A caderneta de poupança ficará inviável como aplicação com a perspectiva de redução na taxa de juros - Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou, na última sexta-feira (22), que a taxa Selic pode chegar a 4% no ano que vem.

A declaração, dada durante o Encontro Nacional de Comércio Exterior, no Rio de Janeiro, coloca o investimento na poupança em uma situação ainda mais complicada.

Atualmente, com a taxa Selic a 5%, um rendimento da poupança a 3,5% – já que a TR está em zero – e inflação estimada em 3,33%, de acordo com o boletim Focus, os rendimentos podem ficar praticamente no zero a zero.

Com uma queda ainda mais acentuada da taxa básica de juros, que é aguardada ainda para o fim deste ano, a poupança deve começar a perder para a inflação.

Os rendimentos da poupança, atualmente, são de 70% da taxa Selic mais a taxa referencial (TR) caso a Selic esteja abaixo de 8,5%, que é o caso atual. Acima de 8,5%, o rendimento da poupança passa a ser de 0,5% ao mês mais a TR.

As projeções do boletim Focus apontam para uma inflação de 3,6% em 2020. Caso a taxa Selic caia para 4,5%, o rendimento da poupança chegará a cerca de 3,2%, o que já é menor do que a inflação. No cenário projetado por Paulo Guedes, de 4%, a poupança renderá 2,8%, quase 1 p.p. abaixo da inflação.

A situação, porém, pode se modificar ainda mais. Conforme destaca o coordenador do MBA executivo em mercado de capitais e derivativos do IEC PUC Minas, Vinicius de Castro Scotta dos Passos, o cenário externo – com a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, com a decisão de o Reino Unido ficar ou não na União Europeia, entre outros – pode influenciar a taxa de câmbio, gerando um impacto inflacionário.

Por outro lado, a recuperação econômica do País e o sucesso das reformas estruturais em andamento, principalmente aquelas ligadas à área econômica, podem contribuir para uma situação mais equilibrada, sem que a inflação apresente números ainda maiores.

Mudança de planos – Diante de todo esse cenário, de possível perda de dinheiro na poupança e da possibilidade de a inflação aumentar ainda mais do que o previsto devido à influência também de fatores externos, a escolha de muitas pessoas pode ser a de procurar alternativas para a aplicação das suas economias.

Vinícius de Castro ressalta que, se a opção for por aplicações mais conservadoras, a tendência é de ficar praticamente no zero a zero. Investimentos como o CDI ou Tesouro Selic, atrelados à Selic, possivelmente ficariam próximos da inflação.

O coordenador do MBA em Gestão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, também destaca que outros tipos de aplicações, se não a poupança, exigem uma dedicação maior para fazer uma boa avaliação de onde se deve aplicar o dinheiro, mas que pode ser possível manter o poder de compra do capital com algumas aplicações conservadoras.

O especialista em finanças e fundador da Akiva, empresa de planejamento financeiro, Raphael Mendes, indica bons fundos de DI para os mais conservadores, “mas é preciso estar atento às taxas de administração, que não devem ser altas”, diz ele.

Mudança de cultura – Mas se a ideia for realmente ganhar mais dinheiro, os especialistas são claros: pode ser necessário enfrentar mais riscos. “As pessoas que estão em busca de um maior retorno podem partir para os investimentos em renda variável”, diz Vinícius de Castro.

Ele afirma que algumas possibilidades são as aplicações na Bolsa de Valores, os fundos de investimentos multimercado e os fundos imobiliários. “São produtos, porém, que demandam um estudo prévio”, alerta.

Vinícius de Castro destaca também que a renda variável exige atenção em relação à liquidez, já que, se for preciso retirar o dinheiro investido em algum momento que não é o mais apropriado, podem haver perdas.

Raphael Mendes também chama a atenção para que as pessoas mudem a mentalidade para a diversificação, indo além da renda fixa. “Agregam um retorno maior”, salienta.

Mas, antes de qualquer coisa, é muito importante conhecer bem o mercado em que se vai investir, diz Ricardo Teixeira. “A coisa mais importante é você encontrar alguém que possa esclarecer todas as suas dúvidas, orientar o investimento que você vai fazer e aí tomar a sua decisão consciente dos riscos que está correndo. Eventualmente, em uma aplicação conservadora hoje no Brasil, você pode ficar no nível da inflação, um pouco acima, espera-se que não abaixo, mas é uma aplicação com certa segurança”, diz.