Mercado de suplementos movimenta R$ 8 bilhões
O mercado brasileiro de suplementos alimentares avança em ritmo acelerado, sustentado por uma mudança consistente no comportamento do consumidor, cada vez mais orientado por saúde, desempenho físico e bem-estar. Estimado em cerca de R$ 8 bilhões ao ano, o setor ganha escala e começa a reduzir a distância em relação a mercados mais maduros, como o dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que amplia sua base de consumo para além do público tradicional de academias.
Esse movimento se reflete na diversificação de produtos, na popularização de categorias antes restritas, como a creatina, e na consolidação do whey protein como item de consumo mais amplo, impulsionado por esportes como o crossfit e pela influência das redes sociais. Para Otto Guarnieri, fundador da Mais Mu, empresa de alimentos saudáveis sediada em São Paulo, o avanço também está ligado a uma nova geração de consumidores, mais informada e exigente, que busca não apenas valor nutricional, mas também sabor, conveniência e identificação com as marcas.
À frente de uma das empresas em crescimento no segmento, ele avalia que o desafio deixou de ser apenas vender produto e passou a ser construir marca e posicionamento em um ambiente cada vez mais competitivo. Nesta entrevista, ele analisa as perspectivas do setor, os riscos de um mercado em expansão acelerada e as estratégias adotadas para manter relevância sem perder foco em meio ao excesso de oportunidades.
Como você avalia o mercado de suplementação e quais são as perspectivas para os próximos anos?
Tem crescido bastante, como reflexo da mudança de comportamento dos consumidores nos últimos anos. As pessoas estão mais preocupadas com a saúde. O Brasil caminha para desafiar mercados mais maduros, como o dos Estados Unidos, que se encontram naturalmente à frente. Há três anos, por exemplo, não havia aqui empresas bilionárias de suplementos, diferentemente de hoje, em que há várias. Algumas categorias antes desconhecidas, como a creatina, começaram a ser mais buscadas pelos consumidores. O whey protein, por causa de esportes como o crossfit e dos influenciadores digitais, ganhou penetração entre todas as idades.
Nossa estimativa é que o mercado de suplementos em pó, barras e bebidas proteicas movimente cerca de R$ 8 bilhões por ano. É um setor difícil de mensurar o valor com precisão, por causa do forte volume de vendas online, mas somos otimistas: acreditamos em um crescimento de duplo dígito alto nos próximos anos, eventualmente até de três dígitos, se o vento estiver muito favorável.
Estudos mostram que a Geração Z tem uma preocupação ainda maior com a saúde. Como a Mais Mu se conecta com esse público?
Nós representamos esse consumidor, temos o mesmo perfil dele, motivo pelo qual criamos a empresa com base em nossas próprias dores como clientes. Amadurecer significa aprender a ouvir melhor, e isso passa por entender qual dor você acha que resolve e qual realmente resolve. Nosso público-alvo é alguém que treina três vezes por semana e segue uma dieta. Estamos falando de dezenas de milhares de pessoas, um número que só cresce. Essa tendência de busca por alternativas saudáveis já se consolidou. Boa parte de ser uma empresa nova é buscar trazer sua verdade para o mundo, o que se mostra indispensável para se conectar com os clientes de hoje, que buscam, de forma geral, essa conexão.
Em um mercado que parece comoditizado, como garantir a diferenciação?
O difícil não é vender matéria-prima ou definir o preço dos produtos. Isso, na realidade, é fácil. O difícil é vender marca, posicionamento e sabor. Nossa proposta de valor é ser a opção mais gostosa dentro do saudável. É o whey mais pedaçudo, o pré-treino com gosto de suco, a barrinha com a melhor textura e sabor. É preciso saber comunicar bem essas características, independentemente de ser no digital ou no ponto de venda. O cliente vai entender como somos também por meio da comunicação, da entrega do produto, da experimentação. Por isso, o esforço de comunicação no nosso segmento é fundamental.
Além disso, para se diferenciar, é preciso ter coragem de dizer não para tudo aquilo que carece de nossa essência. A Mais Mu sabe que ela é a opção do mercado que vende sabor com nutrição na medida certa. Essa é a nossa identidade. Dessa forma, recusamos opções que não têm sabor ou que carecem de saudabilidade. É preciso ter coragem de bancar isso, o que significa não ser oportunista para querer surfar todas as ondas.
Qual é o maior desafio que você enfrentou como empreendedor até aqui?
O desafio constante é amadurecer sem envelhecer. É garantir que o futuro abra mais portas, em vez de apenas reforçar que você estava sempre certo, o que acaba fechando a sua cabeça para novas possibilidades. Empreender é uma corrida de obstáculos com passagem de bastão: ou você passa o bastão para uma nova versão de si mesmo, ou para outra pessoa. Se não fizer isso a tempo, a empresa entra em declínio. Além disso, há o desafio emocional de curtir a jornada, vivendo cada etapa, independentemente de qual seja o desafio do momento, sem desejar excessivamente ultrapassar logo a linha de chegada.
Nosso segmento está repleto de oportunidades. Para empresas no nosso estágio, o risco de morrer de indigestão de oportunidades é maior do que o de morrer de fome. As possibilidades são amplas: mercado externo, novas categorias, novos mercados. O desafio é manter o foco. Nossa grande oportunidade agora é ser uma empresa melhor, e não necessariamente uma empresa maior.
No EOY, a Mais Mu foi reconhecida na categoria Emerging. A que você atribui isso?
À nossa trajetória autêntica e criativa. Temos mais de 800 sócios-investidores, o que é atípico para nosso porte, além de um fundo internacional aportando no negócio, o que também não é nada convencional. Também temos um modelo em que boa parte dos funcionários possui participação no capital. Somos um bicho em construção, que se reinventa constantemente sem perder a essência. Se estivéssemos prontos, talvez não fôssemos tão especiais. Não somos a mesma empresa de um ou dois anos atrás, mas, em todos esses processos de reinvenção, nunca perdemos nossa essência. (Agência EY e redação)
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