Ciência e IA redefinem cuidados com a pele, diz CEO da Debonne
Dermocosméticos são produtos que ficam entre um cosmético tradicional e um medicamento. Desenvolvidos com alta tecnologia e rigor científico, eles contêm concentrações maiores de ativos farmacológicos que agem nas camadas mais profundas da pele, tratando problemas como acne, manchas, rugas e flacidez.
E para entender um pouco mais sobre esse universo, o Diário do Comércio foi conhecer a Debonne Dermocosméticos. A empresa, com sede em Belo Horizonte, que completou 25 anos fabricando linha própria e para terceiros, tem como fundadora e CEO, a farmacêutica bioquímica e industrial Janete Grippa, mestre em inovação tecnológica farmacêutica, propriedade intelectual e patentes pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Embora as condições tenham mudado nos últimos anos, a presença feminina ainda é pequena nas ciências. Como nasce uma farmacêutica? O que te levou para esse caminho e como nasce uma empreendedora nesse setor?
Sua pergunta me fez pensar nos exemplos. Como isso é importante na nossa vida. Eu venho de uma família de mulheres empreendedoras. Minha mãe é a mais velha de uma família de sete filhos, sendo só um homem. Eram todas donas do seu nariz, cuidando da sua vida e então isso sempre foi uma realidade para mim. Eu entrei na escola já alfabetizada pela minha irmã. Minha mãe era empreendedora também, dava aulas de corte e costura. Eu sempre tive isso que eu podia ser o que quisesse, desde que me dedicasse. E a farmácia foi mais por acaso, muita gente estava indo para farmácia. Eu falei: “O que é isso? Vou fazer também”. E aí aconteceu de passar e falei: “Opa, uma chance”. E me agarrei ali. E, apesar de não ter sido aquela escolha que eu sonhei desde pequena, eu aprendi que se pegasse uma coisa para fazer, eu ia fazer bem-feito. Essa herança é da minha mãe “italianona” rigorosa. Nunca achei que eu tinha tino para comercial, mas as oportunidades foram aparecendo e quando eu me vi na primeira oportunidade de montar um laboratório de manipulação para uma grande rede, surgiu a veia empreendedora. Mas não é fácil. Não é à toa que eu fui atrás do mestrado em inovação tecnológica na ciência. Eu queria entender e aplicar mais.
Pensando nesse cenário todo, no desenvolvimento tecnológico, quais são as tendências?
Há uns quatro anos, veio a estética regenerativa. Finalmente as pessoas estão entendendo que a pele não é uma cebola que eu posso tirar as camadas para aquela camada lá de baixo ficar linda. Cresce a utilização de substâncias que sejam bioidênticas que a gente já tem na nossa pele e eu não estou falando só de coisas básicas, como o colágeno ou o ácido hialurônico. Estou falando de usar a biotecnologia para obtenção de peptídeos que sinalizam para a camada basal da pele que ela está precisando renovar porque as camadas superiores já estão mais velhas. Eu posso, por exemplo, utilizar bactérias para sintetizar análogos idênticos que eu vou aplicar no cosmético. Ele vai ser, de uma maneira tecnológica, otimizado para conseguir permear as camadas da pele. A gente vê o movimento da chamada estética regenerativa. E sonhamos com o abandono desses exageros, de tanta coisa que vira moda, viraliza e que hoje é muito difícil a gente conseguir conter. O que eu acho pior são pessoas que não são da área divulgando. Elas estão monetizando e aí dizem que serve para todas as peles, que vai dar certo para todo mundo e as pessoas compram. Essa pessoa não é um profissional da área de saúde confiável para te orientar. E tem as fake news, que são as piores de todas, que é a informação travestida de ciência. Ele fala que não é bom usar protetor solar, que tem disruptores endógenos. Ele está falando de uma coisa da década de 1980. Se fizermos uma pesquisa básica, no Chat GPT e perguntarmos: “Existe no mercado protetor solar com benzofenona?”. Ele vai falar que são poucas as opções, e a tendência é de não ser usado, que hoje existem vários outros filtros eficientes e, por isso, apesar de não comprovada essa questão da toxicidade da benzofenona, ela está sendo abandonada. E a pessoa pega essa informação de lá de trás e fala como se todo protetor tivesse benzofenona. Então a gente tem que acompanhar, ter um profissional de referência para tirar as dúvidas e até mesmo usar a inteligência artificial a seu favor.
O que a Debonne está preparando para um futuro próximo?
