Economia

Minas Gerais registra queda nos roubos de cargas no primeiro trimestre

Criminalidade muda estratégia e foca em medicamentos de alto valor, migrando para Rio de Janeiro e SP
Minas Gerais registra queda nos roubos de cargas no primeiro trimestre
Participação de Minas no prejuízo causado por roubos de carga no País ficou em 5,3% | Foto: Diário do Comércio / Arquivo / Charles Silva Duarte

O roubo de cargas em Minas Gerais caiu na participação dos prejuízos e recuou de 18,4% no primeiro trimestre de 2025 (1T25), para 5,3% no primeiro deste ano (1T26). A queda reflete, conforme analisam especialistas da Nstech, empresa de software que atua no ramo da logística, a confirmação de um cenário que estava sendo observado nos últimos meses: o risco deixou de ser apenas concentrado e previsível para se tornar dinâmico, seletivo e focado no valor e na liquidez da carga.

Conforme explica o vice-presidente de inteligência de mercado da Nstech, Cristiano Tanganelli, o recuo percebido no Estado na participação dos prejuízos reflete uma reconfiguração do comportamento das quadrilhas e não uma melhora estrutural da segurança no Estado. “O crime migrou de forma significativa para o Rio de Janeiro e para operações urbanas, redirecionando o foco para alvos de maior valor e maior previsibilidade logística”, diz.

Segundo ele, historicamente, o corredor norte de Minas Gerais, na divisa com o sul da Bahia, sempre foi um ponto sensível justamente pelas dificuldades de sinal de satélite e menor densidade de policiamento. “Minas é um estado de passagem. O que os dados mostram é que o crime atua com lógica de portfólio: testa territórios, explora fragilidades e recua quando encontra resistência”, afirma. Dessa forma, no 1T26, “o foco se deslocou para o Sudeste mais urbanizado, especialmente o Rio de Janeiro, que saltou de 16,4% para 44% dos prejuízos no período”.

O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Antônio Luis da Silva Júnior, confirma que os roubos caíram nos valores, mas pondera que o setor ainda conta com um número elevado de roubos de cargas e de componentes de caminhão como módulos, pneus e rodas. “Mesmo com as ações preventivas da Secretaria de Segurança Pública do Estado e por parte das empresas como treinamentos, monitoramentos e até mesmo escoltas quando as cargas são de alto valor, o problema ainda está aí”, afirma.

Na análise do presidente do Setcemg, o prejuízo caiu porque a economia no primeiro trimestre ficou muito abaixo do esperado, e praticamente todos os setores movimentaram menos.

De acordo com os dados da Nstech, em março de 2026, no recorte de rotas, a concentração permaneceu forte em fluxos com origem ou destino nos estados do Sudeste, com destaque para SP x SP (20,5%), MG x SP (12,3%) e RJ x RJ (11,5%). Isso acontece conforme detalha Tanganelli, porque esses eixos concentram operações de transferência de cargas de alto valor agregado, “justamente o perfil que as quadrilhas passaram a priorizar no 1T26”. Segundo ele, são carregamentos que transitam entre os dois maiores polos econômicos do País e que, por isso, têm valor elevado e rotas mais previsíveis.

O vice-presidente da Nstech ressalta ainda que por São Paulo ser o principal polo industrial e consumidor do País, naturalmente se mantém no centro do mapa de risco. No entanto, o dado que ele aponta como o mais relevante é o protagonismo inédito do Rio de Janeiro, que assumiu a liderança em prejuízos com 44% do total nacional, ultrapassando São Paulo pela primeira vez. “Minas Gerais, sendo o estado com mais municípios do País e ocupando uma posição geográfica entre o Sudeste e o Nordeste, é natural que tenha uma rota de passagem relevante para esses fluxos”, avalia.

Ainda de acordo com o relatório produzido pela Nstech, o Sudeste voltou a intensificar sua concentração histórica de roubos, saltando de 61%, no primeiro trimestre de 2025, para 78,2% dos prejuízos nacionais no mesmo período de 2026, tendo como responsável o Rio de Janeiro, que ampliou sua participação, saltando de 16,4% no 1T25 para 44% dos prejuízos no 1T26. Em contrapartida, a região Norte, que havia chegado a 20,2% no mesmo período de 2025, zerou suas ocorrências em 2026, enquanto o Nordeste cresceu para 20,2%, com destaque para a Bahia (que explodiu de 0,7% para 9,2%).

Medicamentos foram os principais alvos

A principal mudança estrutural evidenciada pelo levantamento foi o salto expressivo dos prejuízos envolvendo medicamentos, que saíram de 1,7% no 1T25 para 22,3% no 1T26, nos roubos em todo o País. O levantamento mostra que o crime passou a operar com uma lógica focada em valor: 40,4% dos prejuízos do trimestre envolveram cargas avaliadas em mais de R$ 1 milhão, sendo quase metade dessas perdas (44,4%) do setor farmacêutico.

As cargas fracionadas seguem como a base do risco e lideram o ranking geral com 36,6%, crescendo 8,2% comparado com o 1T25. Por outro lado, houve uma inversão notável no roubo de cigarros, carga comumente roubada em Minas Gerais, que despencou de 34,1% para apenas 3,7%, quando comparado o primeiro trimestre de 2025 e 2026.

“Diante dos dados, fica claro que o foco dos criminosos não é mais o volume e sim o valor da carga e sua liquidez. Essa migração tem implicações diretas para a segurança logística no Brasil. O risco se aproxima da última milha, se infiltra em operações urbanas e exige uma resposta cada vez mais baseada em inteligência, integração de dados, colaboração logística e capacidade de adaptação”, analisa Tanganelli.

No caso dos medicamentos, o crescimento está diretamente ligado à lógica de demanda de consumo. O crime acompanha o mercado: produtos de alto valor e alta liquidez, como injetáveis para emagrecimento, tornaram-se alvos prioritários justamente pelo boom de demanda. É o mesmo raciocínio que explica picos de roubo de eletrônicos em períodos de alta procura. No 1T26, os medicamentos saltaram de 1,7% para 22,3% dos prejuízos, e nas cargas acima de R$ 1 milhão, 44,4% dos sinistros foram nesse segmento.

Em Minas Gerais, os dados do 1T26 não destacam o Estado nesse segmento, no entanto, Tanganelli reforça que sendo rota de passagem para esses fluxos, “é um Estado que merece acompanhamento próximo nos próximos trimestres”.

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