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Geração de valor na cadeia do lítio ainda é desafio em Minas

Apesar de concentrar as maiores reservas de lítio do País, o Estado perde valor ao avançar lentamente na cadeia produtiva
Geração de valor na cadeia do lítio ainda é desafio em Minas
Minas Gerais concentra a mais importante reserva de lítio no Brasil | Foto: Gil Leonardo / Imprensa MG

A demanda global por lítio ganhou força nos últimos anos, impulsionada pelo forte aumento já ocorrido e previsto para sua demanda, provocada pelo avanço da mobilidade sustentável e pelas metas de descarbonização adotadas por governos e empresas ao redor do mundo. Considerado um insumo estratégico para a fabricação de baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, o “ouro branco” passou a ocupar posição central na transição para uma economia de baixo carbono.

Apesar de concentrar as maiores reservas de lítio do Brasil e atrair investimentos bilionários da mineração, Minas Gerais ainda avança lentamente na consolidação de uma cadeia produtiva completa do mineral. O Estado, que desponta como estratégico para o setor, carece de etapas industriais de maior valor agregado, como plantas químicas e fábricas de baterias, mantendo-se mais próximo da exportação da matéria-prima do que da industrialização.

Atualmente, existem apenas três mineradoras com produção comercial de lítio no País, todas localizadas em Minas. A pioneira é a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), que opera desde 1991 no Vale do Jequitinhonha – o epicentro das reservas nacionais do ouro branco. Na mesma região está a canadense Sigma Lithium, que iniciou as atividades em 2023. O trio é completado pela AMG Brasil, subsidiária da holandesa AMG Critical Materials N.V., que produz desde 2018 no Campo das Vertentes.

As duas últimas empresas focam no concentrado de lítio, produto básico da cadeia e com menor valor agregado. Já o primeiro grupo vai além, fabricando também o carbonato e o hidróxido de lítio, produtos intermediários do ciclo e com maior valor agregado.

Existem outras diversas companhias desenvolvendo projetos de lítio pelo País. As que estão em fases mais avançadas são a norte-americana Atlas Lithium e a canadense Lithium Ionic, ambas no Vale do Jequitinhonha, além da australiana PLS, no Norte do Estado. Entretanto, a princípio, o planejamento delas prevê apenas a entrega do concentrado.

Um dos grandes impulsos para a atração de investimentos do setor de lítio em Minas Gerais é a iniciativa batizada de Vale do Lítio, que abrange 14 municípios distribuídos pelos vales do Jequitinhonha e Mucuri e pela região Norte. Lançado há três anos, o projeto econômico-social do governo mineiro busca dar visibilidade internacional às reservas do Estado, estabelecê-lo como protagonista na cadeia de valor do mineral e transformar a realidade local, que historicamente tem baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Desde então, foram atraídos mais de R$ 6,9 bilhões em aportes privados, com previsão de 6 mil empregos diretos gerados, conforme dados do próprio Executivo estadual. No entanto, nenhum aporte foi direcionado para a próxima etapa da cadeia de produção: as fábricas de células de lítio e montagem de baterias.

Estado exporta, majoritariamente, matéria-prima e importa bens industrializados

O diretor da Associação Brasileira de Engenheiros de Mineração (Abremi), João Hilário, afirma que existe uma estratégia consolidada no mercado internacional em que países desenvolvidos importam matérias-primas de baixo valor agregado, atuam nas etapas industriais, gerando mais riqueza em seus territórios, e exportam produtos acabados.

Ele alerta que esse modelo, já implantado em outras cadeias de matérias-primas, como é o caso do minério de ferro e do aço, tem proliferado no setor de lítio no Brasil. A maioria do ouro branco extraído em Minas é importada na forma de concentrado por alguns países, sobretudo pela China, que industrializa e exporta, por exemplo, células de lítio e carros elétricos, que podem conter até o mesmo metal exportado em forma do concentrado de baixo teor e valor agregado, de volta para o Estado a preços muito mais altos.

Hilário pontua que, ao ocupar apenas a base da cadeia produtiva, a mineração detém um percentual pequeno de valor, mas também reduzido de poder. Ou seja, está mais sujeita a alterações de mercado que, embora tenha suas leis próprias, pode ser influenciado por definições de quem ocupa a ponta e a parte com mais tecnologia embarcada da cadeia que, neste caso, são os chineses – que dominam o refino global de lítio e produzem a maior parte das baterias e veículos eletrificados do mundo.

