Avenida Tereza Cristina, na região Oeste da Capital, foi inundada quatro vezes nas chuvas deste ano | Crédito: Marcelo da Costa/Defesa Civil/Divulgação

Não é possível evitar chuvas fortes, como as que caíram sobre a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) em janeiro e fevereiro deste ano. Mas é possível minimizar seus estragos. O segredo está no monitoramento e na prevenção.

Para isso, a engenharia tem soluções a oferecer. E há tempo para que essas soluções possam ser implementadas. A janela é de seis a oito meses – o tempo que vai de agora até o início da próxima estação das chuvas, no final do ano.

A engenheira civil e professora do curso de engenharia do Centro Universitário UNA, e doutora em recursos hídricos Márcia Maria Guimarães, afirma que as chuvas deste ano que ocorreram principalmente no dia 28 de janeiro, cuja intensidade máxima foi observada na bacia do córrego do Leitão na região Centro-Sul da Capital, foram eventos climáticos totalmente fora do padrão ou “fora da curva”.

Porém, segundo ela, é possível reduzir seus danos, caso venham a repetir-se nos próximos anos. Umas das medidas que ela sugere é a melhoria das informações preventivas sobre as chuvas críticas.

Um avanço, no seu entendimento, é o mesmo sistema de monitoramento e alerta indicar também, com maior precisão o nível que a água deverá atingir nos cursos de água nas regiões que vierem a ser as mais afetadas, o que ainda não ocorre hoje.

De acordo com Márcia Guimarães, ao informar isso, o cidadão poderá, com certa antecedência, deixar o local, ou retirar até mesmo uma parte de seus pertences. “Ele precisa saber até onde a água vai chegar na porta da casa dele”, afirma Márcia Guimarães. “É preciso fazer um refinamento maior do sistema de previsão de alerta de cheias”, diz a engenheira, que também faz parte da Comissão de Recursos Hídricos da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

Engenharia – Do ponto de vista da engenharia, o engenheiro civil Sérgio Menin Teixeira de Souza considera importante a construção dos chamados “piscinões”, instalações que, em chuvas de grande volume, armazenariam parte da água de forma a evitar que toda ela escorra, ao mesmo tempo, para o sistema de drenagem. Este, sem conseguir dar vazão ao volume extra de água que recebe, transborda, como ocorreu quatro vezes este ano na avenida Tereza Cristina, na região Oeste de Belo Horizonte.

O importante, segundo ele, é que, nas chuvas de grande volume, consiga-se o aumento do tempo de concentração, nome técnico dado ao intervalo de tempo que a água gasta para ir da cabeceira do curso d’água ao canal principal de escoamento. Quanto maior a impermeabilização do solo, menor é o tempo de concentração.

Em Belo Horizonte, nas últimas décadas, com o aumento da impermeabilização, ocorreu a redução desse tempo e, com isso, o aumento da vazão. Os sucessivos transbordamentos da Tereza Cristina, como ocorrerem neste ano, são a face visível da redução do tempo de concentração.

Lá, de acordo com Sérgio Menin, o cálculo da vazão do canal não levou em conta, em sua totalidade, o aumento da impermeabilização do solo que ocorreria nas décadas seguintes ao planejamento da obra, que foi feita no início dos anos de 1990. Porém, ele mesmo reconhece que refazer o canal, aumentando sua calha, é algo impossível, pelo custo e também pelos transtornos que causaria à rotina da cidade.

Para isso, ele defende como solução principal a construção das bacias de contenção, nome técnico dado aos populares “piscinões”. Para o córrego do Ferrugem, afluente do Arrudas, estão previstos três. Sérgio Menin afirma que, em seis meses, desde que se tenha os recursos, é possível construir, senão os três, mas pelo menos um ou dois, que nas chuvas do ano seguinte já amenizariam os possíveis efeitos das chuvas fortes.

Além dos piscinões, há também, do ponto de vista da engenharia, a alternativa de se introduzir, na calha do próprio canal, artifícios que reduziriam a velocidade da água, como os degraus de dissipação de energia ou mesmo a redução de sua declividade, esta última, como ele mesmo reconhece, mais difícil, do ponto de vista técnico, de ser implementada.

Sérgio Menin afirma, porém, que, do ponto de vista da engenharia, é possível reduzir a possibilidade de transbordamento, bastando, para isso, que as soluções técnicas de engenharia sejam corretamente aplicadas.“Deixamos de tratar o assunto com a devida técnica e o resultado tem sido catastrófico”, afirma Sérgio Menin.

Conjunto de medidas – Para o engenheiro civil especializado em obras hidráulicas Mário Cicarelli Pinheiro, ex-professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em relação às chuvas do dia 28 de janeiro, não haveria muito o que fazer, tendo em vista que foram precipitações em volume muito acima do normal.

Porém, de modo geral, para se amenizar os efeitos das chuvas no próximo verão, ele recomenda que se adote um conjunto de medidas, como a construção de bacias de detenção no ribeirão Arrudas, bem como os desvio do canal de macrodrenagem da avenidaVilarinho, na região Nordeste de Belo Horizonte.

Ele também defende, em conjunto com a Defesa Civil, o aprimoramento do sistema de alerta contra enchentes, considerando-se, como ele ressalta, a grande eficiência já obtida durante as últimas chuvas. Cicarelli propõem, ainda, a divulgação das áreas com risco de inundações nos trechos mais críticos dos fundos de vale e que seja estudada a eficiência da aplicação das chamadas técnicas compensatórias de drenagem urbana,como telhados verdes, jardins de chuva, trincheiras de infiltração e reservatórios de detenção em nível de lote, entre outras medidas. (Conteúdo produzido pela SME)