Brasil avança no mercado global de construção verde, mas transição para aço de baixo carbono ainda enfrenta desafios
O Brasil ocupa hoje a sétima posição no ranking mundial de edificações certificadas pelo LEED, sistema internacional de avaliação de sustentabilidade em construções, com mais de 900 projetos homologados. O desempenho coloca o País como líder regional na América Latina e acende um debate sobre como a indústria nacional pode monetizar essa posição sem encarecer ainda mais um setor já pressionado por juros altos e custo de capital elevado.
No centro dessa discussão está a adoção de insumos com menor emissão de carbono. O aço produzido a partir de sucata metálica e energia elétrica renovável, em vez do processo tradicional com carvão mineral, emite 68% menos CO₂ por tonelada, segundo dados do fabricante ArcelorMittal. A diferença tem peso crescente em projetos que buscam certificações ambientais, já que os critérios de pontuação do LEED incluem a origem e o desempenho ambiental dos materiais utilizados.
A lógica econômica por trás disso é direta: construtoras que obtêm certificações ambientais tendem a acessar financiamentos com condições mais favoráveis, atrair perfis específicos de investidores institucionais e diferenciar seus empreendimentos em mercados de alto padrão. Em Belo Horizonte, um edifício residencial que usou esse tipo de aço na estrutura registrou redução equivalente a 430 toneladas de emissões de gases de efeito estufa ao longo da obra, volume que, em mercados de carbono mais maduros, teria valor financeiro direto.
O movimento, porém, ainda é concentrado em projetos de grande escala ou alto padrão. A viabilidade econômica para obras de menor porte depende da evolução do diferencial de preço entre o aço convencional e o de baixo carbono, uma equação que tende a melhorar conforme a demanda cresce e a infraestrutura de reciclagem se expande no País.
Outro vetor de mudança vem pelo lado estrutural: vergalhões com maior resistência mecânica permitem usar menos material por metro quadrado construído, reduzindo tanto o custo com insumos quanto a pegada de carbono da obra. Tecnicamente, a substituição de perfis CA50 por CA70, 40% mais resistente, pode diminuir o volume de aço necessário, com reflexo direto no custo total da edificação.
Para o setor como um todo, o desafio é escalar essas soluções além dos projetos emblemáticos. A construção civil responde por parcela significativa das emissões globais de carbono, estimativas do setor apontam para algo entre 8% e 11% do total mundial, considerando a cadeia completa de materiais. Qualquer trajetória de descarbonização relevante passa necessariamente por mudar a composição dos insumos em obras de todos os tamanhos, não apenas nas que estampam releases corporativos.
“A combinação de material reciclado, energia renovável e produtos de maior resistência representa um caminho sem volta para a descarbonização da construção civil”, afirma o vice-presidente comercial da ArcelorMittal Aços Longos, Gustavo Canaan.
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