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Felicidade: o desafio de conciliar economia e bem-estar

Economista e filósofo destaca a importância de novas métricas além do PIB e a urgência de uma sociedade mais consciente e cooperativa em tempos de crises globais
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Felicidade: o desafio de conciliar economia e bem-estar
Foto: Reprodução Pexels

Reconciliar as diversas dimensões da vida e prosperar em um cenário em que a economia, a ética, o respeito aos seres vivos e ao planeta se complementem, equilibrando individualidade e coletividade é o grande desejo e desafio da humanidade, especialmente, das novas gerações. Tudo isso, talvez, possa ser simplificado na palavra felicidade. Quais caminhos seguir para alcançar esse objetivo é tema de vários autores, entre eles, o economista e filósofo brasileiro Eduardo Giannetti, autor, entre outras obras, de “O Valor do Amanhã e Felicidade”.

“A riqueza material é importante, mas não esgota aquilo que torna uma vida valiosa. O grande desafio do nosso tempo é compreender como conciliar desenvolvimento econômico, liberdade individual e bem-estar humano”, afirma Giannetti.

Segundo dados do Ministério da Previdência Social, os afastamentos por burnout passaram de 823, em 2021, para 7.595, em 2025 — uma alta de cerca de 823%. Em 2025, foram concedidos 7.595 benefícios por incapacidade temporária por esgotamento profissional, contra 823 em 2021 — quase nove vezes mais no período.

Eduardo Giannetti
Para o economista, o PIB é um indicador falho para avaliar a qualidade de vida; ele propõe que novas métricas sejam criadas e que abordem o ser humano como um todo | Foto: Divulgação Renato Parada

O avanço também é observado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). As denúncias relacionadas à saúde mental no trabalho passaram de 190 para 1.022 entre 2021 e 2025 — aumento de cerca de 438%.

Apesar dos números mostrarem uma sociedade global mentalmente adoecida, ele disse acreditar que estejamos passando por uma fase marcada pelo arraigamento de conflitos e moralismos que já foi experimentada pela humanidade e que, como das outras vezes, será vencida.

“Vejo uma similaridade com o fim da Belle Époque, nos anos de 1930, com o recrudescimento da violência, ascensão das ideias da extrema direita, desembocando na guerra. Mas como naquela época vamos ultrapassar essa fase. O maior perigo é perdermos a esperança. Não é à toa que na porta do inferno de Dante está o aviso ‘Deixai toda a esperança, vós que entrais’. O problema é que estamos numa sociedade que se move ao sabor das comoções. O Brasil poderia melhorar não se deixando levar pelo momento e tendo uma postura de capacidade cooperativa”, diz.

Por isso, ele aposta que o mundo precisa de novas métricas que sejam capazes de medir não apenas a produção e circulação de produtos e serviços como o Produto Interno Bruto (PIB), mas também enxergar o ser humano como um todo e o seu bem-estar e não apenas como um produtor de riquezas.

“Precisamos de uma métrica que não seja tão economicista como o PIB [Produto Interno Bruto]. Ele não é capaz de medir o que existe de mais valioso, que são as interações humanas. Ele só mede o que transita pelo sistema de preços. É como no caso de uma cidade onde as pessoas têm acesso à água limpa sem pagar. Esse acesso não entra na conta do PIB. Se essa mesma cidade polui o rio, passa a contar com um serviço de tratamento da água e passa a pagar, essa atividade econômica faz com que o PIB cresça. Então a economia cresceu, mas a qualidade de vida piorou. Por isso o PIB é um indicador falho para avaliar a qualidade da vida que levamos”, exemplifica.

Uma tentativa de criar essa métrica é a Felicidade Interna Bruta (FIB), criada em 1972 pelo rei do Butão. Em vez de focar apenas no crescimento econômico e na produção de riquezas materiais, a FIB avalia o bem-estar social, a qualidade de vida e a sustentabilidade de uma nação. O índice não mede apenas emoções momentâneas, mas sim a base estrutural que permite uma vida plena. Ele é composto por quatro diretrizes principais: o desenvolvimento socioeconômico sustentável, a preservação da cultura, a conservação ambiental e a boa governança.

