Redes mineiras apostam em aquisições para acelerar expansão; veja os casos do Supermercados BH e do Mart Minas
O mercado de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês) tem ganhado espaço entre as empresas mineiras do varejo alimentar. A compra total ou parcial de operações e do controle de concorrentes tem se tornado uma ferramenta importante para a expansão e a consolidação de redes nos mercados regional e nacional, principalmente diante de um cenário financeiro mais restritivo.
Entre as empresas de Minas Gerais que adotam essa estratégia, destacam-se as redes Supermercados BH e Mart Minas. A primeira tem estruturado sua expansão para além dos limites do Estado por meio da aquisição de unidades e empresas concorrentes. Já a segunda está concentrada em ampliar sua atuação na região Sudeste do Brasil.
O presidente executivo da Associação Mineira de Supermercados (Amis), Antônio Claret Nametala, explica que esse movimento é motivado pelas oportunidades de mercado e pela visão de negócio dos empresários. Segundo ele, os executivos do setor têm grande expertise para avaliar o potencial de uma loja e da região, além do perfil do imóvel.
“Muitas vezes, um ponto pode não performar bem com determinado modelo de atendimento, e uma mudança de formato pode atender melhor o cliente daquela região”, explica.
De acordo com um estudo realizado pela Hand Gestão Compartilhada, há 185 redes supermercadistas no País com alto potencial para operações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês). Entre as varejistas identificadas, 43 possuem faturamento superior a R$ 1 bilhão.
O CEO da Hand, Caio Navarro, destaca que o varejo alimentar brasileiro vive um paradoxo entre o crescimento do setor e as condições mais restritivas de crédito, que expuseram vulnerabilidades de algumas empresas. Ele lembra que, segundo dados do Ranking Abras, o faturamento do segmento alcançou R$ 1,145 trilhão em 2025, equivalente a 9,02% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Por outro lado, o cenário ainda é marcado por juros elevados e endividamento recorde das famílias.
“Os casos recentes de recuperação judicial e extrajudicial mostram os riscos de estratégias de expansão acelerada sustentadas por dívida e reforçam a necessidade de rever estruturas, portfólios e alocação de capital”, avalia.
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O especialista explica que a disciplina de custos e a qualidade da gestão deixaram de ser apenas diferenciais e passaram a ser condições de sobrevivência. Para ele, as oportunidades surgem justamente para quem atravessa esse ciclo com “a casa em ordem”. Um exemplo citado é o acordo de R$ 716 milhões entre Supermercados BH e Cencosud, que envolveu a incorporação de 54 lojas, oito postos de combustíveis e um centro de distribuição (CD) da rede Bretas em Minas Gerais.
“É um caso emblemático de uma rede regional bem capitalizada aproveitando a decisão de um grupo internacional de desinvestir ativos e concentrar recursos em mercados considerados mais rentáveis”, afirma.
Para além das oportunidades
Além da oportunidade de expansão para uma nova área de atuação, o consultor de varejo Epifânio Parreiras Júnior relata que, em alguns casos, os controladores da rede vendedora já estão dispostos a se desfazer das operações, o que facilita a negociação.
O especialista destaca que a compra de um terreno e a construção de uma loja do zero tendem a exigir um investimento menor. No entanto, essa estratégia também demanda mais tempo para a consolidação do ponto de venda.
Além disso, Parreiras pontua que questões macroeconômicas, como as taxas de juros elevadas, também interferem na tomada de decisão dos varejistas. Isso porque grande parte dos recursos destinados à construção de novas lojas é oriunda de processos de alavancagem, tornando esses negócios mais suscetíveis a aquisições por concorrentes.
“Vendedor e comprador conseguem chegar a um preço que, mesmo que fique mais caro que o investimento em um ponto do zero, ainda compensa, pois o comprador já irá contar com uma loja com faturamento mais consolidado”, descreve.
Já Claret lembra que o consumidor demanda lojas mais próximas de casa e modernas, além da possibilidade de escolher entre diferentes formatos, mesmo que pertençam a uma mesma empresa. “É nisso que o setor tem apostado”, afirma.
Outro fator mencionado pelo executivo é a proximidade das relações empresariais construídas ao longo de décadas, com base na confiança e no conhecimento mútuo entre os empresários. Segundo ele, isso pode facilitar as negociações.
