Minas troca ‘inventor de garagem’ por inovação profissional em duas décadas de registros de patentes
O principal perfil do depositante de patentes de Minas Gerais no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) passou por uma radical mudança de perfil em duas décadas: passou do inventor “de garagem”, que representava 76,5% das criações em 2000, para as atividades inventivas empenhadas por empresas e universidades públicas e privadas, que chegaram a 61,9% em 2024. Na prática, essa alteração mostra um amadurecimento da produção mineira.

De acordo com o pesquisador da FJP, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e doutor em economia Leandro Alves Silva, a mudança no perfil de origem das invenções em Minas é positiva porque mostra uma profissionalização do cenário de inovação no Estado.

“O campo de pessoas físicas se parece com o estereótipo do Professor Pardal (personagem de histórias em quadrinhos da Disney), que inventa as coisas na garagem e no laboratório dele. E é normal, em todos os países, você ter muita patente de pessoa física, de gente que inventa e registra. Mas quando você tem patentes originárias de empresas e universidades, significa que a atividade inventiva está organizada”, afirma Silva.
Dessa forma, segue o especialista, não são mais criações pessoais e, sim, de organizações públicas e privadas, que precisam gerar tecnologia e conhecimento, desde uma liga metálica até uma vacina, para se manterem competitivas no mercado. “Significa que conseguimos um grau de estruturação tecnológica, que se organiza em torno de quem faz a atividade inventiva de forma rotineira e consistente, que são as empresas e as universidades”, completa.

Maioria das invenções mineiras em 2024 foi no setor de educação

Os dados estão presentes no Mapa Brasil C&T, plataforma inédita no Brasil, lançada neste mês pela Fundação João Pinheiro (FJP), voltada para gestores públicos de todo o País que buscam comparar regiões, acompanhar tendências, gerar diagnósticos e acessar informações sobre a produção científica e tecnológica, a infraestrutura, financiamento e os recursos humanos na área de ciência e tecnologia (C&T) no Brasil. No painel virtual estão mais de 600 indicadores estratégicos para e sobre municípios, estados, regiões e o País, com opções de visualização em gráficos, mapas interativos, tabelas e relatórios consolidados, em um recorte temporal de 30 anos.
Conforme a plataforma, a maioria das atividades inventivas de Minas em 2024, ano mais recente disponível no painel, são de educação, com 218 registros, o que pode incluir a criação de uma vacina, por exemplo. Em seguida, vêm projetos do setor automotivo (207 criações), como a descoberta de um material ou um componente elétrico. Veja abaixo a lista completa de registros:
- Educação: 218;
- Fabricação de Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias: 207;
- Administração Pública, Defesa e Seguridade Social: 76;
- Fabricação de Máquinas e Equipamentos: 48;
- Comércio Varejista: 25;
- Pesquisa e Desenvolvimento Científico: 17;
- Fabricação de Produtos de Metal, Exceto Máquinas e Equipamentos: 14;
- Atividades dos Serviços de Tecnologia da Informação: 11;
- Comércio por Atacado, Exceto Veículos Automotores e Motocicletas: 11;
- Fabricação de Equipamentos de Informática, Produtos Eletrônicos e Ópticos: 10;
- Fabricação de Produtos de Borracha e de Material Plástico: 10;
- Serviços de Escritório, de Apoio Administrativo e Outros Serviços Prestados às Empresas: 10;
- Manutenção, Reparação e Instalação de Máquinas e Equipamentos: 9;
- Metalurgia: 9;
- Atividades de Serviços Financeiros: 8;
- Produção Florestal: 8;
- Fabricação de Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos: 7;
- Aluguéis Não-Imobiliários e Gestão de Ativos Intangíveis Não-Financeiros: 6;
- Extração de Minerais Metálicos: 6;
- Fabricação de Produtos Diversos: 5;
- Outras Atividades Profissionais, Científicas e Técnicas: 5;
- Publicidade e Pesquisa de Mercado: 5;
- Serviços Especializados Para Construção: 5;
- Atividades Artísticas, Criativas e de Espetáculos: 4;
- Comércio e Reparação de Veículos Automotores e Motocicletas: 4;
- Agricultura, Pecuária e Serviços Relacionados: 3;
- Fabricação de Móveis: 3;
- Obras de Infra-Estrutura: 3;
- Serviços de Arquitetura e Engenharia: 3;
- Construção de Edifícios: 2;
- Fabricação de Produtos Têxteis: 2;
- Fabricação de Produtos de Minerais Não-Metálicos: 2;
- Alimentação: 1;
- Armazenamento e Atividades Auxiliares dos Transportes: 1;
- Atividades de Vigilância, Segurança e Investigação: 1;
- Captação, Tratamento e Distribuição de Água: 1;
- Eletricidade, Gás e Outras Utilidades: 1;
- Esgoto e Atividades Relacionadas: 1;
- Fabricação de Produtos Alimentícios: 1;
- Transporte Terrestre: 1.