Eu vejo um movimento muito grande do profissional querendo ter a sua linha de cosméticos. E, claro, a individualização nunca vai se perder, porque ela é uma tendência. Muitos profissionais querem ter sua linha de produtos mais básicos. Estamos investindo muito nessa parte da mentoria para criação de linha própria, desenvolvendo linhas para vários profissionais do mercado que já utilizam os nossos produtos. Em paralelo a isso, a outra tendência que cresce vertiginosamente é a individualização. A parte de fórmulas de manipulação hoje, em relação ao início da pandemia, representa muito mais dentro do nosso faturamento. Nesse mercado wellness, todo mundo quer se sentir bem. As novas gerações estão muito mais preocupadas com a saúde mental e, com isso, a individualização está muito presente, porque as pessoas entenderam que se eu tenho uma pele acneica e ela está com mancha e eu tenho uma questão do meu intestino, eu posso ter um ativo muito mais específico para essa pele sensível, que vai favorecer a microbiota, um prebiótico associado a um controle de sebo. Pensando nessa estética mais regenerativa e individualizada, focamos nesses dois polos: ampliar cada vez mais a consultoria gratuita que a gente dá para apoiar os profissionais na individualização e também na possibilidade de ter uma marca própria. O que faz a pele bonita no longo prazo é o que você faz todo dia. Não adianta ir ao consultório uma vez por ano fazer mil procedimentos se você não tem alimentação adequada, se não toma água direito, se não dorme bem. Então, o que você oferta para pele todos os dias, faz uma diferença gigantesca lá na frente. E temos os ativos tecnológicos, bioidênticos, que realmente trabalham o que a pele está necessitando naquele momento e que a indústria não consegue oferecer porque ela produz em larga escala. No individualizado, posso ter concentrações muito maiores, pHs muito mais drásticos de acordo com a necessidade e por conta do acompanhamento que o consumidor vai ter tanto do farmacêutico quanto do médico. Hoje é possível, inclusive, pegar o teste alérgico do paciente e manipular uma linha de cosméticos sem o conservante ou o quelante que ele não pode usar. As pessoas sempre acham que o que dá alergia é o ativo. Na maioria das vezes o que causa alergia é conservante e isso eu posso adequar de acordo com o teste que a pessoa me traz. Conseguimos entregar esse reforço para que o profissional brilhe nos procedimentos que ele faz, sendo ambientalmente corretos. O natural e o sintético têm o seu lugar. A maioria dos medicamentos vem das plantas, mas não necessariamente a gente precisa destruir a natureza para a obtenção daquela substância se temos a capacidade de sintetizá-la.
Hoje é impossível falar sobre tecnologia sem falar da IA. Como a inteligência artificial já atua na dermocosmética e, em especial, na Debonne?
No passado, a gente ia para os congressos e trazia todos aqueles catálogos, aqueles materiais que a gente tinha que digerir ali ao longo do ano. Hoje você tem isso na ponta dos dedos e é fantástico. Seja para otimizar a nossa rotina diária, por exemplo, no controle do estoque de insumos. Aqui na Debonne são mais de 100 itens que eu tenho para cotar em mais de 10 fornecedores todos os meses. E eu não olho apenas o preço, avalio o prazo de validade, o tamanho da embalagem, questões técnicas de fator de correção, de pureza, de cada insumo. É enlouquecedor. Mas que hoje eu utilizo a IA para criar tabelas comparativas, óbvio, sempre com supervisão. É preciso saber trabalhar com a inteligência artificial para que ela entregue o melhor. É um aprendizado diário e muito interessante. Também no desenvolvimento de um cosmético, podemos utilizar a IA para ajudar nas incompatibilidades, na busca de substâncias com a pegada ambiental mais interessante, por exemplo.
Esse é um setor bastante competitivo. O que você identifica como um traço de mineiridade na sua gestão?
Eu acho que é a proximidade. A gente liga, orienta, tira dúvidas. Temos esse cuidado, tanto com o profissional quanto com o cliente. E também acho que dentro da equipe. Faço questão de estar sempre na contratação, no feedback. O mineiro também é detalhista e isso faz toda diferença para a gente entregar um produto que exceda as expectativas.
E, para fecharmos essa entrevista, uma dica, uma coisa que todo mundo deve fazer para ter uma pele saudável e bonita.
Se for para escolher só uma coisa, sem dúvida, é a proteção solar eficiente da área da face e do pescoço. Quando a gente olha todos os fatores externos ligados ao envelhecimento, o sol é responsável por 90% deles. As pessoas enchem a necessaire com muitas coisas que às vezes nem usam. E também não usam um protetor solar adequado. A maioria dos protetores ainda não é fotoestável, então você deveria reaplicar a cada duas horas ou procurar uma marca que seja fotoestável porque ninguém paralisa a vida de duas em duas horas para isso. Essa informação está no rótulo, não é difícil saber. Então compra um fotoestável, aplica de manhã, e você vai estar protegido do fotoenvelhecimento. É como eu falei, o que vale é o que você faz todo dia. E se você tiver uma proteção solar adequada, dá para fazer mais que isso, com certeza. Daí para cima já é lucro.
Ouça a rádio de Minas