Para o economista, a felicidade coletiva, capaz de fazer com que as pessoas trabalhem e consumam melhor, exige um empenho em rede, unindo poder público, iniciativa privada, instituições, academia e os indivíduos. Cultivar a diversidade e a originalidade brasileira faz parte desse caminho.

“Temos uma cultura muito vibrante, original e com grande potencial para criar soluções. Eu sonho com um Brasil que preserve o rigor dos afetos e conquiste uma convivência mais pacífica, harmoniosa e mais próspera. O nosso desafio é apurar a forma da convivência sem perder o fogo dos afetos”, avalia o autor.

Felicidade e produtividade alicerçam economia do futuro

O envelhecimento da população e a escassez de mão de obra são fatores que deveriam alertar governo e iniciativa privada sobre a necessidade de repensar os modelos produtivos e cuidar para a qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a população brasileira está envelhecendo e cresce em ritmo cada vez menor. No ano passado, a população residente foi de 212,7 milhões de pessoas, aumento de 0,39% em relação a 2024. A taxa de crescimento tem ficado abaixo de 0,60% desde 2021. Do total, 51,2% eram mulheres e 48,8% eram homens.

Isso significa que o gráfico etário da população brasileira já abandonou a figura de uma pirâmide para muito em breve chegar ao formato de cogumelo, em que a base de jovens é muito mais estreita do que o topo do gráfico com os mais velhos.

“Isso coloca um desafio tremendo para a nossa sociedade. Se não aumentarmos a produtividade do trabalho, não vamos sustentar o topo do gráfico. Só existe um caminho para conseguirmos: o aumento da produtividade. E, para conseguirmos esse aumento precisamos aumentar o estoque de capital – físico e humano – por trabalhador e contar com instituições capazes de gerir as regras do jogo econômico direcionando para os setores que dão mais resultado”, ensina o economista.

Para ele, o momento histórico atual, às vésperas de mais uma eleição, deveria ser o ideal para o aprofundamento das discussões em busca de uma sociedade mais próspera, sustentável e realmente feliz. “Infelizmente, esse tempo é mal ou nada aproveitado pelos políticos e sociedade açodada pela disputa por cargos de curto prazo”, observa.

“Vivemos no que eu chamo de ‘neolítico moral’, com a inteligência artificial capaz de tantos assombros, mas do ponto de vista ético continuamos no neolítico, usando a violência como solução, principalmente com o avanço da extrema direita no mundo, especialmente, nos Estados Unidos”, destaca.

Eduardo Giannetti estará nesta quinta-feira (25), às 19h, em mais uma edição do Diálogos com a Felicidade 2026, iniciativa do Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar. Com o tema central “O desafio de pensar e agir centrado no humano em uma sociedade digital”, o encontro acontece na Casa Palma, no bairro Serra (região Centro-Sul) e os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

Casa Palma
Eduardo Giannetti participa nesta quinta-feira (25), às 19h, de mais uma edição do Diálogos com a Felicidade 2026, na Casa Palma, em BH; ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla | Foto: Reprodução Site Casa Palma

Segundo o diretor do Instituto Movimento pela Felicidade e Bem-Estar e idealizador da trilha Diálogos com a Felicidade, Benedito Nunes, a proposta dialoga com uma das nove dimensões da chamada “Felicidade Interna Bruta”, metodologia internacional que considera o padrão de vida como um dos elementos essenciais para a construção da felicidade coletiva e economias resilientes.

“O Diálogos é uma trilha de aprendizagem que reúne temas conexos com a felicidade. Recebemos convidados especiais para debater temas que podem nos ajudar a compreender e a usufruir dos benefícios da felicidade e do bem-estar no ambiente pessoal e, principalmente, no ambiente organizacional”, destaca Nunes.

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