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Monitoramento aponta avanço da qualidade da água na Lagoa da Pampulha

Resultados é fruto de coletas regulares em diferentes pontos e profundidades
Monitoramento aponta avanço da qualidade da água na Lagoa da Pampulha
Índice de Qualidade da Água (IQA), para o padrão Classe 3, apontou classificação de boa a ótima em pontos estratégicos da lagoa, segundo relatório da Copasa e da PBH | Foto: Divulgação Hydrosciense

A qualidade da água da Lagoa da Pampulha passou de boa a ótima, revelam dados de um estudo que compila informações de um sistema estruturado de monitoramento técnico, baseado em análises periódicas realizadas por órgãos públicos.

De acordo com o relatório, dados da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) mostram que o Índice de Qualidade da Água (IQA), para o padrão Classe 3, apontou classificação de boa a ótima em pontos estratégicos da lagoa, com medições que chegaram a 82, em uma escala de 0 a 100.

Os resultados decorrem de coletas regulares em diferentes pontos e profundidades, nas quais são avaliados parâmetros físicos, químicos e biológicos, como fósforo, oxigênio dissolvido, turbidez e presença de bactérias, permitindo classificar a água entre “aceitável”, “boa” e “ótima” e acompanhar a evolução do processo de recuperação ambiental.

Segundo o estudo, os avanços são resultado de um conjunto de ações contínuas iniciadas em 2016, com destaque para o controle do fósforo, principal responsável pela floração de algas (fenômeno denominado eutrofização), e para a redução expressiva de cianobactérias, que antes formavam manchas e odores perceptíveis em toda a orla.

Atualmente, a lagoa apresenta maior transparência da água, indicando melhor equilíbrio biológico e de oxigenação, ausência de florações na maior parte do espelho d’água e sinais de recuperação ecológica, como o aumento da biodiversidade aquática.

“O que estamos vendo é uma mudança real de patamar. A Lagoa saiu de uma condição crítica para um ambiente com qualidade controlada, ainda que sob pressão constante por causa da entrada diária de esgoto na Pampulha. Os resultados seriam ainda melhores se houvesse a retirada total do lançamento de esgoto no espelho d’água”, afirma o CEO da Hydroscience, Tiago Finkler Ferreira.

O executivo acrescenta que o tratamento de despoluição combina monitoramento intensivo, com análises mensais em diversos pontos e profundidades, e aplicação de tecnologias para retenção de nutrientes, especialmente o fósforo, removido da água e responsável pelo crescimento de algas e cianobactérias.

Além disso, o sistema de despoluição conta com uma base robusta de dados limnológicos, permitindo avaliar tendências, impactos sazonais e respostas do ecossistema ao longo do tempo.

No monitoramento específico do uso do remediador Phoslock, os resultados foram considerados seguros e tecnicamente consistentes. Análises realizadas após a aplicação indicaram que o lantânio não foi detectado na coluna d’água, permanecendo abaixo dos limites mínimos de detecção dos métodos laboratoriais, o que demonstra sua rápida estabilização no ambiente.

Isso significa que o fósforo foi removido da água, indicando ausência de nutrientes em excesso (fosfatos), causadores da eutrofização e da consequente redução de oxigênio dissolvido.

“Isso ocorre porque o elemento se liga quimicamente ao fósforo, formando um composto mineral estável e insolúvel, tornando-se indisponível para organismos aquáticos e, portanto, sem interação biológica relevante. Além disso, não há evidências de impactos adversos à fauna ou à flora da lagoa”, afirma a engenheira e especialista em recursos hídricos da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), Patrícia Boson.

Segundo a especialista, os resultados foram corroborados por análises independentes conduzidas por três laboratórios certificados, reforçando a confiabilidade dos dados e a segurança ambiental do processo. Ela destaca que os efeitos mais visíveis são a redução de odores, a melhora no aspecto visual da água, a menor ocorrência de algas e o aumento da transparência.

A população já percebeu melhorias. De acordo com a diretora de segurança e meio ambiente da Pro-Civitas, Keyliane Paganni, o cenário atual é melhor do que em 2016, quando não havia tratamento integrado.

“Para quem frequenta a Pampulha, os efeitos já são perceptíveis. Está mais agradável praticar atividades esportivas, e o turismo convive hoje com um ambiente visualmente melhor e mais saudável, diferente de décadas anteriores”, afirma.

Desafios históricos ainda persistem

Os avanços na Lagoa da Pampulha devem ser analisados em conjunto com dados que revelam a complexidade da bacia, alerta o professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcelo Libânio.

Para ele, apesar da melhora nos indicadores, o lançamento irregular de esgoto e o aporte de resíduos sólidos nas águas pluviais e nos córregos Ressaca e Sarandi ainda comprometem a qualidade da água.
Somam-se a isso as ligações clandestinas, a poluição difusa, intensificada no período chuvoso, e o passivo histórico de sedimentos contaminados acumulados ao longo de décadas.

Segundo o especialista, a despoluição definitiva depende de saneamento básico e educação ambiental, especialmente em áreas historicamente desassistidas.

Patrícia Bozon
Patrícia Boson aponta que há avanços visíveis na despoluição | Foto: Arquivo Pessoal / Patrícia Bozon

“A Lagoa da Pampulha não é um problema ambiental isolado. Ela é um indicador sistêmico da cidade e reflete como Belo Horizonte enfrenta desafios de saneamento, urbanização e desigualdade. A solução definitiva passa por resolver essas questões na origem”, afirma.

Libânio contextualiza ainda que a lagoa é mais do que um cartão-postal, pois serve como termômetro das condições urbanas de Belo Horizonte. Nesse sentido, os desafios de recuperação dependem de soluções ambientais que integrem tecnologia, políticas públicas e infraestrutura básica para que a Lagoa deixe de ser símbolo de um problema crônico e se consolide como referência de recuperação ambiental urbana.

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