Minas pode perder protagonismo na mineração sem novos investimentos, alerta SGB
Minas Gerais parou de investir na área de pesquisa mineral nos últimos tempos, seja por meio de parcerias com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), universidades ou estatais. Por consequência, o Estado corre o risco de perder, nos próximos cinco anos, a hegemonia que conquistou na mineração, já que outras unidades da Federação caminham no sentido oposto.
O alerta foi feito pelo diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB, Francisco Valdir Silveira, em entrevista à reportagem no XII Simpósio Brasileiro de Exploração Mineral (Simexmin), evento realizado pela Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (Adimb), em Ouro Preto, na região Central, entre 17 e 20 de maio.
“Um estado com tradição em mineração não deve deixar de investir em pesquisa básica, em pesquisa mineral, ou seja, em levantamentos, novas tecnologias, novos processamentos e novos modelos de negócio para o setor mineral. O Estado tem que ter esse papel”, afirmou.
Silveira pontuou que Minas Gerais tem em seu solo e subsolo todos os minerais que o mundo precisa. Conforme ele, o Estado é um “fractual” do Brasil e ainda possui um diferencial: ser o único no País a ter o território mapeado na escala 1:100.000, considerada pela empresa pública federal a mais adequada para se investir no setor mineral. Para efeito de comparação, somente cerca de 30% do território nacional está mapeado nesta escala.

“É o único estado que está nesse nível de conhecimento. Isso, ao longo do tempo, materializou-se na quantidade de depósitos que são conhecidos e que continuam a ser descobertos em Minas Gerais, um player memorável e que tem modelos de mineração exemplares para mim”, salientou, citando a atuação verticalizada da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) em Araxá, no Alto Paranaíba, que, além de extrair nióbio, processa o minério e transforma-o em materiais de maior valor agregado.
Silveira defende uso da Cfem em pesquisa mineral e parceria do Estado com o SGB
Segundo Silveira, em um passado recente, Minas Gerais, por meio da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), era um grande parceiro do SGB. E, juntos, realizaram trabalhos de levantamentos aerogeofísicos e geoquímicos e de mapeamento geológico, o que levou ao Estado alcançar o atual estágio de conhecimento do território, no qual se destaca entre as unidades federativas, tanto que lidera a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem).
No entanto, o diretor reiterou que, sem novos investimentos em pesquisa mineral, a liderança do Estado na mineração está ameaçada, assim como futuras oportunidades na corrida global por minerais críticos e estratégicos. Ele defendeu que Minas Gerais aplique parte dos royalties minerais arrecadados na área e volte a colaborar com a empresa pública federal, através da Codemig ou de outro órgão responsável, para ampliar o conhecimento geológico e tornar a “fotografia” do território mineiro ainda mais nítida.
Governo estadual ressalta existência do Portal da Geologia e de levantamentos aerogeofísicos
O governo de Minas Gerais foi procurado para comentar o que tem feito nos últimos anos na área de pesquisa mineral. Em resposta enviada pela Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), o Estado apenas pontuou sobre seu histórico no setor e ressaltou a existência do Portal da Geologia e de levantamentos aerogeofísicos.
Na nota, a Codemge sublinhou que Minas Gerais segue líder em arrecadação da Cfem e que dispõe de uma base de conhecimento do seu subsolo ampla e consolidada, que explica sua relevância na mineração brasileira. Também lembrou que o território mineiro possui 100% de mapeamento geológico na escala 1:100.000, iniciado nos anos 1990, com apoio do Estado (via Codemig/Codemge), em parceria com universidades públicas e com o SGB.
Ainda conforme o posicionamento do governo estadual, esse conjunto de informações é público e acessível. “Os mapas e relatórios do mapeamento geológico, além de arquivos digitais para consulta e uso técnico, estão disponíveis no Portal da Geologia, plataforma mantida pela Codemge, e também nos canais do SGB”, informou.
“Além do mapeamento ‘no papel’, Minas também dispõe de levantamentos aerogeofísicos em escala estadual, que ajudam a orientar pesquisas – como os levantamentos feitos por aeronaves que registram variações do campo magnético e características naturais das rochas”, salientou, acrescentando que esses dados estão disponibilizados nos sites da Codemge e do SGB, e em bases associadas à Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Atuação da empresa pública federal em Minas Gerais
No que diz respeito às atividades do SGB em Minas Gerais, o diretor de Geologia e Recursos Minerais da empresa pública federal disse que vários projetos estão em andamento em diferentes regiões, como no Alto Paranaíba, Vale do Jequitinhonha e Quadrilátero Ferrífero, além dos trabalhos de cartografia geológica nas proximidades de áreas mineradas. Conforme ele, ainda há muito a ser descoberto no Estado.
“Minas Gerais sempre será um case de atenção especial. Vai demorar bastante ainda para esgotar tudo o que temos para conhecer e descobrir em Minas”, disse Silveira, reforçando estar inquieto com o fato de o Estado ter deixado de investir em pesquisa básica.
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