Crédito: Ueslei Marcelino/Reuters Usada em 31-07-19 Usada em 05-11-19 Usada em 25-11-19 Usada em 20-01-20

Em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduziu mais uma vez a taxa Selic, que chegou a 3,75% ao ano, o que representa uma diminuição de 0,5p.p. em relação à taxa praticada anteriormente (4,25%). A medida acompanha as ações adotadas no exterior por outros bancos centrais.

No entanto, embora a queda seja bem avaliada pelo mercado, especialistas e entidades consultados pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO ponderam que a ação, por si só, ainda mais em um momento econômico como este, não deverá ser suficiente para dar um novo fôlego aos empreendimentos.

O presidente da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Aguinaldo Diniz Filho, por exemplo, diz que o corte na taxa básica de juros da economia é positivo, mas não deve trazer muita implementação aos negócios. “Não está havendo consumo. Estamos em uma crise de saúde brava, sinalizando uma crise econômica de grande envergadura tanto para o comércio quanto para a indústria”, salienta ele.

Para o presidente da ACMinas, é importante que o governo traga linhas de financiamentos para o micro e pequeno empresário. “Com a queda das vendas, as obrigações continuando, o capital de giro que porventura se tenha vai evaporar”, analisa.

O professor da Fundação Getulio Vargas – Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV Ebape) Istvan Kaznar também salienta que a redução de 0,5p.p. na Selic é bem-vinda. No entanto, diz ele, “é preciso atacar em múltiplas frentes com coerência macrodinâmica. É mais importante a tomada de decisões que reduzem custos empresariais e geram e mantêm empregos”, ressalta.

Para ele, medidas já sinalizadas pelo governo federal, como a antecipação do décimo terceiro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), devem contribuir para o cenário econômico atual. “As medidas vinculadas a atrasar impostos são convenientes também. O melhor seria, porém, imaginar uma reforma tributária urgente para reduzir a carga fiscal das empresas”, diz.

Comportamento dos bancos – Além das ações complementares à redução da Selic, especialistas também chamam a atenção para a questão de como os bancos devem se portar diante dessa queda.

O economista-chefe da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Guilherme Almeida, frisa que é importante saber como os juros na ponta vão responder a essa redução.

“Existe um diferencial entre a redução da Selic e a taxa de juros praticada no mercado. O mercado espera a redução na ponta. Há uma concentração bancária, de crédito, o que acaba prejudicando a competição dos bancos”, avalia.

Entretanto, espera-se, diz ele, que os bancos olhem para esse cenário de pandemia, de crise na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e realmente respondam com uma redução ainda maior da taxa de juros na ponta, para garantir fôlego aos negócios.

E, por falar em redução ainda maior, a gerente de economia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Daniela Britto, vai além: para ela, a queda da própria Selic foi pequena. “O momento exige uma atitude mais agressiva via política monetária do Banco Central. Há um cenário de queda da economia americana, europeia, o novo coronavírus trouxe um choque de oferta e demanda”, ressalta.

Daniela Britto diz que a Selic deveria ter caído para, pelo menos, 3,25%. “Estamos diante de uma crise sem precedentes. Uma taxa de juros mais baixa significa redução dos custos de alavancagem das empresas, aumento da liquidez da economia. Precisamos de medidas que aumentem a oferta do crédito para as empresas manterem empregos”, destaca.

O economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, conclui que, apesar de o mercado precisar de ações complementares à redução da taxa de juros, “dado o cenário atual, a queda da Selic foi representativa. Historicamente, estamos vindo de um ineditismo. Estamos aprofundados no ineditismo”, ressalta.