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Energia solar e eólica superam gás no mundo pela primeira vez

Marco histórico em abril mostra aceleração da transição energética impulsionada por crise e avanços tecnológicos
Energia solar e eólica superam gás no mundo pela primeira vez
Foto: Reprodução Freepik

Pela primeira vez, a geração mundial de eletricidade vinda de fontes solares e eólicas foi superior à obtida com gás. Em meio a uma crise sem precedentes no mercado de energia, o marco histórico foi atingido em abril, segundo números compilados pela Ember, think tank do setor: 22% do total proveniente das duas modalidades renováveis, contra 20% da de origem fóssil.

Foram 531 TWh (terawatts-hora) gerados com placas solares e torres eólicas contra 477 TWh de usinas a gás. A comparação com abril de 2021 é eloquente. Há um ano, o gás foi responsável por uma quantidade semelhante, 476 TWh, enquanto solar e eólica não alcançavam 245 TWh, menos da metade do patamar atual.

A geração de eletricidade a carvão ainda domina o cenário mundial, com 758 TWh apenas no mês passado, quando os sintomas da eclosão da guerra no Irã, iniciada por EUA e Israel, foram plenamente sentidos pelo mercado global de energia. É o maior choque no setor desde a crise do petróleo dos anos 1970.

Especialistas apontam que as sucessivas flutuações nos preços dos combustíveis, que desafiam governos e consumidores em todo o planeta, devem acelerar ainda mais a transição energética. Isso foi percebido em abril, quando uma propalada substituição temporária do gás pelo carvão não ocorreu.

Em contrapartida, o crescimento na geração mundial de solar e eólica subiu 13% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo o think tank, o Brasil gerou 4% a mais, número modesto perto do observado em outros grandes mercados, como China (13%), União Europeia (14%), Reino Unido (35%), Austrália (17%) e Chile (24%).

Até os EUA, que vivem uma campanha aberta da administração Donald Trump contra energia eólica, geraram 8% mais eletricidade com as duas modalidades renováveis em comparação a abril de 2021.

Segundo projeção da BloombergNEF, publicada também nesta semana, a energia solar se tornará a maior fonte de eletricidade do mundo até 2032. A guerra acelera a transição, mas a virada já está ocorrendo por excesso de oferta, avanços tecnológicos e queda nos preços.

“Países em todo o mundo têm recorrido à energia eólica e solar porque são fontes de eletricidade baratas, produzidas localmente e seguras”, afirma Kostantsa Rangelova, analista da Ember. “A atual crise energética reforçou ainda mais os argumentos econômicos a favor das renováveis em comparação com o gás importado, ao mesmo tempo em que aumentou a urgência política para acelerar sua implantação.”

O fechamento do estreito de Hormuz, com cerca de 90% dos navios impedidos de navegar em consequência da guerra, prejudica o escoamento de combustíveis. Antes do conflito, 20% do gás natural e 25% do petróleo consumidos no mundo passavam pela rota. Mercados asiáticos, em geral, são os mais atingidos pela escassez dos produtos.

Responsável pelo terceiro choque de energia da década, após a pandemia e a invasão russa na Ucrânia, o conflito no Irã sublinha a necessidade por segurança energética. Nos diversos cenários traçados pela Bloomberg, o caminho mais fácil para não depender de importações é buscar o net zero, a neutralidade na emissão de carbono, até 2050.

Países como Brasil, Reino Unido, EUA e Austrália alcançariam total independência energética, segundo a agência, se optassem pelo objetivo traçado no Acordo de Paris, que busca manter o aquecimento global em relação aos níveis pré-industriais entre 1,5°C (meta na prática já inalcançável) e 2°C.

“Embora as preocupações com a segurança energética possam levar alguns países ricos em carvão a voltar a dar ênfase ao uso desse combustível, de acordo com nosso cenário econômico de transição, ele não será competitivo em termos de custo no longo prazo”, afirma o relatório. A estimativa é que o uso de carvão para geração de energia caia pela metade até 2050. E por pressão econômica, não ambiental.Além do pico em renováveis, abril também registrou uma procura inédita por veículos elétricos na Europa, em que o preço da gasolina e do diesel nas bombas fez estragos no humor dos eleitores. De acordo com a Reuters, o número de licenciamentos de carros sem motor à combustão saltou 34% apenas em abril. Empresas como a Renault, no Reino Unido, e Seat, braço da Volkswagen na Espanha, viram a procura por modelos elétricos e híbridos aumentar mais de 50%.

A Agência Internacional de Energia estima que o setor bata recorde de vendas neste ano, com 23 milhões de unidades comercializadas.

Conteúdo distribuído por Folhapress

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