Crédito: REUTERS/Sergio Moraes

O novo coronavírus (Covid-19) alterou a rotina de diversos países do mundo e os impactos da disseminação da doença sobre a economia mundial são inevitáveis. Alguns especialistas já falam no pior trimestre da história mundial.

O Brasil, que vinha ensaiando uma recuperação, após um longo período de crise e recessão, já projeta estagnação do Produto Interno Bruto (PIB) para este exercício.

Especialistas consultados pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO são unânimes ao dizer que, assim como para a saúde, os próximos meses prometem não ser nada fáceis também para o campo econômico.

Comércio, serviços e indústria já sentem os efeitos imediatos da crise novamente instaurada no País. Milhares de empresas poderão fechar as portas e os níveis de desemprego tendem a subir, contribuindo ainda mais para cenário de incertezas.

De acordo com o ex-diretor do Banco de Política, Economia e Dívida do Banco Mundial e professor de economia da Fundação Dom Cabral (FDC), Carlos Braga, existem três panoramas possíveis para a economia brasileira a partir da pandemia.

O mais otimista, que indica queda forte de atividade, mas que deve durar um ou dois trimestres e uma recuperação rápida a partir do controle da doença; o moderado, em estilo “U”, que indica uma recuperação lenta após o ápice de contaminação; e um catastrófico em que, mesmo com a saúde solucionada, setores seguirão estagnados, levando a uma situação apocalíptica do emprego e da renda no País.

“A maioria dos analistas aposta nesta situação, com uma recuperação mais demorada e esta também é a minha visão. Certamente teremos uma recessão mundial em 2020 e a projeção de crescimento do PIB do Brasil em 0,02% pelo governo, para mim, está otimista demais”, avaliou.

A justificativa, conforme o especialista, é que uma crise de saúde pública gera efeitos tanto na demanda quanto na oferta. E, embora em um cenário de pandemia, o isolamento social seja fundamental para controlar o avanço da doença, a medida leva os setores econômicos para um “estado de coma” de grandes consequências.

“No curto prazo, o efeito dramático ocorrerá no consumo e também na oferta por determinados segmentos, como transporte e serviços. Já está ocorrendo. Mas para o médio e longo prazos, vai depender do ritmo de controle do vírus”, completou.

Sobre as medidas que o governo federal vem adotando, como forma de diminuir as consequências na área econômica, Braga avaliou como paliativas e não totalmente corretas. Segundo ele, o problema é que tentar estimular a demanda em um cenário como o atual, não vai surtir grandes efeitos.

O professor do Departamento de Economia da PUC Minas, Durval Fernandes, por sua vez, disse que o viés liberal adotado pelo governo Bolsonaro poderá piorar a situação. Ele justificou que diante do risco iminente de problemas sociais após o ápice do coronavírus no País, outras medidas deveriam ser tomadas.

“Os efeitos serão catastróficos em todo o mundo. Países com economias mais robustas terão alguma saída. Neste ponto, é bom lembrar que o Brasil já não se encontrava em boa situação e os impactos poderão ser ainda piores”, adiantou.

Como exemplo, ele citou a permissão do governo a empresas e órgãos públicos de cortarem até metade dos salários e da jornada de trabalho de funcionários, regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “Isso vai aumentar a pobreza. Enquanto em outros países o governo está caminhando para ajudar as pessoas, aqui tendem a deixar à própria sorte da população”.