Crédito: Alisson J. Silva/Arquivo DC

O governo de Minas Gerais criou um comitê para acompanhar a evolução do quadro fiscal e econômico e determinar a adoção de medidas para minimizar os impactos causados pelo novo coronavírus (Covid-19) ao Estado.

Entre os motivos que levaram à nomeação do grupo está um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), que indica queda de 10% no Produto Interno Bruto (PIB) mineiro e perda de 2 milhões de postos de trabalho em 30 dias de inatividade.

O levantamento da entidade também analisou as perdas em outros dois cenários: paralisação dos setores produtivos por 60 e 90 dias. No caso de 60 dias, a projeção de queda do PIB mineiro é de 19% e os postos de trabalho perdidos poderão chegar a 3,6 milhões ainda neste exercício. Já considerando 90 dias de ociosidade, os números poderão ser de -27,6% e -4,9 milhões, respectivamente.

De acordo com o decreto assinado pelo governador Romeu Zema (Novo) e publicado no Minas Gerais, o grupo será formado pelas Secretarias de Estado da Fazenda, Geral, Desenvolvimento Econômico, Governo, Infraestrutura e Mobilidade, Planejamento e Gestão; Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG); Fundação João Pinheiro (FJP); e Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (Indi).

O comitê conta ainda com membros convidados, como a própria Fiemg, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG) e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH).

Menos restrição – Na avaliação do presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, o principal papel do grupo será o de conscientização dos mineiros quanto à importância de medidas menos restritivas ao funcionamento da indústria e comércio em função da pandemia do novo coronavírus. Segundo ele, o isolamento total, como proposto até o momento por alguns governadores e prefeitos; poderá resultar em impactos profundos à economia.

“Não acho que estamos tomando as medidas mais inteligentes. Existe a necessidade da contenção do vírus, mas isso pode ser feito de uma forma melhor. Não podemos, diante de uma crise, criar outra. Por isso, defendemos a retomada gradual das atividades já a partir da semana que vem, permitindo com que toda a economia volte a girar”, argumentou.

O estudo da entidade indica que os efeitos negativos no mercado de trabalho e no PIB de Minas Gerais e do Brasil. Com 30 dias de paralisação, apenas o PIB mineiro poderá apresentar queda de até 10,2% em 2020. Apenas o setor de serviços do Estado poderá recuar em até 36,4%. Além disso, a indústria apresentaria perdas de 17% e a agropecuária de 5,4%. As maiores demissões aconteceriam no setor de serviços, com 1,02 milhão de demitidos, seguido pela indústria, com 369,6 mil.

Entre os setores, conforme Roscoe, já há quedas elevadas nos níveis de produção. Segundo ele, apenas exportadores estão conseguindo manter o ritmo de atividade, devido à retomada da demanda na China – que já ensaia recuperação após registrar o primeiro caso de Covid-19 no mundo, em dezembro do ano passado, e manter sua indústria paralisada por quase três meses.

“Os demais todos estão sendo impactados, pois dependem de encomendas do mercado interno para sobreviver. Se comércio e serviços estão paralisados, para quem eles vão produzir? E se outras áreas também estão suspensas, para quais indústrias fornecerão suprimentos?”, questionou.

Conforme o estudo, setores como fabricação de máquinas e equipamentos elétricos, produção de ferro-gusa, siderurgia e tubos de aço, defensivos, desinfetantes, tintas e químicos, celulose, citando alguns exemplos, teriam uma queda da atividade superior a 20%.

Por meio de nota, o presidente da CDL-BH, Marcelo de Souza e Silva, comentou a participação da entidade no comitê criado pelo governo de Minas. “É muito importante que o governo ouça os segmentos do setor produtivo para a tomada de decisões. Quem está na ponta, vivendo a realidade dos empresários, trabalhadores e clientes, tem muita propriedade para oferecer boas ideias e sugestões”, ressaltou.

