Burnout, algoritmos e carreira: obras analisam a nova realidade do mundo profissional
Três obras publicadas recentemente por editoras distintas convergem para uma mesma constatação: as relações entre indivíduo, trabalho e sociedade atravessam uma reconfiguração profunda, impulsionada tanto pela crise da saúde mental corporativa quanto pelas transformações tecnológicas e jurídicas que redefinem o que significa, hoje, ter uma carreira.
Em “Revolução Corporativa: Liderança, Felicidade e Saúde Mental no Trabalho” (Trend Editora), a especialista em liderança Renatta Rêzende argumenta que o bem-estar deixou de ser pauta acessória de recursos humanos para se tornar centro da estratégia empresarial. Segundo a autora, o aumento de casos de burnout e afastamentos por questões emocionais obriga líderes a repensar seus modelos de gestão: metas e faturamento, por si só, não sustentam mais organizações saudáveis.
Renatta Rêzende propõe que propósito, pertencimento e reconhecimento sejam tratados como ativos estratégicos tão relevantes quanto indicadores financeiros, e sugere ferramentas práticas – de exercícios de autoconhecimento a métricas de engajamento – para que empresas identifiquem sinais de esgotamento antes que comprometam pessoas e resultados.

Essa mesma inquietação sobre o sofrimento psíquico contemporâneo, ainda que sob outra chave de leitura, atravessa “Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo” (Editora Pangeia), do psicanalista Marcio Garrit. Retomando “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, de Freud, e dialogando com Étienne de La Boétie, Garrit investiga como plataformas digitais e algoritmos passaram a ocupar o lugar antes reservado a partidos, igrejas e jornais na organização de crenças e vínculos sociais.
Para o autor, comportamentos coletivos hoje moldados por redes sociais respondem a necessidades psíquicas de desamparo e busca por pertencimento. “O problema talvez não seja uma crise da verdade. A verdade nunca foi o principal motor das massas. As pessoas não se organizam apenas em torno de fatos, mas daquilo que lhes oferece pertencimento, esperança e sentido”, afirma Garrit. Sobre o deslocamento da liderança para o ambiente digital, o autor resume: “O líder saiu do palanque e entrou no celular. Essa talvez seja uma das maiores transformações da vida contemporânea.”
Já sob a ótica jurídica, a advogada trabalhista Marina Aguayo, autora de “Relações de Trabalho Modernas e as Fronteiras da Legalidade”, discute como a escolha entre CLT, atuação como pessoa jurídica ou carreira em concurso público impacta diretamente o equilíbrio emocional e a realização profissional.
Marina Aguayo cita dados do IBGE que apontam crescimento nos formatos de trabalho mais flexíveis nos últimos anos e alerta para os riscos jurídicos da pejotização em contratações híbridas. “Há pessoas que precisam da previsibilidade da CLT ou do serviço público para se sentirem seguras, enquanto outras se realizam com a autonomia e a liberdade proporcionadas pela atuação como PJ ou empreendedor. O importante é compreender o próprio perfil antes de tomar decisões que impactam toda a trajetória profissional”, afirma a advogada. E completa: “A realização profissional não está necessariamente no regime de contratação, mas na compatibilidade entre aquilo que o trabalho oferece e aquilo que a pessoa busca para sua vida. Quando essa conexão não existe, é comum surgirem insatisfação, esgotamento e até problemas de saúde mental.”
As três obras tratam de camadas diferentes de um mesmo fenômeno: o esgotamento das fórmulas tradicionais de organização do trabalho e da vida coletiva diante de um cenário marcado pela aceleração digital, pela precarização de vínculos e pela cobrança crescente por produtividade. Se para Renatta Rêzende a resposta está na gestão que coloca pessoas no centro, para Garrit o desafio é compreender como identidades e crenças se formam hoje sob a influência de algoritmos, e para Marina Aguayo a saída passa por decisões de carreira mais conscientes e alinhadas ao perfil de cada profissional. Juntas, as três leituras sugerem que a saúde mental – individual, coletiva e corporativa – tornou-se o eixo a partir do qual o mundo do trabalho contemporâneo precisa ser repensado.
• Revolução Corporativa: Liderança, Felicidade e Saúde Mental no Trabalho
Renatta Rêzende, Trend Editora
• Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo
Marcio Garrit, Editora Pangeia
• Relações de Trabalho Modernas e as Fronteiras da Legalidade
Dra. Marina Aguayo
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