O diretor chama atenção para um agravante em relação ao País. Como as vendas, majoritariamente, se direcionam para a China, os preços do concentrado produzido em Minas Gerais estão ainda mais vulneráveis a decisões tomadas pelo gigante asiático, além de a comercialização do produto correr risco de ser dependente quase que de um único comprador.

Tecnologia de refino já existente é ignorada, observa especialista

Como dito anteriormente, a CBL é a única empresa do setor de lítio que atua no Brasil com a etapa intermediária da cadeia produtiva. A planta química, localizada no município de Divisa Alegre, recebe parte da produção de concentrado da unidade de mineração, situada entre Itinga e Araçuaí. O grupo atua de maneira integrada no Vale do Jequitinhonha e no Norte de Minas desde os seus primeiros anos de atividades.

No início de 2026, a CBL iniciou a expansão de ambas as operações, com o compromisso de concluí-las em dois anos. A ampliação da refinaria foi viabilizada pela venda de 33% da CBL Refinaria para a indiana Altmin. A empresa, que produzirá materiais para baterias, também fechou contrato de offtake para receber parte do carbonato produzido no local.

Conforme o diretor da Abremi, a tecnologia de refino desenvolvida há anos pela CBL tem sido, de modo geral, ignorada até pelos mineiros, enquanto a Índia identificou o potencial desta etapa industrial e afirma que está aportando significativos recursos para avançar e se estabelecer em toda cadeia produtiva. Para Hilário, o País, que tem como vantagens sua mineração e a indústria automotiva, que se posicionam entre as dez maiores do mundo, a base e parte da ponta da cadeia, está perdendo a chance de desenvolver a etapa intermediária ao permanecer desconsiderando que ela já existe e poderia ser replicada e rapidamente expandida.

“O processo em si, está implantado e operando em uma região que sofria de certa deficiência de energia e infraestrutura e de nível de escolaridade baixo, que já está sendo muito melhorada. A implantação da produção de sais de lítio foi um milagre tecnológico ao ser instaurado lá naquela época”, diz.

“Tirar proveito da tecnologia que já está operando muito bem em pequena escala, já está pronto e construir uma planta química modular, para extração do lítio do espodumênio e produção de carbonato e hidróxido de lítio, por exemplo, em Itinga e Araçuaí, no centro do Vale do Lítio, é só uma questão de querer promover o importante avanço na cadeia. Não existe nenhum mistério, nem impedimento do ponto de vista tecnológico, que normalmente é a área mais complexa”, pondera.

Projetos de industrialização ficam pelo caminho, apesar do potencial mineiro

Vale ressaltar que Minas Gerais já esteve perto de receber uma segunda refinaria de lítio. Há alguns anos, a AMG firmou protocolo de intenções de investimento com o governo estadual para a instalação de uma planta química, que não saiu do papel até o momento.

O Estado também foi alvo de projetos das próximas etapas da cadeia. Exemplo disso foram os projetos da Oxis Energy, em parceria com a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), para produção de células de baterias de lítio-enxofre, e da Bravo Motor Company, para produção de baterias de lítio. Ambos ficaram pelo caminho.

O diretor da Abremi ressalta que há uma escassez de iniciativas para avanço na cadeia de produção de artefatos a partir do metal e as poucas que surgiram não prosperaram. Para ele, o Estado de Minas Gerais, “apesar das heroicas iniciativas isoladas”, está ficando dez anos atrasada e perdendo a janela de oportunidade de se expandir no setor, “mesmo dispondo de disparada vantagem competitiva na base e no topo”.

Hilário salienta que Minas reúne aspectos para estar bem mais desenvolvido na cadeia do lítio e receber instalações de células e baterias, como matéria-prima e excelentes universidades voltadas à mineração. Para ele, o que falta é consolidar uma política de Estado direcionada para atingir essa meta com o imprescindível apoio da classe empresarial.

Na avaliação do professor de Lavra Subterrânea da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), José Margarida da Silva, avançar na cadeia produtiva demanda tempo, conhecimento e trabalho estruturado para vencer gargalos. Contudo, o docente também entende que Minas Gerais poderia ter ido além do estágio atual.

“O governo do Estado que está terminando neste ano poderia já ter avançado de alguma forma e ter impulsionado a vinda de fábricas de baterias e de outros elementos da cadeia. Mas, se não é neste governo, acho que o próximo precisa trabalhar nesse sentido para que a gente tenha toda a cadeia no próprio Estado e tenhamos usufruto dessa economia que pode ser obtida a partir da extração e da transformação do lítio”, pontua.

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