Economia

Mercado livre de energia reforça análise de riscos e contratos

Episódio expõe fragilidades do setor, elevando a percepção de risco e levantando dúvidas sobre a segurança energética e jurídica das operações
Atualizado em 15 de abril de 2026 • 12:04
Mercado livre de energia reforça análise de riscos e contratos
Foto: Pavel Mikheyev / Reuters

O mercado de energia atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos, em meio às incertezas provocadas pela exposição da comercializadora Tradener. Os contratos vinculados à empresa podem somar até R$ 5,4 bilhões, um volume que, em caso de colapso, tem potencial para atingir até 55% do consumo energético de Minas Gerais, sobretudo entre indústrias e empresas inseridas no mercado livre.

Nesse ambiente, o risco deixa de ser apenas corporativo e pode desencadear efeitos em cadeia, atingindo geradores, outras comercializadoras e consumidores finais, conforme detalha o consultor em energia da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Sérgio Pataca. O especialista, no entanto, reforça que, no momento, o caso ainda está na fase de mediação e negociação, sem uma dimensão definitiva do impacto.

“O esforço dos agentes envolvidos tem sido concentrado em preservar a continuidade do fornecimento de energia, evitando que a crise financeira se transforme em uma ruptura. No pior dos casos, teremos um efeito cascata, já que o problema de liquidez na Tradener recai sobre as comercializadoras com contrato”, detalha o consultor.

Se confirmada a inadimplência, o especialista faz alusão ao caso do Banco Master, cujo impacto também se estendeu aos credores com contrato e até mesmo a outros bancos, expondo o mercado de forma negativa. A comparação reforça o risco de contágio e a capacidade de um episódio isolado expor fragilidades do mercado, afetando a percepção de risco e deteriorando o ambiente de negócios.

A Tradener, em nota, atribui o cenário a mudanças regulatórias, à expansão acelerada da energia solar e a limitações na capacidade de entrega das fontes renováveis, fatores que, segundo a empresa, afetaram todo o mercado livre.

Segundo Pataca, mesmo sem uma confirmação de quebra, já existe um efeito sistêmico em curso, com sinais de redução de liquidez, aumento da percepção de risco e questionamentos sobre a segurança energética e jurídica das operações. “Embora o mercado já tenha registrado outros episódios de estresse, o caso da Tradener se destaca pelo porte, reputação e elevado volume de contratos, o que amplia o potencial de impacto”, salienta.

A companhia afirma que sua proposta preserva os preços originalmente contratados, em um contexto de alta no mercado e menor liquidez para recontratação, e que o ajuste de perfil busca compatibilizar a entrega de energia com as condições reais das fontes contratadas.

Um exemplo citado é o caso da companhia de Recife (PE), Vega Energia, que, em 2019, enfrentou dificuldades para honrar contratos, o que expôs fragilidades na gestão de risco e na alavancagem das operações. À época, a inadimplência acabou afetando outras partes e teve reflexos diretos na confiança do mercado.

“Após o episódio da Vega Energia, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) endureceu critérios e passou a ser mais restritiva com a entrada de novos comercializadores. Agora, com o caso da Tradener, considerada a mais antiga do mercado livre de energia e pioneira na atividade de comercialização no País, o setor revisita esse histórico sob uma perspectiva ainda mais sensível”, detalha o consultor.

Efeito dominó no mercado acende alerta em Minas

Embora o eventual impacto e as incertezas geradas sejam de âmbito nacional, Pataca estima que o impacto possa atingir, em maior ou menor grau, o consumo de energia no mercado livre mineiro. Atualmente, ele destaca que mais da metade do consumo (55%) no Estado está nessa modalidade, incluindo indústrias e comércios de grande porte, que podem sofrer com o aumento de custos de um dos principais insumos para as operações.

“Esse cenário tende a pressionar diretamente o principal insumo da atividade produtiva, ao reduzir a liquidez do mercado e encarecer a energia. Na ponta, o efeito pode se traduzir em aumento de custos para empresas e, consequentemente, em produtos e serviços mais caros ao consumidor final”, comenta Pataca.

Vale lembrar que uma comercializadora atua como uma “corretora de energia”, intermediando a compra junto a geradores e a venda para empresas. As companhias trabalham estruturando contratos, gerindo riscos e otimizando custos, acompanhando preços e condições do mercado, especialmente no ambiente da CCEE, para garantir previsibilidade e competitividade na conta de energia.

Justiça garante cumprimento de contratos por 60 dias

Em nota divulgada na segunda-feira (13), a Tradener informou que a 27ª Vara de Falências e Recuperação Judicial de Curitiba concedeu uma tutela de urgência para que a comercializadora de energia cumpra, por 60 dias, os contratos de fornecimento de energia. Também foi concedida a suspensão de ações e execuções contra a empresa para viabilizar a negociação com credores em mediação.

“As entregas de energia deverão cumprir os termos dos contratos de compra e venda de energia elétrica (CCVEE), mantendo os preços pactuados, sem desconto ou renegociação. A execução deverá considerar a ‘curva de carga’ correspondente ao perfil de recebimento de energia junto aos seus fornecedores”, finaliza o comunicado.

Nota da Tradener

Em posicionamento encaminhado à imprensa, a Tradener afirma que o mercado livre de energia atravessa um período de instabilidade decorrente de fatores estruturais, como mudanças regulatórias, expansão acelerada da energia solar acima do planejamento do setor e limitações na capacidade de entrega das fontes renováveis ao sistema.

Segundo a empresa, esses elementos alteraram a lógica econômica dos contratos e impactaram de forma ampla os agentes do mercado livre, não se restringindo à sua operação.

A companhia informa que ingressou com medida cautelar na 27ª Vara Cível e Empresarial de Curitiba, com o objetivo de assegurar a continuidade das operações e o atendimento aos clientes enquanto negocia uma solução com contrapartes.

De acordo com a Tradener, a mediação em curso busca preservar o fornecimento de energia e construir uma saída negociada entre os envolvidos. A empresa destaca ainda que o chamado ajuste de perfil não reduz o volume total contratado, mas busca adequar a entrega ao perfil real das fontes que compõem o lastro, com o objetivo de garantir viabilidade operacional.

A proposta, segundo a comercializadora, está sendo apresentada individualmente aos agentes do mercado e prevê a manutenção dos preços originalmente contratados, em um cenário de elevação dos preços e menor liquidez para recontratação.

A Tradener ressalta que atua há quase 30 anos no setor e que o momento atual reflete a escala das transformações em curso no mercado, defendendo que a solução depende de negociação com clientes e parceiros comerciais.

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