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Mater Dei acelera expansão e mira São Paulo como novo eixo de crescimento

Grupo mineiro aposta no mercado paulista para sustentar o crescimento nacional e projeta novos investimentos após a inauguração da unidade de Santana
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Mater Dei acelera expansão e mira São Paulo como novo eixo de crescimento
Salvador é uma das cidades que já recebeu o modelo de expansão da Rede Mater Dei pelo País | Foto: Divulgação Mater Dei

Fundada em 1980 a partir do sonho do “Doutor Salvador”, a Rede Mater Dei está prestes a dar um dos maiores saltos da história: a chegada a São Paulo, prevista para o fim de 2028. O grupo mineiro aposta inicialmente no bairro de Santana, na Zona Norte paulista, para aplicar o modelo que se consolidou em Minas Gerais, já com possibilidade de expansão na região.

Hoje presente em Belo Horizonte, Betim, Nova Lima, Uberlândia, Salvador (BA) e Goiânia (GO), o grupo avança pelo País sustentado por um plano de sucessão bem-sucedido, pensado para garantir que a formação dos herdeiros assegurasse a continuidade do hospital a cada troca de geração. O modelo conduziu a sucessão da primeira para a segunda geração, em 2011, e para a terceira, em 2024, preservando a continuidade da gestão.

É esse legado que o atual CEO da Rede Mater Dei, José Henrique Salvador, conduz há quase três anos à frente da companhia (após duas décadas de atuação na instituição). Em entrevista ao Diário do Comércio, ele detalhou os planos para a entrada em São Paulo, os critérios que orientam a expansão nacional e os investimentos em inteligência artificial que devem sustentar o próximo ciclo de crescimento.

A Rede Mater Dei construiu uma trajetória de mais de quatro décadas e atravessou diferentes gerações da família Salvador. Como esse processo de sucessão foi estruturado ao longo dos anos? Você está aqui há quase três anos: o que vem mudando desde então e o que vocês fazem questão de preservar?

Muito obrigado pela oportunidade. É um prazer receber o Diário do Comércio, um parceiro de longa data que acompanha a evolução dos diversos setores da economia.

A história da Rede Mater Dei é marcada pela continuidade. Estamos na terceira geração da família e, há quase três anos, assumi a liderança executiva da companhia. Mas minha trajetória na empresa começou muito antes: este ano completo vinte anos de casa. Entrei como estagiário de TI, em 2006, e passei por diferentes áreas da operação, conhecendo de perto a rotina do hospital, as equipes e, principalmente, a importância de manter o paciente no centro de todas as decisões.

O processo de sucessão sempre foi estruturado de forma profissional. Todos os integrantes da terceira geração passaram por uma formação executiva dentro e fora da empresa, com experiências em grandes grupos de saúde. Também assumimos posições de liderança na rede para demonstrar capacidade de gestão e relacionamento com as equipes, além de investir em formação acadêmica. Fiz meu MBA na Universidade Columbia, em Nova York, antes de ocupar cargos de diretoria.

Esse processo teve etapas bem definidas para preparar os sucessores para a liderança da empresa, sem perder a essência da Mater Dei. Hoje somos uma companhia de capital aberto, mas continuamos guiados pelos mesmos princípios da fundação: colocar o paciente no centro do cuidado, manter uma relação próxima com o corpo clínico, dedicar-nos exclusivamente ao negócio e estar presentes no dia a dia da operação. Independentemente do cargo que ocupemos, todas as decisões precisam estar voltadas para oferecer a melhor assistência possível.

Como vocês conciliam a abertura de capital com esse forte apelo familiar ainda presente?

Em 2021, tomamos a decisão de abrir o capital da Rede Mater Dei exatamente porque queríamos crescer, não só de forma orgânica, como vinha sendo feito até ali, mas também de forma inorgânica, por meio da aquisição de unidades, para levar a outras regiões do País o jeito Mater Dei de atender. Temos plena convicção de que isso pode ser perfeitamente equilibrado.

