Ao intensificar relações comerciais com outros países, Brasil minimiza impactos do novo tarifaço de Trump
A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre milhares de produtos brasileiros divide a avaliação de especialistas. Enquanto parte do mercado prevê impactos negativos, há economistas que consideram que a diversificação das exportações e a abertura de novos mercados reduzem os efeitos da medida. Para Bruno Carazza, professor da Fundação Dom Cabral (FDC), a China é um dos principais exemplos desse movimento.
“Ao mesmo tempo em que as vendas para os EUA caíram R$ 5 bilhões, as exportações para a China cresceram R$ 16 bilhões e, para outros países, R$ 19 bilhões”, argumenta o economista. Segundo ele, os valores se referem às exportações brasileiras nos últimos 12 meses, em comparação com o período anterior ao início do governo de Donald Trump, ou seja, antes da adoção das políticas de tarifação pelos Estados Unidos, em 2024. Trump assumiu a Presidência da República em janeiro de 2025.
Além dos setores que escaparam do tarifaço, Carazza aponta que a ampliação das relações comerciais entre o Brasil e outros países e o fato de o país não depender tanto economicamente das exportações para os EUA, como ocorria há 20 ou 30 anos, compõem um cenário mais favorável.
No entanto, Carazza pondera que, sem sombra de dúvida, alguns setores vão sofrer com os impactos da tarifação, principalmente em Minas. “Os setores calçadista, moveleiro, de máquinas e equipamentos, de açúcar e álcool e, especificamente, a siderurgia, que arcou com uma tarifa acumulada de 50%, estão sofrendo um impacto bem maior”, afirma. Em contrapartida, o economista assinala que “não é para pensarmos em um efeito generalizado, com quadros de recessão e desemprego”. Segundo Carazza, os tarifaços têm exceções e, graças à mobilização de alguns setores, produtos como café, suco de laranja, celulose, aviões e frigoríficos conseguiram ficar de fora da sobretaxação norte-americana.
O economista Paulo Casaca, do Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead), também afirma que o novo tarifaço não cria um “cenário apocalíptico”, porque o Brasil bateu recorde de exportações no ano passado. “Ou seja, no resultado agregado, o impacto não é tão grande assim na economia brasileira”, pontua Casaca. Mas ele também alerta que não se podem negligenciar os impactos negativos, principalmente para alguns setores que foram sobretaxados.
Na avaliação de Casaca, há questões políticas e econômicas por trás das taxações dos EUA. “O presidente Trump usa o discurso político do governo federal como subterfúgio para o tarifaço, mas, na verdade, o que está por trás disso tudo é o cabo de guerra entre Brasil e EUA sobre pautas como o nosso sistema de pagamentos (o Pix) e o acesso aos nossos minerais críticos”, assinala o economista. Para ele, Trump quer fragilizar a economia brasileira com a política de tarifaços para obter o máximo de vantagens em outras questões econômicas no futuro.
O economista da Fundação Ipead também defende a tese de que a política de tarifação dos EUA tem levado o Brasil a buscar novos mercados para reduzir a dependência do mercado norte-americano. “O Brasil tem buscado relações comerciais com países com os quais tinha poucas relações, como México, Canadá e Índia, e intensificado as relações com a China. Nesse caso, a tentativa norte-americana talvez não esteja dando tão certo assim”, argumenta Casaca.
Além disso, Paulo Casaca aponta que os impactos negativos das medidas de Trump serão sentidos, a médio e longo prazos, pelos consumidores norte-americanos. Ele citou um estudo recente do Banco Central de Nova York que aponta que 80% a 90% do aumento do preço do produto em razão da alíquota de importação está sendo custeado pelas empresas norte-americanas, ou seja, pelo consumidor. “São os norte-americanos que pagam o preço dessa política desastrosa de mais de um ano do governo Trump. A guerra contra o Irã e a política de sobretaxação têm aumentado a inflação, e isso vai ser extremamente antipopular para um presidente que prometeu desinflacionar a economia”, pontua Casaca.
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