Economia

Minas e Bélgica ampliam comércio e destravam corredor verde para exportações

Evento em Belo Horizonte reforça relações entre Minas e Bélgica, com foco em logística, energia limpa e ampliação do comércio exterior
Minas e Bélgica ampliam comércio e destravam corredor verde para exportações
Foto: Reprodução Adobe Stock

Desenhado para gerar conexões qualificadas e promover um ambiente propício para a troca de experiências e a geração de negócios, o “Comex na Prática: Comércio Exterior, Logística e Conexões com a Bélgica”, realizado na segunda-feira (13), em Belo Horizonte, reuniu profissionais e empresas interessadas em ampliar sua atuação internacional, com foco nas relações comerciais entre Brasil e Bélgica, e contou com a participação da diplomacia belga no Brasil, de representantes do Porto de Antuérpia-Bruges e do Governo de Minas Gerais.

A programação incluiu apresentações dos convidados e um momento dedicado ao networking, reunindo profissionais de comércio exterior, empresários, executivos e representantes de empresas com atuação ou interesse em operações internacionais.

De acordo com o cônsul honorário da Bélgica em Minas Gerais e consultor do Port of Antwerp-Bruges, Henrique Machado Rabelo, a estrutura é a principal porta de entrada para os produtos mineiros na Europa, em especial para o café e o minério. A partir da assinatura do Acordo Comercial entre a União Europeia e o Mercosul, a expectativa é que esse comércio seja ampliado e diversificado.

“O acordo com a União Europeia vai dar dinâmica ao comércio, com o destrave tarifário. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) está fazendo um estudo de viabilidade de novas oportunidades com produtos manufaturados, como bebidas e café torrado, por exemplo. Esse evento é também uma retribuição à visita feita pelo governador de Minas Gerais à Bélgica e ao porto no ano passado”, explica Rabelo.

O Porto de Antuérpia-Bruges é o segundo maior da Europa, atrás apenas do Porto de Roterdã, e se consolidou como um dos mais importantes do mundo após a fusão do Porto de Antuérpia com o Porto de Bruges, em 2022. Em 2024, registrou uma movimentação de 278 milhões de toneladas, com crescimento de 2,3% em relação ao ano anterior.

Desde 2017, mantém parceria com o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, principal ponto de escoamento de produtos mineiros, como café, minério de ferro e lítio.

Para o CEO do Porto Açu, Eugênio Figueiredo, como acionista do empreendimento fluminense, o Porto de Antuérpia agrega uma longa expertise na gestão e na expansão do porto, contribuindo especialmente para a construção de clusters e para a gestão da ocupação do espaço, com impacto no longo prazo.

“Esse movimento de aproximação com a unidade de negócios mineira é muito importante. Açu é o porto de Minas Gerais. Gostamos de criar soluções logísticas customizadas para atacar diretamente os problemas de cada cliente. Trabalhar com Minas Gerais, pela sua importância e posição geográfica, é também criar soluções regionais e até nacionais. Atuamos fortemente com a indústria e o agronegócio. Podemos criar uma rota alternativa para o agro, com várias vantagens, por ser recente e desenvolvida por um porto privado, garantindo que os investimentos na expansão de capacidade serão uma solução para o gargalo gerado quando a produção cresce. Projetos de infraestrutura têm um longo prazo de maturação e retorno. Quando a gente coloca uma capacidade adicional, os clientes entendem e ocupam rapidamente”, avalia Figueiredo, que antecipa o projeto de “corredor verde” entre os dois portos, com grandes oportunidades para Minas Gerais.

“Eles já estão fazendo uma transição para a nova indústria de combustíveis verdes, e temos a oportunidade de desenvolver um projeto assim. Vamos criar um corredor verde entre os dois portos, com combustíveis verdes e tancagem dos dois lados. Minas Gerais, como um grande produtor de energia limpa, pode se beneficiar desse projeto”, pontua Figueiredo.

Consultor do Port of Antwerp-Bruges, Matheus Dolecki, avalia que o comércio entre Minas Gerais e a Bélgica deve crescer, impulsionado pelo acordo bicontinental, e incluir produtos de maior valor agregado. Antuérpia é o porto europeu que mais troca contêineres com o Brasil.

“O Acordo vai estimular ainda mais as trocas. Somos o maior exportador europeu entre as duas regiões. De forma geral, o setor industrial brasileiro vem perdendo protagonismo, mas, como plataforma portuária, entendo que podemos aumentar a transação de bens de consumo mineiros, como roupas e sapatos, além da estrutura para manusear produtos agrícolas, como lácteos, café, cachaças e produtos minerários, especialmente terras raras e minerais críticos, e também produtos siderúrgicos. Já da Bélgica para o Brasil, podemos incrementar o comércio de cervejas, vinhos, queijos, peças automotivas, produtos químicos e farmacêuticos, além de serviços, como a questão da transição energética, novas tecnologias e programação no setor de games”, enumera.

Segundo a secretária de Estado de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, Mila Batista, receber a delegação belga é um privilégio também do ponto de vista político e diplomático.

“Eu estive lá no ano passado, em uma missão do Estado, para entender como o produto mineiro é escoado na Europa. É muito importante porque Minas Gerais tem sido apontada, pelo relacionamento com as empresas, como, por exemplo, a Arcelor, antiga Belgo Mineira, com um grande potencial. Todo investimento tem um processo de pavimentação, de movimentação, seja pela relação de confiança que precisa ser construída. Teremos o Dia da Europa, com um encontro no Palácio da Liberdade, no dia 11 de maio, organizado com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para fazer a ponte entre o setor produtivo de Minas Gerais e representantes dos países europeus”, antecipa Mila Batista.