Supermercados BH cresce por meio de aquisições

O caso mais recente é o acordo firmado entre o Supermercados BH e o grupo DMA Distribuidora, dono das marcas Epa, Mineirão e Brasil Atacarejo. A operação prevê a venda de 160 lojas nos formatos de supermercado convencional e atacarejo, distribuídas por três estados. Também estão incluídos dois centros de distribuição e três postos de combustíveis.
A transação marca a entrada da bandeira na região Nordeste do País, com 15 unidades na Bahia e uma em Pernambuco. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no entanto, ainda avalia a aquisição de 120 dessas unidades, todas localizadas em Minas Gerais.
Essa não é a primeira vez que as duas empresas realizam uma transação dessa natureza. Em 2023, o Supermercados BH adquiriu todas as operações da DMA no Espírito Santo, marcando o início da expansão da rede para além do território mineiro. Ao todo, foram incorporadas 34 lojas, três CDs e um posto de combustível no Espírito Santo, além de duas lojas e um posto em Minas Gerais.
Além dessa operação, a varejista mineira também comprou unidades de outras redes capixabas para ampliar sua atuação na região. Das 47 lojas da marca no estado vizinho, 40 são resultado de aquisições.
Mart Minas e o cenário no atacarejo

A rede mineira de atacarejo Mart Minas é outro exemplo de empresa que tem apostado em aquisições para crescer. Em 2022, ela comprou parte do controle da bandeira fluminense Dom Atacadista, expandindo a atuação para o Rio de Janeiro e formando um dos maiores grupos do segmento no Brasil.
Para Parreiras, esse movimento facilitou a expansão da rede para além dos limites do Estado, uma vez que a entrada no Rio de Janeiro por meio de lojas próprias traria dificuldades maiores, principalmente por se tratar de um mercado ainda desconhecido pela empresa.
Apesar de não contar com muitas unidades na época, o Dom Atacadista já tinha presença relevante no estado vizinho. “Isso foi um grande sucesso, pois eles já sabiam como atuar, já tinham os fornecedores e conheciam o mercado. É muito mais fácil o Mart Minas fazer esse tipo de movimento do que tentar desbravar o Rio de Janeiro”, relata.
Na virada do ano passado para este, o Mart Minas adquiriu e converteu 12 unidades da rede Apoio Mineiro, do Grupo Supernosso. A transação foi resultado da decisão estratégica da empresa vendedora de concentrar suas atividades no segmento de varejo, movimento que pode abrir espaço para operações semelhantes no futuro.
Essa operação foi, inclusive, um dos exemplos citados em relatório do Itaú BBA sobre as atividades de fusões e aquisições no segmento de atacado de autosserviço no País. Outro caso mencionado foi a aquisição das lojas da rede Bretas pelo Supermercados BH.
O estudo indica que as M&As devem continuar avançando nos próximos anos, uma vez que, à medida que o espaço para crescimento orgânico diminui, a consolidação tende a se tornar cada vez mais natural no mercado. Enquanto as grandes redes nacionais seguem focadas na redução do endividamento, marcas regionais aproveitam oportunidades para se consolidar por meio de aquisições direcionadas.
O relatório aponta um padrão de compra de lojas individuais para reforçar a presença regional, em vez da aquisição de empresas inteiras, que envolveria integrações mais complexas e sobreposição de portfólio.
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Além disso, o número de redes mapeadas caiu de 147, na edição anterior do estudo, para 138 em 2025. Para os analistas do Itaú BBA, esse é mais um sinal de um cenário de financiamento mais restritivo, marcado por taxas de juros elevadas e pressão competitiva mais intensa.
Um controlador, duas empresas

Há ainda casos em que a aquisição é feita pelos sócios, e não pela empresa em si. Em Minas Gerais, um exemplo é o da família Coelho Diniz, proprietária da rede de supermercados de mesmo nome, que vem ampliando sua participação no GPA, dono das marcas Pão de Açúcar e Extra, e já detém 25,1% do capital social da companhia.
A participação é distribuída entre os irmãos André Luiz Coelho Diniz, Alex Sandro Coelho Diniz, Fábio Coelho Diniz, Henrique Mulford Coelho Diniz e Helton Coelho Diniz. Cada um possui 24,7 milhões de ações ordinárias, equivalentes a 5,02% do total. Além disso, André Luiz Coelho Diniz ainda ocupa o cargo de presidente do conselho de administração do grupo.
Quando questionado sobre a possibilidade de o Supermercados Coelho Diniz e as demais empresas da família serem considerados concorrentes do GPA, o empresário pontuou que os negócios atuam em áreas geográficas distintas.
