Realização da tradicional Feira Hippie da Afonso Pena foi interrompida por conta da pandemia de Covid-19 | Crédito: Divulgação

Em Belo Horizonte, pensar em artesanato significa quase que imediatamente pensar na Feira de Arte, Artesanato e Produtos de Variedades da Afonso Pena ou, melhor dizendo, na popular, tradicional e turística Feira Hippie.

Desde meados de março sem funcionar, o espaço, que abriga 1.800 barracas, deixa um sentimento de vazio na cidade e sem renda diretamente mais de 2 mil pessoas entre artesãos e pessoal de infraestrutura. Segundo o presidente da Associação dos Expositores da Feira de Arte, Artesanato e Produtos de Variedades da Afonso Pena (Asseap), Willian Santos, os protocolos de biossegurança farão parte do “novo normal” da Feira a partir do primeiro momento que ela for autorizada a voltar. A expectativa é que as pessoas estejam com saudades, mas que, ao mesmo tempo, não estejam dispostas a se arriscar.

“Estamos aguardando e sempre manifestando nossa vontade de voltar. A maioria dos trabalhadores só tem a feira como fonte de renda. Temos uma boa interlocução com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e conseguimos ser atendidos emergencialmente, mas isso não basta. Como artesãos, vamos ter que nos adaptar à internet. Ela nos possibilita vender, inclusive, pra quem não viria aqui em condições normais. Eu mesmo já recebi encomendas de São Paulo e do Espírito Santo durante a pandemia. Meus seguidores no Instagram passaram de 200 para 1.200 a partir da criação do perfil da Feira na rede social, o @falafeiraoficial”, explica Santos.

A responsável pela criação do perfil é a empreendedora que aluga barracas para os expositores da Feira, Silvia Piastrelli. Presente entre os artesãos desde a infância, quando acompanhava o avô e o pai, se viu sem ter o que fazer quando a pandemia chegou.

“Pensei que tinha que fazer alguma coisa pelos expositores, então resolvi divulgar no Instagram e criei a página. Coloco Whatsapp, Instagram e localização da barraca na feira. A logística toda é com eles. A maior parte dos expositores é de idade, então tenho que ajudar muito. É um trabalho bem lento. Conseguimos uma mentoria do Centro Universitário Newton Paiva, que deu cursos on-line para ajudar a se formalizarem. Temos no Instagram 130 feirantes e 100 mil seguidores. Os expositores estão vendendo o Brasil inteiro. Agora é hora de correr atrás do cliente. Antes o artesão não tinha o trabalho de ir atrás do cliente, agora tem”, pontua Sílvia Piastrelli.

Em Curvelo, na região Central do Estado, a Associação Dedo de Gente também se desdobra para continuar atendendo cerca de 50 jovens em sua sede e duas filiais, nas cidades de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, e Raposos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). De acordo com a presidente da Dedo de Gente, Doralice Mota, foi preciso adaptar os espaços onde os jovens produzem as peças para garantir as condições de biossegurança.

A presença digital já consolidada tem permitido que a instituição alcance um resultado surpreendente durante o período de pandemia.

“Por incrível que pareça, depois do susto, começamos a receber muitas encomendas. Notamos que as pessoas estão passando mais tempo em casa e, por isso, querem cuidar mais dela. Essa é também uma forma de autocuidado. Estamos nos aprofundando no jeito de contar a história de cada peça, cada artesão. Também nos aproximamos mais das empresas. Fazemos presentes especiais, que vão com um cartão escrito à mão. Tudo isso ganhou um novo valor com a pandemia e deve permanecer. Nossa presença na Internet facilitou esse processo. O futuro vai integrar essas duas pontas, mantendo o contato presencial e se alimentando das possibilidades virtuais”, avalia Doralice Mota.