Finanças

Aposentados ajudam famílias e movimentam comércio com antecipação do 13º salário, analisa Fecomércio-MG

Liberação antecipada do benefício injeta R$ 78,2 bilhões na economia; recursos devem ser usados principalmente para quitar dívidas e despesas essenciais
Aposentados ajudam famílias e movimentam comércio com antecipação do 13º salário, analisa Fecomércio-MG
Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

A antecipação da segunda parcela do 13º salário dos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) terá impacto momentâneo no orçamento das famílias e na movimentação do comércio. Isso porque os aposentados têm assumido um papel de sustentação familiar, ajudando filhos e netos com despesas básicas.

O calendário de pagamentos começou nessa segunda-feira (25) e seguirá até o dia 8 de junho. A data do depósito varia conforme o número final do cartão do benefício, sem considerar o dígito verificador, que aparece após o traço. Essa etapa prevê a transferência de cerca de R$ 39 bilhões aos beneficiários.

Somada ao valor da primeira parcela, depositada em abril, a medida do Ministério da Previdência Social (MPS) representará uma injeção de R$ 78,2 bilhões na economia. Ao todo, mais de 35 milhões de pessoas serão beneficiadas com esses recursos em todo o Brasil.

A economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio-MG), Gabriela Martins, destaca que esse pagamento injeta recursos importantes na economia em um momento de juros elevados e renda pressionada. Segundo ela, o dinheiro tende a ser utilizado, principalmente, para o pagamento de dívidas, contas acumuladas e despesas essenciais.

“Hoje, o aposentado deixou de ser apenas responsável pelo próprio sustento e passou a ocupar, em muitos casos, a posição de arrimo de família”, acrescenta.

Atualmente, segundo a especialista, tem se tornado comum que a renda de aposentados e pensionistas seja destinada a “socorrer” filhos, netos e outros parentes. Os idosos têm contribuído para o pagamento de aluguel, alimentação, medicamentos e contas básicas da família.

Pagamento de contas em atraso

Para a economista, o impacto imediato tende a ser positivo para os indicadores de inadimplência, já que parte relevante dos recursos deve ser destinada à reorganização financeira das famílias. Ela explica que a antecipação do 13º salário cria um alívio momentâneo no orçamento doméstico.

“Muitas famílias aproveitam esse recurso para quitar débitos em atraso, reduzir o uso do crédito rotativo e recuperar parte da capacidade de consumo”, relata.

Além disso, Gabriela Martins destaca que aposentados e pensionistas possuem uma renda mais previsível, o que faz com que o dinheiro circule rapidamente na economia local, especialmente no comércio e nos serviços essenciais. “Boa parte desse público tende a manter um padrão de consumo mais voltado para a subsistência, com gastos maiores nas despesas do dia a dia”, completa.

A especialista ressalta que esse grupo tende a gastar mais com itens como medicamentos e outros insumos médicos, além de serviços de cuidado. Esse tipo de gasto compromete grande parte da renda, deixando pouco espaço disponível para outros tipos de consumo, o que acaba incentivando uma maior demanda por crédito.

Apesar de assumirem cada vez mais responsabilidades e o papel de arrimo familiar, a economista pontua que esse grupo também demonstra falta de educação financeira. Ela lembra que, de acordo com dados da Serasa Experian, o Brasil registrou um aumento de 43,16% no número de pessoas com mais de 60 anos inadimplentes entre 2020 e 2025.

“A falta de conhecimento financeiro e de controle orçamentário doméstico está entre os fatores que têm gerado o superendividamento, que, em muitos casos, também leva à inadimplência”, destaca.

Impacto no comércio

Loja da rede de atacarejo Mart Minas.
Foto: Divulgação Mart Minas

Com isso, Gabriela Martins projeta que grande parte dos recursos destinados aos beneficiários do INSS deverá ser utilizada no pagamento de dívidas, principalmente aquelas em atraso. Esse fôlego financeiro, segundo ela, também tende a beneficiar setores como comércio, lazer e até turismo, uma vez que as famílias passam a consumir mais e, em muitos casos, à vista.

Além disso, a especialista espera que muitas famílias consigam realizar um planejamento financeiro, por meio de investimentos ou da poupança, pensando nos gastos de fim de ano.

Ela avalia essa antecipação de recursos como estratégica para injetar renda em todo o setor do comércio, com destaque para lojas de bairro, supermercados, farmácias e o setor de serviços.

No entanto, apesar do efeito positivo no curto prazo, a economista da Fecomércio-MG alerta que a medida não representa aumento real de renda ao longo do ano. A especialista ressalta que se trata apenas de uma antecipação de pagamento que já ocorreria no segundo semestre.

“Existe um efeito estrutural importante. O recurso ajuda agora, mas fará falta nos meses finais do ano, período em que, tradicionalmente, o 13º funciona como apoio para equilibrar o orçamento das famílias”, diz.

Gabriela Martins acrescenta que, sem melhora consistente na renda e nas condições de crédito, haverá risco de retorno do endividamento já nos próximos meses. Ela pontua que a antecipação do pagamento funciona como um “fôlego temporário” diante de um cenário econômico ainda desafiador.

“A medida contribui para reduzir momentaneamente a pressão financeira sobre as famílias, mas não resolve o problema estrutural do endividamento, que continua ligado aos juros altos, à inflação e à dificuldade de recomposição da renda”, conclui.

Custo de vida elevado

A economista destaca que o pagamento da segunda parcela, somado ao lançamento do programa Novo Desenrola Brasil, proporciona um momento oportuno para o pagamento de dívidas. No entanto, ela pondera que fatores externos, como a taxa de juros aplicada aos consumidores e o custo do crédito, seguem exercendo grande influência.

Outro ponto mencionado é o fato de o momento atual mesclar um cenário de ganho real da renda, devido ao reajuste do salário mínimo, com outro de aumento acelerado do custo de vida. Gabriela Martins relata que a inflação já atingiu o teto previsto pelo Banco Central, enquanto o Boletim Focus dessa segunda-feira projeta um estouro da meta neste ano.

Ela esclarece que o temor é de que quem conseguiu sair da inadimplência neste momento acabe retornando a esse patamar nos próximos meses devido ao aumento do custo de vida. A economista lembra que o fim do ano, por exemplo, é marcado por gastos característicos com festas e presentes típicos do período. “Depois, em janeiro e fevereiro, temos os gastos fixos anuais, como IPTU, IPVA, matrícula escolar e reajustes do plano de saúde”, descreve.

Portanto, essa injeção financeira tende a ser positiva tanto para as famílias quanto para o comércio. Porém, se o cenário continuar marcado por juros elevados e pressão sobre a renda familiar devido à inflação, a especialista acredita que o resultado poderá ser o retorno do endividamento.

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