É uma empresa familiar, e grande parte da concentração societária das ações da Rede Mater Dei permanece com a família. Isso nos ajuda. Estando no mercado de capitais e sendo cobrados trimestralmente por resultados, conseguimos equilibrar o que considero positivo nas duas visões. Uma empresa familiar tende a ter uma visão mais voltada ao longo prazo, pensando no futuro e na perenidade da instituição. Já a visão do mercado, com os reportes trimestrais, ajuda na disciplina da execução das principais frentes que sustentam o curto prazo da companhia.

Sempre falamos internamente que, na nossa visão, precisamos entregar o curto prazo com consistência e sustentabilidade para poder sonhar com o longo prazo. É nesse sentido que tanto a visão da família, voltada para a construção da perenidade, quanto a visão do mercado ajudam muito. Não apenas na parte financeira, mas também na forma como o paciente nos enxerga, como o médico se relaciona conosco e como entregamos a qualidade intrínseca do que fazemos, que é a qualidade assistencial.

Desde que vocês entraram na bolsa, que resultados vêm apresentando? O que mudou, tanto de positivo quanto naquilo que perceberam que ainda precisa ser melhorado?

Temos conseguido, de forma consistente, avançar na integração das unidades. Na verdade, já finalizamos o processo de integração das unidades adquiridas. Depois do IPO, abrimos duas unidades: uma em Salvador e outra em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Também abrimos um ambulatório em Mariana, que tem sido muito importante para atender a região minerária.

Estamos muito satisfeitos com a performance. Passamos por um período de juros mais altos, o que prejudica o mercado de capitais, e todas as ações estão sendo precificadas a valores muito abaixo do que, na minha visão, deveriam estar há muito tempo. Isso também acontece conosco. Mas nossa visão é muito construtiva em relação ao futuro e às possibilidades que o mercado de capitais traz em termos de recursos e de novos investidores, para que continuem apostando no futuro e na longevidade da Rede Mater Dei.

CEO da Rede Mater Dei, José Henrique Salvador está à frente da companhia há quase três anos, após mais de duas décadas de atuação na instituição. | Foto: Divulgação/Mater Dei

A Rede Mater Dei está em expansão. Você acredita que o “jeito mineiro” consegue ultrapassar Minas Gerais e ser levado para outros estados? Quais aspectos da mineiridade estão presentes tanto na gestão quanto no corpo de funcionários?

O Dr. Henrique fala uma coisa muito importante: nós não queremos ser um amontoado de hospitais. Queremos ter a Mater Dei em sua concepção em cada uma das regiões onde estamos. Também não é incomum que, hoje, em Salvador ou em Uberlândia, a gente comece a construir relações cada vez mais próximas com as famílias, cuidando dos pais, dos filhos e recriando esse vínculo tão importante em um negócio como o nosso, que presta um serviço tão sensível quanto o cuidado com a vida humana.

Esse vínculo tem um toque de mineiridade, um jeito mineiro de ser. Somos um estado que reúne características de todo o Brasil. Estamos próximos de São Paulo, do Espírito Santo, do Rio de Janeiro, da Bahia e também do Brasil Central. Temos, por exemplo, duas unidades em Uberlândia. No Triângulo Mineiro, é impressionante como a realidade é diferente da de Belo Horizonte.

Mas há algumas características em comum: acolher bem, gostar de se relacionar com as famílias, valorizar a conversa com os mais velhos, saber ouvir e preservar as tradições. Nós somos assim. O mineiro também é resiliente, muito trabalhador, e são essas características que buscamos trazer para o nosso dia a dia.

Por outro lado, temos aprendido muito a incorporar elementos das culturas locais. Estamos cada vez mais baianos, cada vez mais goianos e, daqui a pouco, com a chegada a São Paulo, prevista para o fim de 2028 ou o início de 2029, estaremos um pouco mais paulistas também, por termos essa capacidade de integrar sem precisar impor.