Cargas transportadas recuam 26% no País

São Paulo – O Brasil registrou uma queda de 26% no volume de cargas transportadas por caminhões nos dias 23 e 24 em relação ao movimento normal antes das medidas contra o coronavírus, que determinaram o fechamento de várias empresas e serviços não essenciais, de acordo com pesquisa realizada pela associação de empresas de transporte NTC&Logística.

O levantamento, com quase 600 transportadoras, mostrou ainda queda de 29,8% no transporte de cargas fracionadas, que atendem distribuidores, lojas e supermercados; e redução de 22,9% em cargas lotação, que ocupam toda a capacidade dos veículos, demonstrando desaceleração de setores do agronegócio, do comércio geral e de grande parte da indústria.

Considerando apenas o agronegócio, segmento classificado pelo governo como essencial e isento de restrições, a queda na demanda por transporte é de 11,5%, pressionada mais por produtos perecíveis, como flores e hortaliças, uma vez que o escoamento da safra de soja tem garantido firmeza na procura por caminhões que transportam grãos, disse à Reuters o responsável pela pesquisa, Lauro Valdivia.

“Esse número inclui todos os produtos do agronegócio, não é só grãos. Inclui flores, que parou. Mas a gente sabe que o agronegócio, o transporte de grãos não parou”, afirmou.

O Brasil, maior exportador global de soja, está transportando uma safra recorde para os portos, com o mercado internacional, especialmente a China, na expectativa de fluxos constantes neste período de colheita, até porque o país asiático precisa repor estoques enquanto sua atividade industrial é retomada após a crise do coronavírus.

Outros setores – Em carga de lotação, a pesquisa apontou maior recuo no transporte de produtos da indústria de embalagens, de 55,3%, seguido por redução na movimentação de produtos da indústria automobilística, que caiu 37,6%, em meio a férias coletivas de várias empresas.

O levantamento indicou ainda redução de 16,2% no transporte de produtos não refrigerados da indústria alimentícia, queda de 20,7% para refrigerados, e de 18,60% para comércio e supermercados.

Valdivia explicou que falta demanda para transporte da maioria dos setores, mas destacou que também há problemas de falta de pagamento, o que faz com que a transportadora deixe de realizar novos serviços.

“Tem situações que a gente nem imagina, um grande cliente disse que ‘não ia pagar’; aí o transportador falou, ‘se não vai me pagar, não vou retirar cargas’”, comentou o especialista, explicando que muitos clientes de transportadoras, devido ao fechamento de comércios e empresas, estão sem recursos para honrar pagamentos, mesmo de fretes fechados antes da crise.

Segundo ele, mais de 50% dos clientes estão dizendo para transportadores que não têm recursos para pagar faturas anteriores. “Dizem que não têm condições, não têm caixa, se a quarentena perdurar, isso vai trazer mais problemas”.

Ele comentou que os dois principais custos do transportador (combustível e mão de obra) são pagos praticamente à vista, o que deixa as empresas que transportam em situação difícil se não recebem faturas anteriores.

As limitações para formar cargas fracionadas, de caminhões que transportam produtos essenciais e outros não essenciais, como roupas, também é uma dificuldade do setor. Entre as soluções seria a postergação de pagamentos de impostos, comentou Valdivia.

“O pessoal está pedindo para prorrogar prazo de pagamentos de impostos, mas, com relação ao volume de cargas, só quando voltar mesmo”.

O transporte de produtos dos setores químico e agroquímico viu recuo menos acentuado, de 7,9%, enquanto o único segmento que registrou aumento foi a indústria farmacêutica, ainda assim uma alta modesta de 0,84%.

O presidente da NTC&Logística, Francisco Pelucio, ainda ressaltou em nota que há setores que continuam sendo abastecidos. “Não houve recuo na entrega de medicamentos. As farmácias estão sendo atendidas”, destacou.

A ideia é de que o índice de transporte seja semanal até o final da crise. (Reuters)