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Em um cenário de Selic com mínima histórica, baixo retorno da renda fixa e uma corrida em direção à renda variável, empresas que prestam consultoria em investimento ganham notoriedade e crescem acima da média. Empresários do setor em Minas Gerais relatam a diminuição do interesse de clientes em investimentos como CDB e tesouro direto e um boom de procura por fundos multimercados e ações na bolsa. A transição de um investimento conservador para um de risco fomenta a busca por consultoria, uma vez que, na renda variável, há menos pessoas dispostas a se arriscarem sozinhas.

Não é à toa que o brasileiro está se sentindo “expulso” da renda fixa. Os produtos que se encaixam nessa modalidade têm seu rendimento atrelado à Selic que, no último mês, atingiu nova mínima histórica, passando de 6,5% para 6,0% ao ano. E a tendência é que ela sofra novos cortes.

A renda variável é o caminho alternativo mais lógico, sendo as ações na bolsa uma das principais escolhas dos brasileiros nos últimos meses. Segundo dados da B3, no mês de julho, 20% do volume de compra e venda da bolsa veio de pessoas físicas.

De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os investimentos dos brasileiros no primeiro semestre de 2019 aumentaram 11% em relação ao mesmo período no ano passado.

Segundo a instituição, os ativos de renda variável foram os que mais cresceram (17,4%), atingindo R$ 172,7 bilhões sob gestão.

Na Monteverde Investimentos, localizada no Santo Agostinho, na região Centro-Sul da Capital, nos últimos três meses, houve um aumento de 50% no número de clientes que buscam investir na bolsa. Segundo o sócio-fundador, Daniel Ribeiro, parte desses clientes veio da renda fixa e parte já investia em outros ativos da renda variável.

“Os investidores vieram de lugares diferentes, mas de uma maneira geral há uma procura maior pela renda variável e isso reflete no nosso negócio tanto em crescimento de número de clientes quanto em faturamento por conta do maior retorno”, diz.

Para ele, o crescimento no número de pessoas físicas investindo na bolsa é um sinal positivo para a economia no País.

“A bolsa foi criada como alternativa para as empresas se financiarem a um custo mais baixo do que as taxa de juros dos bancos. Se o investidor aposta em ações ele incentiva o setor produtivo, que vai crescer, gerar mais emprego, renda e consumo, fortalecendo a economia”, analisa.

Ribeiro explica que a bolsa tem tido bom desempenho mos últimos meses por causa de uma previsão positiva para a economia. Mas, ele alerta que se essa expectativa não for correspondida e o cenário econômico não reagir esse resultado pode mudar.

“A bolsa antecipa expectativas, que nesse momento, são positivas. Mas as coisas ainda não melhoraram: temos uma alta taxa de desemprego, o comércio ainda está apático, a produção industrial está fraca e a atividade econômica estagnada. Se a reação esperada não acontecer haverá correções de preços”, explica.

Investidor busca consultoria – A corrida pela renda variável acabou levando a um aumento na procura pelas empresas especializadas em consultoria de investimento. Empresários acreditam que a saída de um investimento mais conservador para um de maior risco acelerou essa busca.

Números do mercado também mostram esse movimento: de acordo com o Raio X do Investidor Brasileiro, publicado pela Anbima, as consultorias de investimento e os aplicativos de corretoras foram mais procurados para obtenção de informações sobre produto financeiro, em 2018. O número de investidores que buscaram as consultorias passou de 17% para 20% e os que buscaram os apps passou de 11% para 13%, considerando a comparação com 2017.

Localizada no bairro Lourdes, na região Centro-Sul da Capital, a gestora de investimentos e fundos Veneto Gestão de Recursos é uma das consultorias que tem absorvido essa demanda. De acordo com o CEO, Carlos Pessoa, isso ficou mais evidente este ano, quando investidores habituados à renda fixa começaram a procurar a gestora para diversificar pelo menos parte de sua carteira de investimentos.

“Nunca imaginei que essa procura seria tão forte como foi nos primeiros oito meses desse ano. Em um ano triplicamos o patrimônio sob nossa gestão”, afirma.

O executivo lembra que o brasileiro não tem hábito de estudar o mercado financeiro e, por isso, precisa de ajuda ao se expor ao risco.

“O investidor que apostava só em renda fixa fazia tudo sozinho, mas na renda variável ele prefere contratar um profissional para auxiliá-lo”, afirma. Segundo Pessoa, essa grande demanda vai ajudar a gestora a crescer nos próximos anos. Atualmente a empresa tem R$ 450 milhões sob gestão e a expectativa é fechar 2019 com R$ 650 milhões e chegar a R$ 1 bilhão em 2020.

Na 3A Investimentos, localizada no Belvedere, na região Centro-Sul da Capital, a demanda pela renda variável e, consequentemente, pela consultoria partiu dos mais diferentes perfis de investidores. Segundo o sócio, Paulo Caus, a demanda parte dos próprios investidores e, em alguns casos, é até surpreendente por se tratar de pessoas com perfil bastante conservador. Ele acredita que esse movimento é positivo porque mostra a importância do trabalho da agência.

“No cenário de juros altos as pessoas investiam sem assessoria e, até apostando mal, elas tinham algum resultado. Mas, na medida em que os juros caíram, elas começaram a tomar mais risco e perceberam que precisavam de consultoria”, destaca. Ele explica que esse movimento tem gerado aumento do número de clientes, melhores resultados sobre os investimentos e mais prestígio para o negócio.

“Nosso business é baseado na confiança que o cliente tem no nosso trabalho como especialistas. Na renda variável isso fica mais evidente e, por isso, nosso trabalho é mais reconhecido, gerando novas recomendações”, afirma.

Por causa desse cenário otimista as perspectivas da 3A para o próximo ano são positivas: a meta é crescer 333% no faturamento até o fim de 2020. Além disso, a empresa se prepara para expandir por meio da abertura de um escritório em São Paulo. A expectativa é que a filial seja inaugurada em outubro deste ano.