Resiliência de preços e demanda marcam primeiro semestre do mercado de minério de ferro
Os preços internacionais do minério de ferro e a demanda pelo produto brasileiro mantiveram trajetória de resiliência no primeiro semestre, na avaliação de especialistas.
Conforme o analista de investimentos da plataforma AGF, Pedro Galdi, a relação entre oferta e procura permaneceu comportada na primeira metade de 2026, com estoques estáveis nos portos chineses e embarques do projeto Simandou, localizado na Guiné, ainda tímidos em direção ao país asiático. Com isso, o preço da commodity seguiu resiliente, na faixa superior a US$ 100 por tonelada.
O especialista da Valor Investimentos, Gabriel Cecco, afirma que o desempenho do minério de ferro nos primeiros seis meses do ano surpreendeu positivamente. Embora a cotação do fim de junho tenha fechado quase 7% abaixo do patamar do início de janeiro, a média do semestre ficou próxima de US$ 104 por tonelada, superando a média de 2025 e projeções do mercado divulgadas em dezembro, que previam em torno de US$ 94 a tonelada.
De acordo com Cecco, a sustentação do preço da commodity no semestre não decorreu de um aumento na demanda chinesa por aço, que, na verdade, recuou cerca de 3%, assim como o investimento imobiliário, que despencou quase 20%. O fator decisivo foi a retração de aproximadamente 3% na produção chinesa de minério.
“Com as minas locais mais pobres e mais caras, as siderúrgicas chinesas tiveram que importar mais minério. Ou seja, o consumo de aço caiu, mas a produção de minério caiu mais ainda. Esse gap a China precisou fechar importando”, explica o especialista da Valor Investimentos. “Para o Brasil, isso foi ótimo. Exportamos 189 milhões de toneladas em volume, 2,5% a mais, e US$ 13,4 bilhões em valor, 5% a mais”, salienta.
Qualidade do produto brasileiro sustenta resultados
Segundo o professor e coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec-BH, Ari Francisco de Araujo Junior, de forma geral, a demanda pelo minério de ferro brasileiro permaneceu relativamente resiliente no primeiro semestre. O Brasil segue como um dos principais fornecedores globais da commodity e se beneficia da elevada qualidade de seu produto, característica valorizada pelas siderúrgicas em um contexto de busca por maior eficiência e menor intensidade de emissões.
Nesse sentido, o CEO da Aurum Wealth Management, Hugh Harley, afirma que a produção de minério de ferro premium em algumas minas brasileiras ajuda a sustentar a demanda de compradores que buscam um produto mais limpo e eficiente. É o caso da própria China, interessada em reduzir emissões de carbono e cortar custos com coque.

“Há também outros mercados buscando esse minério mais premium, como a Índia, o Sudeste Asiático e o Oriente Médio, o que ajuda a tracionar e manter a demanda pelo produto brasileiro nos patamares em que se encontra”, afirma o executivo. “O que vimos no primeiro semestre foi resiliência e até um leve aumento por conta da qualidade do nosso minério de ferro”, completa.
Projeções para o segundo semestre
Para o segundo semestre, a leitura que predomina entre os especialistas aponta para preços internacionais do minério de ferro em relativa estabilidade ou sob pressão baixista, oscilando em uma faixa entre US$ 90 e US$ 100 por tonelada.
Pesam contra as cotações o aumento sazonal da oferta global pelas grandes mineradoras, a rampa gradual do projeto Simandou e a fraqueza persistente da construção civil chinesa. Por outro lado, novos pacotes de estímulo do governo chinês voltados para infraestrutura e à indústria pesada podem amortecer quedas mais acentuadas ou impulsionar os preços.
Já em relação à procura pelo produto brasileiro, a expectativa geral é de sustentação dos volumes, com possibilidade de leve crescimento na segunda metade do ano. Além do fator sazonal, que historicamente acelera os embarques na segunda metade do ano, o Brasil tem a vantagem estratégica do minério premium, que seguirá demandado globalmente.
Ouça a rádio de Minas