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Além da responsabilidade social: diversidade passa a orientar estratégia de negócios

Mercado mineiro amplia investimentos em inclusão diante de ganhos em inovação, desempenho financeiro e formação de mão de obra
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Além da responsabilidade social: diversidade passa a orientar estratégia de negócios
Foto: Divulgação Direcional / Loyane Xavier

Ano após ano, o mercado corporativo mineiro tem incorporado políticas de diversidade, equidade e inclusão à estratégia de negócios, deixando de tratá-las apenas como iniciativas de responsabilidade social. Dados demográficos, indicadores do mercado de trabalho e relatos de lideranças empresariais e institucionais apontam que equipes mais diversas contribuem para ganhos de produtividade, inovação, fortalecimento das marcas e maior aproximação com consumidores.

É o que mostra um levantamento de 2023 da consultoria McKinsey & Company. Os dados revelam que empresas com maior representatividade feminina – acima de 30% dos cargos de liderança – e diversidade étnica superior a 39% nas posições executivas apresentam maior probabilidade de registrar rentabilidade acima da média do mercado. Em contrapartida, organizações posicionadas entre as menos inclusivas têm 66% menos chances de alcançar desempenho financeiro de destaque, o que evidencia o custo econômico da estagnação institucional.

A consolidação dessa agenda também está no radar da Frente Parlamentar Ambiental, Social e Governança da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Coordenadora do grupo, a deputada estadual Ana Paula Siqueira observa um avanço no interesse das empresas pela adoção de práticas inclusivas, mas afirma que ainda existe um descompasso entre o discurso institucional e a implementação efetiva dessas políticas.

“Percebo esse crescimento e essa vontade das empresas. Alguns segmentos já identificaram que, quando atuam nessa perspectiva de gênero e de inclusão racial, acabam evoluindo e crescendo, não apenas nos mercados em que atuam, mas também na forma como são percebidos. Agora, ainda existe uma distância que precisamos diminuir entre o que se fala e o que, de fato, é feito”, diz.

Segundo a parlamentar, o compromisso com a diversidade e a inclusão exige mudanças concretas no ambiente corporativo e não apenas ações voltadas à comunicação institucional. “Não dá para dizer que existe uma política efetiva se não são adotadas iniciativas e práticas para coibir a violência contra as mulheres em todos os aspectos. Precisamos avançar na redução da distância entre o discurso e a prática. Se um ambiente corporativo desenvolve programas para incluir mulheres, mas tolera violência de gênero ou racismo internamente, existe um descompasso”, observa.

Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher
Ana Paula Siqueira (deputada estadual PT/MG) – Foto: Ramon Bittencourt

Os indicadores demográficos reforçam a relevância dessa agenda em Minas Gerais. Dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que as mulheres representam 48,5% da população do Estado, enquanto a população negra corresponde a 58,6% dos habitantes. Nesse contexto, compreender diferentes perfis de consumidores e trabalhadores passa a ser um fator competitivo para empresas que buscam ampliar mercados e manter relevância.

Na avaliação da deputada, essa percepção vem se fortalecendo à medida que as organizações reconhecem a necessidade de dialogar com uma parcela cada vez maior da população.

Retorno financeiro nos canteiros de obras

Os efeitos dessa transformação também aparecem em setores historicamente marcados pela predominância masculina, como a construção civil. Dados do IBGE indicam que a participação feminina no segmento cresceu 120% na última década, movimento associado a mudanças na gestão dos empreendimentos e nos resultados operacionais.

Responsável pela condução de três obras em fase de acabamento e pela coordenação de uma equipe formada por 17 mulheres no Grupo Direcional, em Minas Gerais, a engenheira civil Loyane Xavier afirma que a presença feminina contribui para melhorar a organização dos canteiros e aumentar a eficiência das operações. “A presença feminina deixa o canteiro de obras mais seguro, limpo, planejado e, consequentemente, mais rentável”, diz.

O aumento da participação de mulheres em funções técnicas e operacionais também tem provocado mudanças na cultura organizacional das empresas do setor. Segundo a Direcional, a ampliação da presença feminina nas frentes de trabalho contribui para reduzir estereótipos de gênero e ampliar a diversidade das equipes.

A engenheira civil Andressa Bastos Marins Miranda, responsável por equipes de pós-obra e assistência técnica corporativa, reforça essa avaliação. “A presença cada vez maior das mulheres nas obras é essencial para que a cultura do setor continue evoluindo. Quanto mais natural essa participação se torna, mais avançamos na construção de ambientes profissionais diversos e com oportunidades para todos”, avalia.

A mudança também aparece nos registros profissionais. Dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) mostram que, das 1,2 milhão de pessoas com registro ativo no Brasil, cerca de 242 mil são mulheres, o equivalente a 20,2% do total. Entre os novos registros emitidos pela entidade, elas já representam 26%, indicando uma tendência de crescimento da participação feminina na profissão.

Trancista na Expo Favela Minas 2026.
Foto: Diário do Comércio Giulia Simmons

O empreendedorismo de periferia

Embora grandes empresas avancem na adoção de políticas de diversidade e inclusão, a inserção de profissionais moradores de periferias no mercado formal ainda enfrenta obstáculos, principalmente relacionados à qualificação e ao acesso às oportunidades. Segundo dados do Censo 2022, mais de 72% da população residente em periferias e comunidades é preta ou parda, o que evidencia que o desenvolvimento econômico dessas regiões passa, necessariamente, pela inclusão racial.

