Legislação

Brasileiros trabalham quase o dobro de dias para pagar impostos do que há 40 anos

Estudo mostra que carga tributária consumiu 41,1% da renda anual do trabalhador totalizando 150 dias para o pagamento de impostos
Brasileiros trabalham quase o dobro de dias para pagar impostos do que há 40 anos
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

Os brasileiros trabalharam 150 dias exclusivamente para pagar impostos, taxas e contribuições em 2026. A conclusão é de estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que calcula anualmente a quantidade de trabalho necessária para quitar a carga tributária incidente sobre renda, patrimônio e consumo no País. O levantamento do instituto considera a incidência dos principais tributos federais, estaduais e municipais, como IRPF, INSS, ICMS, ISS, IPI, IPVA, IPTU, contribuições e taxas diversas.

Evolução da carga tributária

  • 1986: 82 dias;
  • 2000: 121 dias;
  • 2010: 148 dias;
  • 2020: 151 dias;
  • 2026: 150 dias.

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Neste ano, segundo o IBPT, foi necessário trabalhar entre 1º de janeiro e 30 de maio, o que equivale a 41,10% da renda anual do cidadão. Para se ter uma ideia, 40 anos atrás, a carga de impostos “custava” 82 dias de trabalho. “O aumento é resultado da criação de novos tributos, elevação de alíquotas e ampliação da incidência tributária sobre diferentes atividades econômicas e financeiras”, informa o IBPT, em nota.

A carga de impostos é alta no Brasil?

Na análise do economista e professor dos cursos de Gestão e Negócios do UniBH Fernando Sette Júnior, países desenvolvidos costumam ter cargas tributárias semelhantes ou até superiores às do Brasil. O que muda é que por lá a entrega ao cidadão pode ser maior.

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“Sob uma visão econômica de centro, a carga tributária brasileira pode ser considerada alta para o estágio de desenvolvimento do País. O problema, porém, não está apenas no percentual arrecadado, mas na relação entre o que se paga e o que se recebe em serviços públicos. Países desenvolvidos costumam apresentar cargas tributárias semelhantes ou até superiores, mas entregam infraestrutura, segurança, saúde e educação em níveis mais elevados, reduzindo a necessidade de gastos privados complementares”, diz.

Conforme o IBTP, os tributos sobre o consumo continuam representando a maior parcela da carga tributária suportada pela população, impactando diretamente o custo de vida e o poder de compra das famílias. “Isso penaliza proporcionalmente mais as famílias de menor renda. Dessa forma, a discussão não deve ser apenas sobre o tamanho da carga tributária, mas também sobre sua qualidade, sua distribuição entre os contribuintes e sua capacidade de financiar serviços públicos eficientes sem comprometer excessivamente a atividade econômica”, completa.

De toda a carga tributária apurada neste ano:

  • 22,88% aos tributos sobre o consumo;
  • 15,16% referem-se aos tributos sobre a renda;
  • 3,06% aos tributos sobre o patrimônio.

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Peso dos tributos varia conforme a faixa de renda

Ainda de acordo com o instituto, os contribuintes com renda entre R$ 3 mil e R$ 10 mil mensais são os que mais trabalham para pagar impostos, chegando a 157 dias por ano.

Reprodução/ Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT)

Impactos da reforma tributária na carga de impostos

Ainda conforme Sette Júnior, a redução da carga tributária exige uma combinação de crescimento econômico e aumento da eficiência do gasto público, mas não há solução simples ou imediata. Dessa forma, segundo ele, reduzir impostos sem enfrentar o crescimento das despesas públicas tende a gerar desequilíbrios fiscais, aumento da dívida pública e pressões inflacionárias, que acabam recaindo sobre a própria população.

“Por outro lado, também não é sustentável financiar indefinidamente um Estado cada vez maior por meio de aumentos de impostos. O caminho mais equilibrado passa por reformas que aumentem a produtividade do setor público, revisem gastos ineficientes e promovam maior qualidade na aplicação dos recursos. A medida que a economia cresce e o Estado se torna mais eficiente, abre-se espaço para uma redução gradual e responsável da carga tributária”, pontua.

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Nesse ponto, a reforma tributária, conforme o professor, deve gerar ganhos importantes para a economia brasileira, mas não necessariamente uma redução imediata dos impostos pagos pela população. O principal mérito dessa reforma está na simplificação do sistema, “eliminando parte da complexidade que encarece a produção, reduz investimentos e gera insegurança jurídica para empresas e consumidores”.

“No médio e longo prazo, entretanto, a reforma pode contribuir indiretamente para uma carga tributária mais leve. Um sistema mais simples tende a estimular investimentos, aumentar a produtividade e reduzir custos operacionais das empresas. Se esses ganhos se converterem em crescimento econômico mais robusto, haverá condições mais favoráveis para futuras reduções de alíquotas sem comprometer a arrecadação necessária ao funcionamento do Estado”, completa.

Como os impostos afetam as finanças do cidadão?

Por fim, Fernando fala sobre como os impostos afetam a vida financeira das famílias. De acordo com ele, como uma parcela significativa da tributação brasileira está embutida nos preços de produtos e serviços, o que inclui desde alimentos e medicamentos até combustíveis e energia elétrica, isso significa que o cidadão paga tributos diariamente, muitas vezes sem perceber o quanto está sendo destinado ao governo.

“Sob a ótica econômica, essa característica reduz o poder de compra e a capacidade de poupança das famílias. Quanto maior a parcela da renda destinada ao pagamento de tributos, menor tende a ser a capacidade de consumo, investimento e formação de patrimônio. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que esses recursos financiam serviços públicos essenciais, o que reforça a necessidade de que sejam utilizados com eficiência e transparência”, encerra.

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