A Cooperativa Mista Agropecuária de Paraguaçu (Coomap), no Sul de Minas Gerais, foi uma das participantes do encontro. Comemorando 70 anos, a cooperativa exporta para a Europa desde 2017. Segundo o diretor-superintendente da Coomap, Renato José de Mello, a boa safra prevista para 2026 deve ajudar a recompor os estoques mundiais e valorizar ainda mais o produto mineiro.

Dados do 1º Levantamento da Safra de Café 2026, produzido pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e divulgado em fevereiro, apontam para uma produção recorde no Brasil, com 66,2 milhões de sacas, alta de 17,1% frente a 2025. Minas Gerais será o principal responsável pelo volume produzido, com a colheita total projetada em 32,4 milhões de sacas, 25,9% maior em comparação com o volume produzido na safra anterior.

“Temos uma logística eficiente para fazer um trabalho de recomposição de estoques. Teremos um recebimento recorde de café, o último bom foi em 2020. Para 2026, voltamos para a normalidade. Exportamos desde 2017 e, nesse evento, conversamos direto com esse principal parceiro prioritário”, destaca Mello.

Visita real consolidou laços históricos entre Brasil e Bélgica

Em 1920, os reis da Bélgica estiveram no Brasil para agradecer ao País e à sua população pelo apoio à reconquista da soberania do País após a Primeira Guerra Mundial.

Dentro da programação da primeira visita de um chefe de Estado europeu ao Brasil, após a Proclamação da República, o casal real da Bélgica, Alberto e Elisabeth, visitou a jovem capital mineira, inaugurada há apenas 23 anos. Em Minas Gerais, além da Capital, visitou Lagoa Santa e Nova Lima, hoje na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), onde viu a mineração de ouro de Morro Velho. A viagem teve como consequência uma estreita aproximação entre a Bélgica e o Brasil. O principal resultado dessa visita foi a criação da Companhia Belgo-Mineira, em 1921, hoje ArcelorMittal.

Estima-se que existam, atualmente, cerca de 5 mil belgas e descendentes no Brasil; a maioria tem dupla nacionalidade. Já na Bélgica existe uma comunidade de 60 mil brasileiros.

Comércio bilateral combina indústria, alimentos e serviços entre Brasil e Bélgica

Em 2023, a Bélgica era o terceiro maior exportador de mercadorias da União Europeia (UE) para o Brasil, enquanto foi o sétimo maior destino das exportações brasileiras para a UE. Em uma base puramente bilateral, o Brasil ficou em 17º lugar entre os principais clientes daquele país, com um total de exportações belgas de mercadorias para o Brasil de pouco mais de 4,9 bilhões de euros, representando uma queda de 6,2% em relação ao ano anterior.

Os produtos químicos e farmacêuticos, que incluem “vacinas para medicina humana” e “produtos imunológicos”, ocuparam o primeiro lugar no total de exportações de mercadorias da Bélgica para o Brasil em 2023. Com um valor de 2,5 bilhões de euros, esse grupo de produtos representou uma participação de 50,6% das exportações.

Já os gêneros alimentícios foram responsáveis pela maior parte das importações belgas de mercadorias do Brasil, com uma participação de 19,4%. Esse grupo de produtos, composto principalmente por suco de laranja, representou um valor de 458 milhões de euros. No entanto, o total de importações belgas do Brasil, que atingiu o nível mais alto de todos os tempos em 2022, quando totalizou cerca de 3,6 bilhões de euros devido à recuperação pós-pandemia, caiu 34,6% em 2023. Isso pode ser atribuído, em parte, às importações significativamente menores de produtos vegetais, como café e soja, e de metais e pedras preciosas, como sucata de platina e diamantes.

Embora o comércio de mercadorias represente a maior parte das relações comerciais entre a Bélgica e o Brasil, existe também uma parcela significativa do comércio que vem dos serviços. Em 2023, o valor das exportações belgas de serviços para o Brasil foi de 272 milhões de euros, e o País ficou em 43º lugar na lista dos principais clientes da Bélgica no total de exportações belgas de serviços. Enquanto isso, as importações belgas de serviços do Brasil totalizaram 280,2 milhões de euros, colocando o Brasil em 34º lugar na lista dos principais fornecedores de serviços do país europeu.

Comércio Brasil–Bélgica em 2023

• Bélgica foi o 3º maior exportador da União Europeia para o Brasil
• Brasil ficou como o 7º destino das exportações brasileiras para a UE
• Exportações belgas ao Brasil somaram € 4,9 bilhões, queda de 6,2%

Principais exportações da Bélgica para o Brasil:
• Químicos e farmacêuticos lideram, com € 2,5 bilhões
• Participação de 50,6% no total exportado

Importações da Bélgica do Brasil:
• Alimentos representam 19,4%
• Destaque para suco de laranja: € 458 milhões

Movimento recente:
• Pico em 2022: cerca de € 3,6 bilhões
• Queda de 34,6% nas importações em 2023

Serviços ganham relevância:
• Exportações belgas de serviços ao Brasil: € 272 milhões
• Importações de serviços do Brasil: € 280,2 milhões

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