Isso é algo que aprendemos ao longo do tempo: integrar também é absorver parte da cultura local, transformá-la e, ao mesmo tempo, oxigenar a cultura da Rede Mater Dei.

Como vocês estudam o plano de expansão? Por que já entraram nessas localidades e por que São Paulo é o próximo destino da Rede Mater Dei?

Fazemos um cruzamento de informações: analisamos o tamanho do mercado, a relação entre renda e empregos formais, como aquela população é atendida pela saúde suplementar, se há hospitais de qualidade e se existem profissionais com quem poderíamos trabalhar. Também fazemos uma análise profunda para verificar se temos capacidade de crescer naquela região. Há sempre uma autoavaliação importante para entender se o nosso jeito combina com aquele mercado.

São Paulo é a principal praça econômica do Brasil e apresenta um nível elevado de competição em algumas regiões. Escolhemos uma área que entendemos poder ser melhor atendida por um equipamento hospitalar com a qualidade que queremos oferecer. O bairro de Santana, na Zona Norte paulista, reúne características semelhantes às da nossa rede: cobertura de planos de saúde compatível, renda em crescimento e um contingente populacional muito relevante.

É uma região com 2 milhões de habitantes, um contingente populacional próximo ao de Belo Horizonte. A ideia é atender uma região específica e também o seu entorno. As pessoas tendem a procurar o hospital mais próximo de casa, mas entendemos que pacientes de outras regiões, principalmente das áreas vizinhas, também poderão buscar atendimento conosco.

O hospital está em uma região que também serve de acesso ao interior de São Paulo, uma área economicamente muito forte. Acreditamos que também poderemos receber pacientes dessas cidades.

Essa inserção em São Paulo também serve de base para outras expansões? O que vocês projetam para os próximos anos?

Não tenho dúvida de que essa é uma estratégia nossa. Sempre que fincamos o pé em alguma região, é porque entendemos que existe oportunidade para crescer ali. Neste momento, nosso foco está em dar os primeiros passos na região para, depois, fortalecer nossa presença naquela praça.

O setor hospitalar tem sinergias e ganhos de escala nacionais, mas o que mais faz diferença é sermos fortes nas regiões onde atuamos. Então, sim, vamos prospectar outros projetos em São Paulo depois desse movimento inicial.

Neste momento, nossa principal estratégia é fortalecer as praças em que já estamos presentes. Quando analisamos a alocação de investimentos, eles estão concentrados em Belo Horizonte, Uberlândia, Goiânia, Salvador e Feira de Santana. Os principais projetos estratégicos e as alavancas de curto prazo também estão voltados para essas regiões. Não podemos perder o foco, e ainda enxergamos muito valor a ser desenvolvido nelas.

Muitas pessoas ainda se queixam da ausência de hospitais de alta complexidade no interior mineiro, principalmente no Norte e no Noroeste de Minas. Vocês chegaram a avaliar atuações em outras regiões do interior, além do Triângulo?

Sim. Avaliamos outras cidades de Minas, assim como localidades fora do Estado. Temos alguns projetos. Estamos, por exemplo, em Mariana, uma região que consideramos relevante, onde já demos o primeiro passo e pretendemos ampliar nossa atuação. Também analisamos outras cidades com perfil semelhante e avaliamos possíveis investimentos. É preciso reunir uma série de condições para viabilizar um hospital de alta complexidade, mas pretendemos fazer alguns movimentos nos próximos anos, iniciando com projetos-piloto que poderão evoluir para projetos maiores.

Normalmente, começamos com um serviço ambulatorial ou uma clínica com consultas e exames para testar o mercado e entender se, ao longo do tempo, conseguiremos viabilizar um hospital. Um hospital é um empreendimento intensivo em capital. O investimento para construí-lo é elevado e sua operação também exige muitos recursos: contratação de profissionais, aquisição de equipamentos e estrutura permanente. Todo investimento precisa ser analisado com muito cuidado.