Para lideranças que atuam diretamente nas comunidades, reduzir essas barreiras representa não apenas um avanço social, mas também uma oportunidade de desenvolvimento econômico. O presidente da Central Única das Favelas (Cufa) em Passos, no Sul de Minas, Reinaldo Alves, afirma que a diversidade deve ser compreendida como uma estratégia de crescimento para empresas e para a economia.

“A diversidade não é apenas uma pauta social. É uma estratégia de desenvolvimento, competitividade e crescimento econômico. Quando desenvolvemos projetos para mobilizar a população periférica, principalmente os empreendedores, buscamos abrir esse caminho. Costumamos dizer que a favela não é mais carência, é potência. São pessoas que movimentam a economia, geram renda e criam empregos”, comenta.

Segundo ele, um dos principais desafios está na preparação de parte dos empreendedores para dialogar com o mercado formal e apresentar seus produtos às grandes empresas. “Muitos deles ainda precisam entender como funciona o mercado. Muitas vezes, por estarem na informalidade, não sabem como dialogar com um empresário ou apresentar o próprio produto. Vejo que esse é um dos principais desafios”, avalia.

Para reduzir essa distância, iniciativas que aproximam empreendedores periféricos do setor produtivo vêm ganhando espaço em Minas Gerais. Um dos exemplos é a Expofavela, que conecta pequenos negócios ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a grandes companhias, criando oportunidades de capacitação, geração de negócios e expansão de mercado.

Em Passos, setores como vestuário e estética já passaram a contratar modelos, produtoras e fornecedores locais para campanhas publicitárias, impulsionados pela identificação desses profissionais com o público consumidor.

Educação e estratégia nos pequenos negócios

A percepção de que políticas de diversidade pertencem apenas às grandes corporações ainda figura entre os principais entraves para ampliar essa agenda entre micro e pequenas empresas. Para o presidente do conselho deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva, a incorporação de práticas de diversidade, equidade e inclusão deve fazer parte da estratégia dos negócios desde a criação da empresa.

Diretriz que vem sendo seguida pela própria entidade, o Sebrae Minas incorporou as políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) à Agenda de Sustentabilidade e desenvolve ações voltadas aos pequenos empreendedores do Estado. Segundo uma pesquisa desenvolvida pelo serviço, mais da metade dos microempreendedores mineiros reconhece a importância do tema e já desenvolve iniciativas relacionadas, principalmente, à igualdade racial, à equidade de gênero e à inclusão de profissionais da terceira idade.

Marcelo de Souza e Silva afirma que a inclusão deve ser encarada como um diferencial competitivo também para os pequenos negócios.Esse trabalho é desenvolvido por meio de capacitações, programas de empreendedorismo e ações de sensibilização, mostrando que a inclusão não deve ser vista apenas como responsabilidade social, mas também como estratégia de crescimento, inovação e acesso a novos mercados”, pondera.

Segundo ele, o papel da instituição é oferecer instrumentos para que empreendedores incorporem essas práticas de acordo com a realidade de cada negócio. “O Sebrae Minas pode contribuir apoiando os negócios com orientação, sensibilização e ferramentas práticas para que construam ambientes mais inclusivos, de forma compatível com a realidade de cada empresa, fortalecendo sua capacidade de crescer e permanecer competitiva”, finaliza.

Formação como estratégia de longo prazo

A ampliação da diversidade no mercado de trabalho também passa pelo investimento em formação profissional. Projetos voltados à capacitação de jovens mulheres para áreas tecnológicas buscam reduzir a desigualdade de acesso a profissões ainda marcadas pela baixa participação feminina e, ao mesmo tempo, ampliar a oferta de mão de obra qualificada para setores estratégicos da economia.

Essa é a proposta da Jornada Liga STEAM, encabeçada pela Fundação ArcelorMittal, a iniciativa leva a capacitação gratuita de mulheres para áreas ligadas à ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática. O programa busca enfrentar um dos principais desafios apontados por empresas e especialistas: ampliar o número de profissionais qualificadas para atuar em segmentos relacionados à tecnologia e à inovação.

Diretora-executiva da Fundação ArcelorMittal, Camila Valverde afirma que ampliar o acesso das mulheres à formação técnica representa um investimento de longo prazo para o desenvolvimento econômico e para a competitividade do País.

“Investir na equidade de gênero no mercado de tecnologia é investir na inovação e no desenvolvimento do nosso País. Esta jornada não é apenas um curso; é uma ação estratégica para criar e potencializar os talentos femininos, descentralizando a qualificação e provando que a diversidade é um caminho para reduzir as desigualdades de oportunidades”, diz.

A aposta na formação profissional reforça uma percepção comum entre empresas, instituições de apoio ao empreendedorismo, organizações sociais e representantes do poder público: ampliar a diversidade no mercado de trabalho depende não apenas de políticas de contratação, mas também da expansão do acesso à qualificação. A avaliação é que criar oportunidades de formação para grupos historicamente sub-representados é um passo necessário para ampliar sua participação em setores estratégicos da economia.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG, pós-graduanda em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.

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