O custo do preconceito: quando a exclusão impede talentos de transformar o Brasil

No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, histórias de superação revelam que combater o racismo é estratégia para impulsionar a economia e a inovação
Ouvir a matéria 0:00 / 0:00
O custo do preconceito: quando a exclusão impede talentos de transformar o Brasil
Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que mulheres negras ocupam a base da pirâmide de renda brasileira | Foto: Reprodução Adobe Stock

Por muitos anos, o debate sobre o racismo foi tratado apenas sob a perspectiva dos direitos humanos. Mas os impactos da discriminação racial vão além da violência simbólica e das desigualdades sociais: eles também custam caro para o desenvolvimento do País. Quando mulheres negras encontram barreiras para estudar, empreender, ocupar cargos de liderança ou acessar crédito, o Brasil perde talentos, produtividade, inovação e renda.

Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que mulheres negras ocupam a base da pirâmide de renda brasileira e enfrentam as maiores taxas de desemprego, informalidade e menor remuneração entre todos os grupos populacionais.

A desigualdade racial e de gênero limita o potencial produtivo de milhões de brasileiras e reduz a capacidade de crescimento econômico do País. O próprio Ipea aponta que o enfrentamento dessas desigualdades é condição para ampliar a produtividade, reduzir a pobreza e promover um desenvolvimento mais inclusivo.

No Dossiê Mulheres Negras, publicado pelo Ipea, a pesquisadora Tatiana Dias Silva afirma: “As discriminações de raça e gênero produzem efeitos imbricados. São as mulheres negras ocupantes permanentes da base da hierarquia social, com potencial imenso para fortalecimento econômico que ficam esquecidas em seus trabalhos inviabilizados e, grande parte das vezes, não remunerados.”

E este cenário de preconceito afeta até mesmo aquelas que conseguiram vencer tais barreiras e terem conquistado projeção nacional. Isso porque o racismo continua sendo um obstáculo permanente mesmo para as mulheres que se destacam no Brasil. A jornalista Maju Coutinho, por exemplo, foi alvo de ataques racistas nas redes sociais justamente quando alcançou maior visibilidade na televisão brasileira.

A atriz Taís Araújo transformou sua própria experiência em uma defesa pública da representatividade, denunciando que mulheres negras ainda precisam provar continuamente sua competência para ocupar espaços de destaque. A médica Thelma Assis, vencedora do Big Brother Brasil (BBB) também sofreu ataques racistas após ganhar notoriedade nacional, evidenciando que sucesso profissional não protege mulheres negras da discriminação. Os três casos revelam que o preconceito continua funcionando como um mecanismo de exclusão que tenta limitar trajetórias de liderança e influência.

Em Minas Gerais, entretanto, histórias de empreendedorismo e luta mostram que romper essas barreiras produz transformações que ultrapassam a realização individual. Cada empresa criada por mulheres negras representa geração de renda, fortalecimento de comunidades, valorização da identidade cultural e novas oportunidades para outras mulheres.

Investir em mulheres negras fortalece o desenvolvimento

Para a trancista e fundadora do Ateliê do Sol, Pablina Veloso, empreender significa resgatar, sair do ciclo de criminalidade que vinha de sua família, resgatar sua dignidade, empreender para transformar a ancestralidade das tranças em desenvolvimento econômico e mudança de vida para as mulheres do Taquaril, favela localizada na região Leste de Belo Horizonte.

Seu trabalho une moda, beleza, identidade e memória. Mais do que gerar renda, o ateliê fortalece cadeias produtivas criativas, amplia a visibilidade do trabalho artesanal e reafirma a importância da representatividade negra na economia da cultura. Cada criação torna-se também um instrumento de resistência e valorização da história de mulheres negras que durante décadas permaneceram invisibilizadas.

“O Ateliê do Sol nasceu da minha decisão de transformar o racismo que vivi em oportunidade. Encontrei na ancestralidade das tranças um negócio que gera renda, fortalece a autoestima de mulheres negras e valoriza nossa identidade. Cada cliente e cada profissional formada mostram que empreender também é uma forma de combater o preconceito e provar que nossa cultura tem valor, gera desenvolvimento e transforma vidas”, diz.

Mudança

Quando assumiu a presidência da Central Única das Favelas em Minas Gerais (Cufa Minas), Marciele Delduque levou para o centro do debate uma visão construída dentro das periferias. Sua trajetória demonstra que investir em mulheres negras significa fortalecer redes inteiras de desenvolvimento social.