Não dá para falar de expansão sem falar também de tecnologia. A Mater Dei vem investindo em inteligência artificial para acelerar processos e diagnósticos. Como esse desenvolvimento em pesquisa e tecnologia tem avançado nos últimos anos?

Em 2021, naquele período de expansão mais acelerada, adquirimos 50,1% da A3Data, empresa de tecnologia e inteligência artificial que hoje integra o grupo. Fizemos esse movimento porque entendíamos que o mercado estava mudando rapidamente, que a digitalização seria fundamental, que as empresas precisariam organizar cada vez melhor seus dados e que grandes transformações decorreriam desse processo.

Graças a esse investimento e ao trabalho de organização que realizamos, estamos muito bem posicionados para desenvolver projetos de inteligência artificial na Rede Mater Dei. Trabalhamos sob duas perspectivas principais.

A primeira é aumentar a eficiência das operações, reduzindo burocracias e tornando a empresa mais sustentável, eficiente e leve, liberando recursos para novos investimentos.

A segunda é utilizar a digitalização e a inteligência artificial em benefício do paciente. Temos investido fortemente no atendimento digital, nas plataformas digitais para facilitar o acesso aos nossos serviços e também nas linhas assistenciais apoiadas por inteligência artificial.

A inteligência artificial também tem grande potencial para apoiar o diagnóstico, especialmente de doenças graves, na medida em que os algoritmos conseguem analisar exames em velocidade muito superior à que um médico conseguiria caso tivesse de avaliar um grande volume de laudos.

Entendemos que a IA tem um potencial transformador para a saúde, desde que seja utilizada sob supervisão das equipes médicas, ampliando sua capacidade de atender um número maior de pacientes. Isso beneficia toda a cadeia. Um paciente que recebe um diagnóstico precoce tem uma expectativa de cura muito maior.

Para a operadora de saúde, que é nossa cliente, tratar o paciente precocemente custa muito menos do que um tratamento de alta complexidade em estágio avançado da doença. Para o hospital também é melhor, porque conseguimos atender um número maior de pacientes. E, para o médico, acontece o mesmo: muitas vezes ele se subespecializou em determinada área e pode atender mais casos, colocando em prática todo o conhecimento adquirido ao longo da carreira.

Essa combinação entre a expertise humana, a expertise assistencial e a força da inteligência artificial vai transformar profundamente a saúde nos próximos anos.

Para finalizar: como você vislumbra o desenvolvimento da Rede Mater Dei para os próximos dez anos? E, falando sobre o legado do fundador, como espera preservá-lo daqui para frente?

Nosso principal compromisso é com a perenidade. Trabalhamos todos os dias para garantir que a Rede Mater Dei continue no caminho da longevidade. Esse é o maior legado que recebemos e pelo qual trabalhamos diariamente: fazer com que a empresa permaneça relevante, continue atendendo bem os pacientes, mantendo um bom relacionamento com as equipes médicas e fiel ao propósito criado em 1980, a partir do sonho do Dr. Salvador.

Os próximos anos serão desafiadores, mas também repletos de oportunidades. Em breve estaremos em São Paulo e, nos próximos dez anos, esperamos ter instituições ainda mais fortes, muito provavelmente com novos projetos, novos hospitais e atuação em outras frentes.

Temos investido fortemente em educação para contribuir com a formação dos profissionais de saúde, inclusive dos médicos. Também ampliamos nossos investimentos no tratamento de doenças crônicas e na oncologia, área que vem crescendo de forma consistente na rede, assim como a cardiologia e a neurologia. Não sabemos exatamente como será o futuro. Vivemos em um mundo muito volátil, mas manteremos sempre o compromisso de garantir que a Rede Mater Dei continue forte e relevante.

Sobre o autor

Leonardo Morais

Repórter de economia e negócios do Diário do Comércio, com experiência em jornalismo digital e produção multimídia. Graduado pela PUC Minas, foi premiado com o 2º lugar no Prêmio Sebrae de Jornalismo, Fotojornalismo (2024). LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/leomoraisj/

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