Crescimento percentual em Minas foi maior que nacional
Os dados da plataforma Mapa Brasil C&T também apontam que o aumento percentual no número total de invenções registradas por Minas no INPI foi o maior do País entre 2000 e 2024. No Estado foram depositadas 1.233 criações em 2024 contra 472 invenções em 2000, uma variação de 161,23%. No Brasil foram 9.710 criações em 2024 contra 6.452 em 2000, uma variação de 50,50%.
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Na mesma análise, o estado de São Paulo registrou o pior resultado do País, segundo o painel, com um crescimento de 4,35%: em 2024 foram 2.879 criações contra 2.759 invenções em 2000. Por fim, Belo Horizonte obteve alta de 16,6% no período. Veja os números abaixo:

Mapa Brasil C&T ajudará na tomada de decisões

A plataforma Mapa Brasil C&T foi lançada em 14 de maio pela FJP. O sistema, gratuito, foi criado a pedido da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG) e recebeu financiamento do HubMG Gov, programa de inovação aberta do governo de Minas coordenado pela Sede e pela Fapemig.
De acordo com Leandro Alves Silva, o painel foi construído para auxiliar pesquisadores, sejam eles de academia ou de empresas, e gestores públicos na tomada de decisão sobre ciência, tecnologia e inovação, com a grande vantagem de reunir, no mesmo lugar, as principais dimensões do tema.
“Tudo isso em um conjunto significativo de informações longitudinais, ou seja, ela cobre um espectro temporal bastante representativo, com dados consolidados a partir de metodologias robustas, que já foram testadas e conferidas porque, no fim das contas, é uma informação oficial para o Brasil inteiro, com uma possibilidade de desagregação regional em nível municipal e isso você não tem em outro lugar. É uma base completa e confiável”, completa. As dimensões estratégicas acessíveis na plataforma são:
- Produção Científica e Tecnológica (artigos científicos, patentes, programas de computador);
- Recursos Humanos Qualificados (empregos nas áreas de ciência, tecnologia engenharia e matemática, número de mestres, doutores e pesquisadores);
- Infraestrutura Científica (Instituições de Ensino Superior e grupos de pesquisa);
- Transferência de Tecnologia (interação universidade-empresa, contratos de transferência de tecnologia);
- Financiamento à CT&I (quantitativo de bolsas, os gastos de governos estaduais com C&T, valores de isenção fiscal para inovação e valores investidos por órgãos públicos na área, entre outras).
De acordo com o subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Sede-MG, Lucas Mendes, até então, o acesso a esse tipo de informação exigia horas de cruzamento de dados extraídos de diferentes fontes, o que agora é fornecido em segundos.
“A partir dessa plataforma, conseguiremos promover melhorias nas políticas públicas, mais transparência e melhor acesso a todos esses dados, que são de extrema importância para todos aqueles que trabalham no setor público e privado, bem como para aqueles que querem fazer inovação em Minas Gerais”, destaca Mendes.
As fontes oficiais de informações da plataforma são:
- Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes);
- Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI);
- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep);
- Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq);
- Relação Anual de Informações Sociais (Rais);
- Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES);
- Financiadora de Estudos e Projetos (Finep);
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI);
- Portal da Transparência de Minas Gerais;
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC);
- Ministério da Fazenda.
“Os dados levantados são inspirados em indicadores internacionais, como os disponibilizados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), pelo Banco Mundial, pelo Science and Engineering Indicators e pelo U.S. Bureau of Labour Statistics, entre outros”, declara a FJP, em nota.
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