ACMinas desafia empresários a repensar prosperidade além dos resultados financeiros
Atenta às transformações do mercado de trabalho e das relações organizacionais, a Associação Comercial de Minas Gerais (ACMinas) desafiou empresários mineiros a repensar os conceitos de prosperidade e liderança durante o ACMinas Talks, evento realizado pela entidade na manhã desta terça-feira (2), em Belo Horizonte.
Além de ampliar a compreensão sobre prosperidade para além dos resultados financeiros, o encontro propôs aos empresários uma reflexão sobre os impactos que as decisões organizacionais provocam na sociedade, nas pessoas e nos resultados das organizações.
A provocação, segundo o presidente do Conselho de Recursos Humanos da ACMinas, Leandro Souza Pinho, parte de uma mudança estrutural no mundo do trabalho. “As empresas mudaram, o mercado mudou e a liderança mudou. Precisamos discutir não apenas como os profissionais mudaram, mas também como estamos pensando as organizações”, afirmou.
Para ele, o debate sobre prosperidade precisa extrapolar os indicadores financeiros. “Os resultados são importantes, mas também é fundamental refletir sobre o tipo de relação que as empresas constroem com as pessoas e a sociedade”.
Pinho destacou ainda que o tema tem ganhado urgência diante de fenômenos como o aumento dos afastamentos por adoecimento e a crescente demanda por ambientes corporativos mais saudáveis. “Mais do que nunca, precisamos abrir espaço para dialogar sobre gestão de pessoas e entender, de fato, se estamos olhando para o que é próspero. Precisamos construir organizações em que o indivíduo possa ser ele mesmo, com respeito e realização”, pontuou.
Prosperidade envolve saúde, propósito e conexão humana
A ampliação desse conceito também foi defendida pela presidente do Diário do Comércio, Adriana Muls, que participou do encontro. Para ela, há uma tendência equivocada de associar prosperidade apenas ao lucro das organizações. “Prosperidade é muito mais do que isso. Ela envolve saúde, bem-estar, propósito e impacto social”, afirmou.
Segundo Adriana Muls, cabe às lideranças promover uma reconexão em uma sociedade cada vez mais fragmentada. “A liderança tem o papel de reconectar o indivíduo consigo mesmo, com os outros e com o mundo ao seu redor”.
Na visão do CEO da Caloi, Ronaldo Ribeiro, essa transformação exige uma mudança de mentalidade. Ele destacou que o modelo tradicional, focado exclusivamente no lucro, já não responde plenamente às demandas atuais.
“Precisamos evoluir de um cenário em que as empresas visavam apenas ao retorno dos acionistas para outro em que a sociedade seja positivamente impactada”, disse.
Para Ribeiro, não há uma fórmula pronta, mas sim a necessidade de equilíbrio e compartilhamento: “Se a riqueza fica concentrada, criamos tensões sociais. A prosperidade precisa ser compartilhada, seja por meio da saúde, do bem-estar ou das oportunidades”.
O CEO da Komatsu, Guilherme Santos, reforçou, no entanto, que o lucro continua sendo peça-chave nesse processo, desde que associado a um ciclo organizacional sustentável. “Nenhuma empresa é próspera sem lucro. É ele que permite investir nas pessoas, na estrutura e nos clientes”, afirmou.
Santos apresentou o conceito de “círculo virtuoso”, no qual os resultados financeiros são reinvestidos no crescimento da empresa e no desenvolvimento dos colaboradores. “Quando esse ciclo funciona, todos ganham: empresa, funcionários e sociedade”, defendeu.
Também presente no debate, o presidente executivo da Fundação Dom Cabral, Antônio Batista da Silva Júnior, ampliou a discussão para o campo coletivo. Para ele, desafios contemporâneos, como sustentabilidade, segurança alimentar e questões geopolíticas, exigem atuação conjunta. “Nenhum ator, sozinho, resolve problemas tão complexos. A prosperidade precisa ser construída de forma colaborativa”, destacou.
Segundo ele, o caminho passa pelo diálogo e pela participação ativa das lideranças em diferentes esferas. “É preciso sair do próprio ambiente e se engajar em um ecossistema mais amplo, compreendendo a complexidade do mundo”, disse.
Micro pausas e relações humanas no centro da prosperidade
Entre os palestrantes do evento, a jornalista Leila Ferreira defendeu, em sua palestra, a necessidade de as pessoas fazerem micro pausas na vida e no trabalho como uma atitude essencial para resgatar a qualidade de vida e das relações em um cotidiano marcado pela pressa e pela hiperatividade.
Ela criticou o ritmo atual, afirmando que a agitação cotidiana faz com que as pessoas percam a capacidade de refletir, de se conectar com o outro e até de perceber o momento presente. “Estamos vivendo uma vida sem pausa, nem para pensar, nem para sentir”, afirmou.
Para ela, a ausência de pausas transforma a vida em uma sequência automática de tarefas, na qual correr, produzir, consumir e postar se tornam prioridades. Nesse contexto, as micro pausas surgem como pequenas interrupções conscientes ao longo do dia, e não como grandes momentos de descanso. “Não é parar uma hora para meditar. São atitudes simples, como tomar um café sem responder mensagens, fazer uma coisa de cada vez ou ir até a janela apenas para observar, sem distrações”, sugeriu.
Para Leila Ferreira, essas pausas cumprem três funções principais: reorganizar a mente e reduzir a aceleração, recuperar a consciência da vida e preservar as relações humanas.
No âmbito organizacional, a palestrante defendeu que a construção de ambientes corporativos mais humanos e prósperos não é uma utopia distante, mas uma possibilidade concreta.
Para ela, o desafio está menos na complexidade das ações e mais na disposição de rever prioridades. “Não é tão difícil criar empresas assim, instituições assim. Não é impossível”, afirmou.
A jornalista defendeu ainda que a prosperidade está diretamente ligada à valorização das relações humanas e à capacidade de incorporar, no cotidiano profissional, princípios como empatia, diálogo e respeito.
Leila Ferreira também chamou atenção para a necessidade de resgatar valores essenciais nas relações de trabalho e na vida. “A gente tem que repensar a vida de hoje. A gente tem que incorporar essa mensagem de amor”, disse, ao destacar que o sucesso vai além dos resultados financeiros.
Para ela, ambientes verdadeiramente prósperos são aqueles que incentivam conexões genuínas, pausas e até leveza nas interações. “A prosperidade vem acompanhada de afeto, de conversas, de pausas e, se não for pedir muito, de simpatia”, concluiu, reforçando que humanizar o trabalho é um caminho viável e necessário.
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