Crédito: Antonio Cruz/ABr

Brasília – O Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros acima do esperado pelo mercado, à mínima histórica de 3% ao ano, e sinalizou um último corte à frente para complementar o estímulo monetário necessário em meio aos impactos da pandemia do novo coronavírus na economia.

A nova redução não deve ser maior que a adotada ontem, de 0,75 ponto, frisou o BC, indicando que a Selic não deve cair aquém do patamar de 2,25% ao ano. O BC também advertiu que seu próximo passo dependerá da evolução do quadro econômico e das perspectivas para as contas públicas.

O corte de 0,75 ponto ocorreu após uma redução de 0,5 ponto na taxa básica em março. Pesquisa feita pela Reuters com 26 economistas mostrou que todos esperavam nova redução de 0,50 ponto desta vez.

“O Copom (Comitê de Política Monetária) entende que, neste momento, a conjuntura econômica prescreve estímulo monetário extraordinariamente elevado, mas reforça que há potenciais limitações para o grau de ajuste adicional”, disse o BC, em seu comunicado.

“O Comitê avalia que a trajetória fiscal ao longo do próximo ano, assim como a percepção sobre sua sustentabilidade, serão decisivas para determinar o prolongamento do estímulo”, completou.

Este foi o sétimo corte consecutivo da taxa Selic, em um cenário de paralisação da economia em meio aos impactos econômicos do surto de Covid-19.

Em seu comunicado, o BC ponderou que há limitações para novos cortes, mencionando em mais de um trecho a importância de o País voltar ao esforço de reequilíbrio fiscal após o desvio imposto pelos gastos extraordinários para o enfrentamento ao coronavírus.

O BC também abriu a divisão que chegou a haver na reunião, com dois membros da diretoria colegiada defendendo que, mesmo com a possibilidade de elevação da taxa de juros estrutural, poderia ser oportuno adotar um corte maior de juros ontem, acompanhado da sinalização de manutenção da taxa básica pelos próximos meses.

Essa alternativa viria para reduzir os riscos de não cumprimento da meta de inflação para 2021.

“Entretanto, foi preponderante a avaliação de que, frente à conjuntura de elevada incerteza doméstica, o espaço remanescente para utilização da política monetária é incerto e pode ser pequeno. Assim, o Copom optou por uma provisão de estímulo mais moderada, com o benefício de acumular mais informação até sua próxima reunião”, afirmou o colegiado.

Economia em queda – O BC avaliou que o tombo da economia neste ano será significativamente superior ao previsto na última reunião do Copom, levando em conta indicadores “de maior frequência e tempestividade” de abril. De qualquer forma, não chegou a abrir suas estimativas.

Em relação ao cenário externo, o BC afirmou que a pandemia está provocando uma “desaceleração significativa do crescimento global, queda nos preços das commodities e aumento da volatilidade nos preços de ativos”.

Por conta disso, o BC ressaltou que o quadro para as economias emergentes segue desafiador, com saída expressiva de capitais e superior à observada em outros episódios.

Em meio a esse contexto, o BC frisou que as diversas medidas de inflação subjacente -que não consideram os preços mais voláteis – se encontram abaixo dos níveis compatíveis com o cumprimento da meta para a inflação no horizonte relevante para a política monetária.

Neste ano, a meta é de 4%, e no ano que vem, de 3,75%, sempre com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

“Para a próxima reunião, condicional ao cenário fiscal e à conjuntura econômica, o Comitê considera um último ajuste, não maior do que o atual, para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia do Covid-19”, disse.

“No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e ressalta que novas informações sobre os efeitos da pandemia, assim como uma diminuição das incertezas no âmbito fiscal, serão essenciais para definir seus próximos passos”.

O Copom volta a se reunir em 16 e 17 de junho. (Reuters)

Compra de ativos pode ser arriscada para emergentes

Londres – Os bancos centrais de mercados emergentes estão lançando programas de compra de ativos para ajudar a mitigar o impacto econômico do coronavírus, um novo teste de ferramentas de política monetária não convencionais adotadas pelas economias desenvolvidas apenas uma década atrás.

Uma dúzia de países, do Chile às Filipinas, passando por África do Sul e Turquia, lançou ou impulsionou esquemas de flexibilização quantitativa (conhecida pela sigla em inglês QE), através dos quais compram títulos do governo e, às vezes, outros títulos domésticos.

Como o Federal Reserve e outros grandes bancos centrais que usam QEs desde a crise financeira global de 2008 e 2009, eles pretendem apoiar suas economias com dinheiro recém-criado para estimular empréstimos e investimentos, à medida que as taxas de juros atingem mínimas recordes.

Mas algumas ex-autoridades e analistas alertam que repetir o que é essencialmente um experimento de política monetária nas economias emergentes pode ter consequências indesejadas.

“Acho que não é aconselhável ou necessário que os mercados emergentes entrem na flexibilização quantitativa agora”, disse Divvuri Subbarao, que foi presidente do banco central da Índia de 2008 a 2013, alertando sobre os perigos de sugestões de que o banco indiano poderia ajudar o governo a monetizar seu déficit orçamentário ao comprar títulos.

“Não é necessário. Eles têm instrumentos convencionais suficientes disponíveis e ainda podem reduzir as taxas agora”, acrescentou. “E, além disso, os bancos centrais estão assumindo um risco de crédito, e não acho que os bancos centrais de mercados emergentes estejam em posição de assumir tal risco”.

Economias emergentes, como Turquia ou África do Sul, carecem dos grandes fundos de poupança doméstica vistos nos países desenvolvidos e contam com investidores estrangeiros – atraídos por taxas de juros relativamente altas – para cobrir grandes déficits no balanço de pagamentos e sustentar suas moedas.

Quaisquer medidas que aproximem os juros a zero, observadas há muito tempo nas principais economias, correm o risco de impedir esses vitais fluxos de recursos vindos do exterior.

“Em países de juros mais altos, que já perderam de fato um certo grau de acesso ao mercado, os riscos de um QE são maiores”, disse Saad Siddiqui, do JPMorgan.

“Existe o risco de que, em um ponto de virada desconhecido, uma combinação de medos sobre indisciplina da política monetária, inflação e saídas de capital domine os mercados, com controles de capital sendo um possível estágio final. Esse ponto crítico pode ser determinado por uma combinação de fatores, incluindo o tamanho de qualquer QE e a capacidade das autoridades de convencer os mercados de sua natureza temporária”, disse Siddiqui.

As pressões inflacionárias, a estrutura do mercado local de títulos e o tamanho das reservas cambiais disponíveis – para esterilizar as compras de títulos ou apoiar a moeda, se necessário – também desempenharão um papel.

No Brasil – que liderou o coro de protestos das economias em desenvolvimento contra o QE do Fed após o crash de 2008 -, a expectativa é de que o Banco Central receba poderes de emergência para comprar ativos financeiros em tempos de crise econômica, e não apenas para política monetária ou gerenciamento da oferta de dinheiro. (Reuters)