Roscoe: pacote é importante para a preservação de empregos | Crédito: Alisson J. Silva

O pacote de medidas econômicas do governo federal, orçado em R$ 200 bilhões e anunciado na última quarta-feira (1º), foi bem-recebido por economistas e entidades mineiras. As ações incluem complementação salarial em situações que envolvem redução de salário e da jornada dos trabalhadores, liberação de crédito para financiamento da folha de pagamento, auxílio para autônomos e repasse de verbas para fundos de participação dos estados e municípios.

No entanto, os especialistas também ressaltam: o investimento ajuda, mas não é suficiente para lidar com todos os desafios financeiros que o País e os empresários têm pela frente diante dos reflexos da disseminação do novo coronavírus (Covid-19). Ações mais robustas poderiam ser tomadas, dizem os profissionais da economia, mas aí se esbarra em outro problema, que são justamente as condições de o Brasil adotar esse tipo de ação.

Conforme destaca o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) Flávio Constantino, o cenário de crise que atingiu o Brasil e as contas públicas, antes mesmo da pandemia, já não era nada animador. O País vinha em um crescimento econômico muito baixo. Isso, frisa o professor, tira a capacidade de o governo fazer uma proposta mais ousada, de um pacote mais elevado de incentivos.

“O pacote atual tem a sua contribuição e é um estímulo para os empresários. No entanto, é mais uma resposta do governo diante da pressão da sociedade e dos setores; mostra que o governo não está parado. As medidas adotadas lá fora são muito mais ousadas e geradoras de crescimento”, diz ele.

O economista e professor do Ibmec-MG, Felipe Leroy, acredita que as medidas poderão ajudar a conter a “quebradeira” pelo País. Nas palavras dele, servirão para “evitar o fundo do poço”. No entanto, não serão suficientes para um crescimento econômico, que poderá vir em um prazo de alguns anos. “Teremos de caminhar muito para atingir um crescimento de longo prazo sustentável”, salienta.

O pesquisador da área de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Marcel Balassiano, reforça a ideia de que as medidas não serão suficientes, pois “todos vão ter algum custo, algum impacto”, diz. No entanto, para ele, essas ações são, sim, muito importantes neste momento.

Balassiano também ressalta a relevância de as medidas serem algo temporário, enquanto durar a pandemia. O pesquisador frisa, ainda, que o Brasil precisa, quando a crise acabar, voltar a outras discussões muito importantes para a economia, como as relacionadas as chamadas reformas estruturais.

Entidades – O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, afirma que o pacote de medidas adotadas pelo governo é relevante. “São importantes para o setor produtivo, para a preservação do emprego. É vital nesse momento que os empregos não sejam perdidos”, diz ele.

Roscoe destaca que essas medidas serão fundamentais, inclusive, para a retomada econômica quando a crise passar. “Se tivermos mais 10, 15 milhões de desempregados, haverá um grande problema de consumo. A recuperação da crise será muito mais lenta”, pondera, salientando que a medida deverá salvar alguns milhões de empregos.

Contudo, Flávio Roscoe frisa que somente isso não é o suficiente, diante de “uma crise sem precedentes”, diz ele. “Essa crise vai demandar toda a criatividade do governo federal para propor soluções para diversos problemas. Será preciso uma injeção grande de recursos. Quanto maior for a parada, maior será a necessidade de ajuda”, afirma.

O economista-chefe da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio MG), Guilherme Almeida, também concorda que as medidas são importantes, mas, mesmo com elas, diz, alguns empreendimentos não conseguirão sobreviver.

Ele lembra que as micro e pequenas empresas são mais enxutas, têm um fluxo de caixa mais apertado, precisam de capital de giro e algumas não serão contempladas para o auxílio na folha de pagamento. Além disso, não se sabe até quando permanecerão fechadas, sendo que precisam arcar com vários custos, como os salários e as contas de água e de energia elétrica. “O pós-crise pode ser mais demorado do que se espera”, afirma.