionária observada ao longo do segundo trimestre. Segundo ele, embora a inflação tenha permanecido positiva, houve mudança na composição das pressões sobre os preços. “O resultado de junho reforça a perda de intensidade da inflação. A pressão deixou de ser disseminada e ficou mais concentrada em preços administrados, especialmente energia elétrica, enquanto alimentos e transportes apresentaram comportamento mais moderado”, diz.
A alta da conta de luz merece atenção na visão de Sette Junior, pelo peso que o serviço possui no orçamento das famílias. “Mesmo com uma inflação geral bastante baixa, a energia elétrica foi suficiente para liderar as pressões do mês. Trata-se de um item com grande participação no orçamento doméstico e que também influencia os custos de praticamente toda a economia”, ressalta.
O economista Gustavo Almeida, destaca, no entanto, que um fator que contribuiu para reduzir a inflação foi o comportamento dos combustíveis. Segundo ele, a queda do etanol ajudou a limitar os impactos sobre o grupo Transportes. “Embora a gasolina tenha registrado uma pequena alta, a queda do etanol contribuiu para manter os transportes relativamente sob controle. Isso ajudou a compensar parte das pressões vindas da energia elétrica”.
Expectativas
Para o segundo semestre, Almeida avalia que o cenário pode se tornar mais desafiador. Segundo ele, a possibilidade de um evento climático associado ao El Niño pode pressionar novamente os preços dos alimentos, justamente o grupo que mais contribuiu para aliviar a inflação em junho. “Além disso, o último trimestre costuma apresentar maior pressão sazonal sobre a inflação por causa do aumento do consumo”, diz.
Ainda assim, ele pondera que os juros elevados continuam atuando para conter o consumo, embora políticas de estímulo ao crédito possam reduzir parte desse efeito. “Há um cabo de guerra entre a política monetária restritiva, que reduz a demanda, e medidas de estímulo ao crédito e à renda, que tendem a impulsionar o consumo. O comportamento da inflação no segundo semestre dependerá desse equilíbrio”, conclui.
Primeiro semestre registra alta de 3,24%
Apesar da desaceleração observada em junho, todos os nove grupos pesquisados pelo IBGE acumularam alta no primeiro semestre na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Habitação liderou os aumentos, com avanço de 4,65%, seguida por Alimentação e bebidas (4,11%), Educação (3,82%), Saúde e cuidados pessoais (3,74%), Artigos de residência (3,32%), Despesas pessoais (2,97%), Vestuário (2,60%), Comunicação (2,21%) e Transportes (1,29%).
Na avaliação do economista Gustavo Almeida, a inflação acumulada continua abaixo da média nacional graças, principalmente, ao comportamento dos combustíveis. “Enquanto a gasolina acumulou alta significativa no Brasil, em Belo Horizonte ela praticamente ficou estável ao longo do semestre. Além disso, o etanol apresentou queda expressiva, o que contribuiu para que a inflação regional permanecesse abaixo da média nacional”. Ele destaca que, assim como em junho, a energia elétrica foi o principal peso sobre o orçamento das famílias ao longo do ano.
Sette Junior acrescenta que a composição da inflação mudou ao longo do semestre, tornando o cenário relativamente mais favorável. “No início do ano, alimentos e combustíveis tiveram participação mais intensa na inflação. Em junho, a pressão passou a ficar concentrada em preços administrados, indicando uma inflação menos disseminada e um processo de convergência para a meta mais consistente”. Segundo ele, essa mudança tende a ser positiva para consumidores, empresas e para a condução da política monetária, embora o comportamento dos preços administrados continue exigindo atenção nos próximos meses.
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