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Erico Barros*

No curso da história do Brasil já experimentamos algumas crises que abalaram o caminho do progresso do País e vamos nos recordar de dois episódios recentes e que superamos, com dificuldades bem verdade, mas não nos levaram ao fim do mundo.

I. O plano Collor instituído em março de 1990 anunciava como principal mudança a substituição do cruzado novo (NCz$) pelo cruzeiro (Cr$). Porém, a medida mais polêmica foi o bloqueio das cadernetas de poupança e das contas correntes com valores superiores a 50 mil cruzados novos por 18 meses. Os montantes acima deste teto eram transferidos ao Banco Central.
Conseguiram parar tudo, pois como viver com tão pouco?

II. O segundo episódio, mais recente, foi a greve dos caminhoneiros, em 2018, que teve a duração de três semanas e reduziu em 1,2 ponto percentual o PIB do ano e adiante-se que não havia a restrição de mobilidade a não ser dos próprios grevistas.

III. A crise do coronavírus é sanitária, com forte impacto no social e, com certeza, nas micro e macro economias do País.

IV. Estes três fatores se retroalimentam trazendo imensos prejuízos às famílias, empresas e estado.

Está fora de controle o tempo de duração da pandemia e o ataque à economia parece devastador pelos seguintes pontos:
a. O Brasil já reduziu o crescimento do PIB do ano a zero;
b. O Banco J. P. Morgan revisa projeção do Ibovespa, para 2020, de 126 mil pontos para 80.500 pontos;
c. Moody’s prevê recessão em todos os países do G20;
d. Há severas medidas contra a mobilidade, em todo País;
e. Há medidas lentas, até agora, para socorrer os menos favorecidos que se contam aos milhões. Estamos falando do engraxate, do pipoqueiro, do ambulante, das diaristas entre outros, que ficando uma semana sem trabalhar correm o risco de morrerem de fome;
f. Em alguma medida, estes problemas hão de afligir o pequeno e médio empresário, pois o seu fôlego financeiro é bastante limitado. O socorro do governo parece insuficiente;
g. As empresas, por falta de faturamento não poderão honrar seus compromissos, tempestivamente e de se notar os trabalhistas, advindo, em cascata, problemas para toda cadeia produtiva;
h. O déficit público será severamente abalado.

A pandemia presente causará efeito contracionista substantivo sobre todas as atividades, desde o mais abastado, preocupado com as quedas das bolsas, até o catador de latinhas que não terá matéria-prima para o seu trabalho diário, por força dos bares e restaurantes fechados, em confinamento.

Alguns impactos na economia serão inevitáveis, entre eles:

• Haverá falta de produtos, das mais diversas origens, pois o confinamento levará a ruptura das cadeias produtivas e de distribuição;
• Os custos de produção poderão ser abalados pelo alto valor do dólar, preço do petróleo e outros;
• Haverá redução da demanda por força do confinamento fechando casas de espetáculo, proibindo eventos esportivos, restaurantes etc.

É verdade que precisamos dar toda prioridade às vidas. No entanto, temos que cuidar das empresas e da economia para que continuem robustas e, na volta, tenham forças suficientes para a decolagem triunfal.

O governo precisará atuar forte e urgentemente enquanto este confinamento existir evitando-se, destarte além da desordem econômica, convulsões sociais de consequências imprevisíveis e talvez maiores que a doença, como: fome, doenças oportunistas, saques, roubos, sequestros, assassinatos, enfim miséria e violência. Note-se que os Estados Unidos vão aportar no sistema dois trilhões de dólares algo maior que o PIB do Brasil, em 2019.

Algumas ações já vêm sendo tomadas, embora pouco contundentes e através das redes sociais, como Bolsa Família, precisa-se colocar dinheiro na ponta, nas contas das pessoas desassistidas e vulneráveis.

As empresas precisam ter ajuda como redução da taxa Selic para compensar a retração da demanda; postergação de impostos; concessão de créditos a prazos mais significativos.

Os governos, em todas as esferas precisam fazer, também, investimentos em obras para que o desemprego na indústria da construção civil diminua, em outras palavras, as autoridades precisam aumentar cada vez mais o apoio as suas populações para evitar danos futuros, talvez, permanentes às famílias, organizações, em todas as regiões do país.

No entanto, somente o aumento dos gastos dos governos, ações nas áreas tributárias, monetárias e fiscais e injeção de recursos em sistemas financeiros não serão suficientes para debelar as crises econômicas financeiras que o país atravessará e diga-se, por oportuno, que a crise na saúde precisa ser debelada e o país voltar a funcionar sem confinamentos.

E o que mais precisa ser feito? Não faz sentido esperar que os governos façam tudo!
As empresas têm uma responsabilidade social da mais alta importância, qual seja cuidar das famílias, perenizar os seus negócios, fazendo-os crescer com lucros e atendendo aos anseios de todas as partes interessadas.

Para este momento de extrema agonia e crise, convido os empresários para que criem um gabinete de crise, em suas organizações, para gerir/blindar o caixa, com urgência e determinação, com os seguintes focos:

a. Comercial: com a finalidade de buscar novas formas de faturamento como delivery, por aplicativo, e-commerce, atacado, com maiores prazos ou descontos e tantos outros modelos que poderão ser adotados após ampla discussão interna;
b. Estoque: como estão meus estoques? Preciso diminuir seu saldo? Como estará o estoque para a retomada, terei caixa suficiente?
c. Recebíveis: há uma equipe treinada para trazer os recursos nas mãos dos clientes, evitando o estabelecimento de inadimplências em níveis pouco confortáveis?
d. Custos e despesas: fazer uma análise profunda para que os gastos estejam no limiar da receita. Economizar é gastar bem;
e. Financiamentos: como vou tratar o endividamento de curto prazo? Vou necessitar de empréstimos adicionais para suprir a minha necessidade de capital de giro?
f. Investimentos: há que se interromper todo investimento em curso que seja totalmente adiável.

Não será uma gestão trivial, neste momento de enorme turbulência. Será, todavia uma oportunidade vital para o engrandecimento dos gestores, em todos os níveis, que os deixará mais preparados e robustos para o momento da retomada e desafios futuros em suas carreiras.

*Conselheiro e sócio do Aquila, é administrador com especialização em economia e finanças pela University of Cambridge e avaliação de negócios governamentais pela USP. Participou do Program for Management Development da Harvard University e integrou a 1° missão de executivos brasileiros ao Japão, em 1991. Atua há mais de três décadas com a gestão de organizações de diversos segmentos. Autor do livro técnico, Análise Financeira – Enfoque Empresarial (2016)