Parreiras explica que esse tipo de aquisição é um exemplo de movimento motivado pela oportunidade de investir em um negócio consolidado, mas com valor de mercado abaixo do potencial que a companhia ainda pode apresentar. O preço das ações, segundo ele, está relacionado à avaliação do mercado sobre o nível de endividamento, apesar do lucro operacional positivo.
O consultor destaca o potencial da família para melhorar o lucro operacional e renegociar a dívida do grupo futuramente. Embora não seja o principal objetivo, o especialista afirma que esse tipo de operação também pode contribuir para a troca de know-how entre as empresas, uma vez que cada uma tende a apresentar vantagens em determinadas áreas em relação às concorrentes.
Consolidação no mercado de varejo alimentar

O presidente executivo da Amis avalia que esses movimentos de M&A não são suficientes para indicar uma concentração de mercado. Claret destaca que Minas Gerais possui redes fortes e em expansão e que o mercado mineiro ainda é bastante pulverizado, com espaço para crescimento.
“Temos redes de todos os portes e formatos espalhadas pela Capital e pelo interior desempenhando relevante papel no abastecimento dos lares”, afirma.
Além disso, o executivo ressalta que grande parte dos municípios não tem presença direta das maiores redes do setor. Esse cenário, segundo ele, oferece um espaço enorme para investimentos de empresas de todos os portes. “Penso que não se pode falar em concentração num setor com 47,7 mil lojas em funcionamento no Estado”, pondera.
Parreiras relata que muitas redes regionais cresceram no espaço deixado por multinacionais que não obtiveram êxito no País. Um exemplo foi a saída do Dia Supermercados do mercado mineiro, que abriu espaço para que varejistas, principalmente de pequeno e médio portes, expandissem suas operações por meio da conversão de antigas unidades da marca espanhola.
Segundo o especialista, as empresas regionais vêm se estruturando e profissionalizando a gestão, o que permite identificar com mais clareza novos mercados a serem explorados.
Espaço para crescimento
Ele destaca que as 20 maiores varejistas respondem por 35% a 40% do mercado nacional, enquanto o restante está pulverizado entre milhares de outras redes. O especialista avalia que esse cenário também se aplica ao mercado mineiro, onde cada região possui suas bandeiras de destaque.
Parreiras pontua, portanto, que ainda há espaço para o avanço dessas empresas e considera difícil que ocorra uma concentração significativa no setor. “À medida que essas redes forem crescendo e se estruturando, elas irão aproveitar outras oportunidades, mas longe de ter o domínio do mercado ou algo nesse sentido”, afirma.
Navarro também acredita que há espaço para consolidação, já que o varejo alimentar brasileiro segue bastante fragmentado e regionalizado. Ele lembra que as cinco maiores empresas respondem por cerca de 26% do faturamento do setor no Brasil, enquanto, nos Estados Unidos, os cinco maiores grupos concentram aproximadamente 44% do mercado.
“Essa diferença ajuda a mostrar o espaço potencial para M&A no Brasil. Movimentos como o que vimos em Minas tendem a se repetir em outras regiões nos próximos anos”, diz.
O CEO da Hand destaca que a principal lição para quem pretende vender é o timing. Segundo o especialista, o pior momento para procurar um comprador é quando a deterioração financeira já reduziu as alternativas disponíveis. Nesse cenário, a negociação passa a ocorrer sob pressão e o valor do negócio tende a ser comprimido.
Ele destaca que o empresário que antecipa o movimento, organiza a operação e chega ao mercado em uma situação financeira saudável negocia em uma posição mais favorável. “Nos ciclos de consolidação, boa parte do valor é capturada por quem chega à mesa preparado, dos dois lados da transação”, acrescenta.
Claret ressalta que o mercado supermercadista é dinâmico e que as aquisições sempre existiram. Segundo ele, a diferença neste momento é que redes até então consideradas pequenas cresceram, ganharam escala, profissionalizaram a gestão e passaram a ter maior capacidade financeira para realizar aquisições.
“Isso explica uma percepção de aumento do movimento. Porém, eu não diria que seja exatamente uma tendência, mas um movimento constante e natural do mercado”, acrescenta.
Diante das projeções de manutenção da taxa Selic em patamares elevados nos próximos dois anos, Parreiras avalia que o movimento de fusões e aquisições deverá continuar, com novas oportunidades surgindo no mercado.
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