Marciele Delduque
Presidente da Cufa Minas, Marciele Delduque levou para o centro do debate uma visão construída dentro das periferias | Foto: Marciele Deiduque / Arquivo pessoal

Sob sua liderança, a Cufa ampliou projetos de empreendedorismo, formação profissional, inclusão produtiva e incentivo aos negócios de impacto nas favelas mineiras. A ExpoFavela Innovation Minas, por exemplo, revelou centenas de empreendedores das periferias para investidores e grandes empresas, mostrando que inovação e desenvolvimento também nascem onde historicamente faltaram oportunidades.

ExpoFavela Innovation Minas
A ExpoFavela Innovation Minas revelou centenas de empreendedores das periferias para investidores e grandes empresas | Foto: Diário do Comércio / Giulia Simmons

“O racismo impede que mulheres negras realizem seus sonhos e priva o Brasil de prosperar. Combater o racismo é investir no desenvolvimento do País, porque uma sociedade que inclui é também uma sociedade mais próspera, mais criativa e mais justa. Quando uma mulher negra tem seus direitos garantidos, ela transforma muito mais do que a própria vida: fortalece a economia brasileira”, diz.

Marciele Delduque destaca que as favelas do Brasil movimentam uma renda total de R$ 300 bilhões por ano, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como a Bolívia e o Paraguai. Os dados completos foram divulgados pelo Instituto Data Favela em 2025, contextualiza a presidente da Cufa Minas. Para ela, está posta a capacidade feminina das mulheres negras, mas elas ainda estão à margem das oportunidades.

A menina que transformou preconceito em propósito

Na contramão da história, Elissandra Flávia Santos, conhecida como Sandrinha, começa em uma rua sem calçamento da comunidade de São Benedito, em Barão de Cocais, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Ainda adolescente, aos 15 anos, fazia faxinas para ajudar no sustento da família. Cresceu observando que os sonhos ao seu redor eram limitados porque as oportunidades também eram, mas decidiu escrever uma história diferente.

Sandrinha
Elissandra Flávia Santos, conhecida como Sandrinha, é uma das sócias da Niari Afrocosméticos | Foto: Arquivo pessoal / Elissandra Flávia Santos

Depois de trabalhar como empregada doméstica, operadora de caixa, telefonista e atendente em uma loja de cosméticos, ela encontrou justamente nesse universo a inspiração para empreender. Mudou-se para Divinópolis, na região Centro-Oeste do Estado, criou um blog para dar visibilidade a modelos negras, atuou no Movimento Negro de Divinópolis, organizou cursos para modelos negros, trabalhou como trancista, estudou jornalismo e produziu eventos voltados à valorização da cultura afro. Foi nesse percurso que conheceu Patrícia Santos e Karla Caroline, futuras sócias da Niari Afrocosméticos.

Cosméticos

Lançado em 2016, a Niari nasceu para combater o racismo ao desenvolver cosméticos destinados aos cabelos crespos e cacheados, fortalecendo a autoestima e a identidade de mulheres negras.

Durante a pandemia, a marca se tornou fonte de renda para centenas de cabeleireiras que passaram a revender os produtos. Em 2023, as sócias inauguraram a fábrica própria, consolidando uma empresa que hoje amplia sua presença no mercado nacional e transforma a ancestralidade africana em inspiração para suas linhas de produtos.

“Quando olho para trás e lembro das piadas racistas, dos desafios financeiros e da falta de apoio, percebo o quanto ter um propósito é importante. A Niari tornou nossa comunidade mais forte. Apoiamos mulheres negras a revenderem nossos produtos e, juntas, geramos renda, transformamos o mercado da beleza e fazemos a economia crescer com um negócio que tem em seu modelo o combate ao racismo”, destaca.

Para Elissandra Flávia Santos, o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha carrega uma reflexão das consequências positivas acerca do papel econômico e social na equidade de gênero entre as pretas. Para a empresária, cada oportunidade gerada é um ato antirracista que incentiva talentos e provoca o desenvolvimento econômico sustentável.

Para o presidente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), Marcelo de Souza e Silva, combater o racismo é promover justiça social, mas também criar condições para um desenvolvimento econômico mais forte e sustentável.

“O desenvolvimento econômico só é pleno quando as oportunidades alcançam todas as pessoas. Promover a igualdade racial e de gênero não é apenas corrigir uma dívida histórica, mas uma estratégia indispensável para ampliar a competitividade do país e construir um futuro mais inclusivo, em sintonia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, especialmente os ODS 5, 8, 10 e 18”, diz.

Sobre o autor

Élida Ramirez

Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas