Tarifaço dos EUA ameaça exportações de joias e rochas naturais de Minas Gerais
Os últimos dias do empresariado mineiro e brasileiro vêm sendo “assombrados” por uma palavra que é superlativa na gramática e no efeito devastador na economia: tarifaço.
À medida que os EUA estão aplicando aos produtos nacionais e de outros países, com taxas extras para exportação que podem chegar a 37%, tem tirado o sono do setor produtivo que exporta para a maior economia do mundo.
Todos os segmentos estão tentando encontrar soluções. É o caso das indústrias de joias e de rochas naturais. O sentimento é o mesmo.
O cenário é pouco animador e as consequências podem gerar perdas de receitas, fechamento de negócios e redução da força de trabalho.
De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Joalherias, Ourivesarias, Lapidações e Obras de Pedras Preciosas, Relojoarias, Folheados de Metais Preciosos e Bijuterias no Estado de Minas Gerais (Sindijoias Ajomig), Murilo Graciano, esse novo tarifaço vem com uma força mais impactante do que sua primeira versão, em 2025.
“Em 2025 tivemos uma retração das exportações para os EUA na casa de 20%. De 90 milhões de dólares (cerca de R$ 495 milhões) para 70 milhões de dólares (aproximadamente R$ 385 milhões). Trazendo para o contexto de 2026, as tarifas vão ser de 37,5%, o que vai gerar resultados devastadores para a nossa indústria, que é basicamente formada por micro e pequenas empresas”, comenta.
“Esperamos uma retração de produção, freio nos investimentos, perda de alguns postos de trabalho, considerando que o setor emprega 170 mil trabalhadores, fechamento de empresas e municípios mineiros que terão suas receitas prejudicadas, pois exportam para os Estados Unidos”, completa Graciano.
A indústria de joias tem nos Estados Unidos um importante parceiro comercial do setor, pois o país representa entre 30% e 35% do comércio desses produtos para o exterior.
Dor semelhante
Outro segmento que possui relevância na economia mineira e do Brasil, o de pedras naturais, enfrenta uma dor semelhante à do setor de joias: alta dependência do mercado norte-americano.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas), Tales Machado, as exportações brasileiras de pedras naturais representam 50% do que sai do país.
Quem gera volume de compra para os produtores brasileiros são os compradores da “Terra do Tio Sam”. E o tarifaço pode pressionar ainda mais o mercado nacional, que tem outros mercados, mas nada que se compare aos Estados Unidos.
“Quando exportamos, 50% vai para os Estados Unidos. É o nosso principal mercado. Não é que não temos trabalhado outros mercados. A gente já vem trabalhando há anos, já estamos exportando para 120 países. Mas o potencial do comércio americano é uma coisa impressionante. Quem realmente movimenta o negócio é o mercado americano, quem consome o volume, quem gera volume é o mercado norte-americano”, conta Tales Machado.
O dirigente da Centrorochas tem outra ponderação em relação aos produtos que são exportados e foram afetados pelo tarifaço.
“Os Estados Unidos, de tudo que eles importam, 65% é mármore e granito, que foi taxado. E a nossa participação nesse mercado é pequena. Quando o quartzito é poupado, tudo bem, é um grande avanço, já que ele representa 70% do que a gente exporta. Mas os outros 30%, isso desbalanceia toda a cadeia”, disse Tales Machado.
Dependência mútua
Se o mercado dos EUA é o principal caminho para as pedras naturais brasileiras, eles também têm necessidade do nosso produto.
“A gente fomenta a indústria de lá. As marmorarias americanas têm hoje em torno de 200 mil empregos, e a nossa matéria-prima ajuda a sustentar esses empregos. Por isso eles têm interesse no Brasil. Assim, é mais fácil negociar a isenção dele. Já o mármore e o granito, vamos continuar trabalhando para tentar tirar da taxação”, completa Machado.
Soluções
Tanto Tales Machado, da Centrorochas, quanto Murilo Graciano, do Sindijoias Ajomig, entendem que só uma boa articulação da diplomacia brasileira pode reverter mais esse tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump.
“Buscamos sensibilizar o governo para que ele possa negociar para que, se não excluir essa tarifa, ao menos que ela seja mais suave, que dê para o empresariado pelo menos absorver esses impactos, para mitigar os impactos”, disse Graciano.
“Então, a gente tem um trabalho institucional. Nos Estados Unidos, contratamos uma empresa de lobby, na parte de advocacia. Essa empresa tem uma relação forte com o governo Trump, já que trabalhou com eles no mandato anterior, então tem um bom relacionamento. Nós temos uma relação institucional muito próxima com a principal entidade de lá. Acreditamos que, por causa disso, vamos conseguir trabalhar para tirar a taxação do mármore, do granito e das outras rochas”, disse Tales Machado.
“Nessas últimas semanas eu estive em Brasília, participei de uma reunião com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Fernando Elias Rosa, e o programa Brasil Soberano foi reeditado, para que as empresas acessem crédito. E elas farão isso. Também pedimos uma postergação dos tributos federais para as empresas que exportam para os EUA, assim como aconteceu da outra vez”, finaliza Machado.
Fiemg cobra governo
Em nota enviada à reportagem, a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) se posicionou em tom de cobrança ao governo federal para conseguir a reversão do tarifaço.
“A Fiemg aposta na intensificação imediata das negociações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Estados Unidos como o principal caminho para reduzir ou modular a nova tarifa adicional de 12,5% (além dos 25% já impostos) sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano.
A entidade também cobra uma atuação firme, técnica e coordenada do governo brasileiro para buscar a ampliação das exceções e a garantia de regras claras para as empresas, de modo a evitar o agravamento das barreiras impostas ao comércio entre os dois países”, diz a nota.
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