Proibição de bets extingue receita bilionária de times e pode remodelar gestão do futebol

Clubes e casas de apostas fazem lobby contra banimento, mas governo federal reforça decisão de coibir o setor e clubes buscam alternativas
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Proibição de bets extingue receita bilionária de times e pode remodelar gestão do futebol
Foto: Pedro Souza/Clube Atlético Mineiro

Tratada pelo governo como solução para um problema de saúde pública e majoritariamente apoiada pela população brasileira, a proibição das bets no Brasil colocou clubes de futebol ao lado das casas de aposta no lobby contra o banimento, e deve forçar um remodelamento de gestão dos times diante de um baque financeiro de difícil recuperação no curto prazo, segundo analistas e representantes das equipes.

A extinção dessa recente fonte multimilionária de receita de publicidade para os cofres dos times foi tratada pelos clubes como um passo para “o fim do futebol brasileiro” — um argumento que foi rebatido com firmeza pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Nos melhores momentos da história do futebol brasileiro não existiam bets… Os clubes que se virem, nós já aprovamos a lei que os clubes podem virar empresa, agora é preciso colocar gente de competência para (administrar) a empresa”, disse Lula nesta semana.

Uma reunião convocada pelo governo para ouvir demandas dos times de futebol na terça-feira (29) foi adiada, ainda sem previsão de nova data. Uma fonte de um dos ministérios envolvidos no debate disse que ações de apoio ao setor, como uma eventual linha de crédito subsidiada, apenas serão consideradas após esse diálogo.

A medida provisória assinada pelo presidente na última sexta-feira (25), a nove dias do primeiro turno eleitoral, proíbe a operação das bets, que nos últimos anos entraram com força no financiamento do futebol brasileiro. O texto inclui vedação imediata de novos aportes por apostadores e exigência de que todos os sites e aplicativos saiam do ar no país a partir de 6 de outubro.

Pesquisa Quaest divulgada nesta semana apontou que 62% dos brasileiros apoiam a restrição das apostas online no país, contra 32% de posição contrária e 6% que não souberam ou não responderam.

Os times da Série A do Campeonato Brasileiro receberam R$1 bilhão em receitas diretas de publicidade das casas de apostas online em 2025, uma alta de 67% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da consultoria Convocados e da gestora de investimentos em esportes Outfield.

O montante representa quase 10% do faturamento recorrente total dos clubes, segundo o economista Cesar Grafietti, consultor de gestão e finanças do esporte e responsável pelo estudo. Ele destacou que a perda final é ainda maior porque há outras receitas relacionadas às bets, como anúncios nos estádios e cotas de transmissão dos jogos, hoje também maciçamente financiadas pelas casas de apostas.

“Golpe fatal”

O economista afirmou que os clubes serão forçados a buscar alternativas para cobrir esse rombo no curto prazo, incluindo não apenas uma redução de investimentos, mas também negociações comerciais, que terão de tocar agora em posição de maior fragilidade.

“Começa a ter uma reação em cadeia: você é obrigado a vender jogadores e os valores começam a cair, jogadores com contratos a serem renovados podem permanecer com salários menores, e as contratações tendem a não acontecer com os valores que temos visto”, disse Grafietti, acrescentando que espera uma recuperação financeira dos clubes no médio prazo.

Sua expectativa é que ao longo do tempo haja uma redução de custos com o ajuste de contas que os clubes serão obrigados a fazer, combinada a uma recuperação parcial de receitas por meio de parcerias com outras empresas, ainda que em volume menor do que com as bets.

Por se tratar de medida provisória, a norma do governo tem validade imediata, mas depende de posterior validação do Congresso Nacional, onde bets e clubes prometem atuar para derrubar ou modificar a medida. Companhias de apostas online já acionaram o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a proibição, alegando que não haveria urgência que justificasse a edição da medida provisória pelo governo.

Federações estaduais de futebol, incluindo as de São Paulo e do Rio de Janeiro, assinaram na semana passada uma carta na qual apontam “enorme preocupação” com a proibição dos jogos online, no que classificaram como “um golpe fatal para o futebol brasileiro” e que levaria clubes à insolvência.

“O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba”, dizia o documento.

Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa empresas de aposta, disse que a proibição foi implementada de forma abrupta, sem prazo de adaptação e rompendo um diálogo que vinha sendo feito entre empresas e o governo para aprimorar a regulação do setor.

Ele apontou que além dos patrocínios, parte dos recursos recolhidos com a tributação das bets tem um direcionamento obrigatório para áreas específicas, incluindo o Ministério do Esporte e comitês esportivos. Cerca de R$174 milhões foram previstos para direcionamento ao futebol entre janeiro e julho deste ano, segundo o Escritório Nacional de Rateio, associação que centraliza a distribuição dos recursos.

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, disse a jornalistas que o impacto nas receitas do clube pode alcançar R$400 milhões em 2027 entre efeitos diretos e indiretos.

“Isso por si só faz com que o Flamengo não consiga honrar os compromissos que assumiu para o ano que vem”, afirmou.

O clube carioca ingressou no STF na terça-feira com pedido para reforçar processo contra a medida do governo. Na petição, a equipe disse que terá “prejuízo certo, imediato, quantificado e irreversível” e defendeu que haja uma decisão em no máximo uma semana, antes que entre em vigor a proibição total das apostas no país.

Mantida a proibição, clubes deverão buscar novas parcerias, enquanto setores já se movimentam e tratam a medida como oportunidade. Em publicação em redes sociais, o CEO da farmacêutica Cimed, João Adibe Marques, comentou a proibição e afirmou que essa “é a nossa chance, a gente sempre teve o sonho de patrocinar todos os clubes do Brasil”.

Conteúdo distribuído por Reuters

Bernardo Caram
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Bernardo Caram

Agência Reuters


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