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Pesquisa de Minas avança no desenvolvimento de vacina mais eficaz contra a malária

Estudo publicado na Nature revela novo caminho para imunizantes mais eficazes, superando desafios na imunologia
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Pesquisa de Minas avança no desenvolvimento de vacina mais eficaz contra a malária
A malária é transmitida pela fêmea do mosquito Anophele | Foto: Reprodução Adobe Stock

Considerada uma doença socialmente determinada – aquela cujas origens, propagação e impacto estão diretamente ligados às desigualdades sociais e condições de vida, como pobreza, falta de saneamento básico, moradia precária, desnutrição e exclusão – a malária tem um forte impacto sobre a qualidade de vida das populações mais vulneráveis e sobre a economia dos territórios afetados. Por isso, remédios para o seu tratamento, produtos e tecnologias que combatem o mosquito transmissor e, principalmente, o avanço e a democratização de vacinas que previnam a disseminação da malária são fundamentais para o desenvolvimento socioeconômico de países pobres e em desenvolvimento.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 263 milhões de casos de malária foram registrados em 2023 em 83 países endêmicos. Em 2022 foram 252 milhões de casos. Os óbitos por malária reduziram de 600 mil, em 2022, para 597 mil, em 2023.

Dados do Ministério da Saúde mostram a região Amazônica como área endêmica para malária no Brasil, registrando mais de 99% dos casos autóctones. A região compreende os estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão. Nas áreas fora da região Amazônica mais de 90% dos casos registrados são importados dos estados pertencentes à área endêmica e outros países amazônicos ou do continente Africano. Apesar disso, existe transmissão residual de malária em estados da região extra-amazônica, principalmente em áreas de Mata Atlântica.

Em 2023, foram registrados 140.265 casos autóctones de malária no País, um aumento de 8,8% em comparação ao ano anterior. Após sucessivos aumentos, em 2023, foram registrados 63 óbitos por malária, 10% a menos que no ano anterior.

A boa notícia é que em Minas Gerais um estudo promissor promete revolucionar a produção de vacinas contra a malária. O estudo, já publicado pela Nature – a mais prestigiada revista científica do mundo – avança sobre um dos maiores desafios da imunologia: identificar quais componentes do parasita realmente são capazes de despertar uma resposta protetora dos linfócitos T, células fundamentais para o desenvolvimento de vacinas mais eficazes. Ao revelar um mapa inédito desses alvos imunológicos, a pesquisa não apenas apresenta novos candidatos vacinais, como também oferece um caminho para orientar o desenvolvimento de uma nova geração de imunizantes contra a malária.

O grupo é liderado por pesquisadoras do CTVacinas, sediado em Belo Horizonte, Camila Barbosa e Luna de Lacerda (primeiras autoras) e Caroline Junqueira (autora sênior). O estudo abre uma nova perspectiva para o desenvolvimento de vacinas ao identificar antígenos capazes de gerar proteção mais ampla, duradoura e eficaz contra diferentes espécies e fases do parasita causador da doença.

Luna de Lacerda
Luna de Lacerda é uma das autoras do estudo publicado na Nature | Foto: Divulgação CTVacinas

O CT Vacinas é um centro de biotecnologia criado a partir de uma parceria estratégica entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Instituto René Rachou da Fiocruz Minas e o Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). Ele funciona como um polo integrado onde pesquisadores dessas duas instituições cooperam para desenvolver imunizantes e kits de diagnóstico.

“Já fizemos toda a caracterização da vacina e modelos de roedores. Agora estamos montando um dossiê que vamos encaminhar para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para demonstrar a pureza da formulação vacinal, a qualidade, o rastreamento da produção, a toxicidade, que deve durar ainda um ano. A partir da aprovação deste documento, vamos solicitar à Anvisa e ao Comitê de Ética o primeiro estudo clínico, que é o de fase 1, que é o estudo de segurança”, explica Caroline Junqueira.

Embora existam vacinas aprovadas contra a malária, elas ainda apresentam limitações importantes. Os imunizantes atualmente disponíveis concentram sua ação principalmente na fase inicial da infecção e têm eficácia variável ao longo do tempo, exigindo doses de reforço. Além disso, a maioria foi desenvolvida com foco em apenas uma espécie do parasita.

“O nosso estudo é um desafio, inclusive, para a classe científica. O que existe hoje é para a fase hepática da malária. Conseguir que a Anvisa ateste a nossa vacina baseada em resposta celular vai ser uma batalha do ponto de vista que isso quebra um paradigma quase secular. Esse tipo de análise não é comum. É um ponto muito inovador. A agência regulatória vai ter dificuldade para absorver a informação. A imunologia clássica usa as estruturas de superfície para atacar o parasito, mas elas mudam muito a cada fase da doença. Nós alcançamos estruturas no nível celular, por isso muito mais preservadas. E, por estarem na base, são as mesmas durante todas as fases da doença, aumentando a possibilidade de uso da vacina ao longo do ciclo da enfermidade e também no número de variantes da malária”, descreve Luna de Lacerda.

Caroline Junqueira
Caroline Junqueira lidera a equipe responsável pelo estudo | Foto: Divulgação CTVacinas

No Brasil, especialmente na Amazônia Legal, a doença gera altos custos com internações e pesadas perdas de produtividade. Indivíduos afetados ficam incapacitados para o trabalho e atividades de extração, além de prejudicar o desenvolvimento do capital humano e o crescimento do PIB. O avanço da doença afeta severamente a economia em várias frentes:

  • Perda de produtividade laboral: acomete principalmente trabalhadores em atividades de agricultura, transporte e extração mineral. O afastamento gera queda de renda e redução da produção local.
  • Impacto ambiental e econômico: o desmatamento e o garimpo criam focos de contágio. Estudos apontam que um aumento de 1% no desmatamento pode elevar em 23% os casos de malária, aumentando os gastos públicos municipais com saúde.
  • Pesquisa e Controle: A doença gera custos diretos para o sistema público. Investimentos e Turismo: Áreas endêmicas têm seu desenvolvimento turístico e atração de investimentos limitados devido ao risco de infecção.

No Brasil, o número de dias de trabalho perdidos por episódio de malária é de cerca de 2 e 11 dias em áreas de alta transmissão na Índia. A ausência do trabalho resulta na perda de uma proporção significativa da renda ou dos ganhos.

Pioneirismo feminino alavanca pesquisa no Brasil

Além de trabalhar na fronteira do conhecimento, as pesquisadoras são responsáveis por mais um feito da ciência brasileira: esse é o primeiro trabalho, desde a criação da Nature, em 1869, e do primeiro artigo brasileiro publicado, em 1958, conduzido integralmente por mulheres brasileiras, tendo primeira e última autoras do País.

A importância da descoberta foi reforçada pela decisão editorial da Nature de dedicar ao trabalho um News & Views, espaço reservado a pesquisas consideradas particularmente relevantes para o avanço de determinada área do conhecimento.

No texto, as editoras afirmam que o estudo preenche uma lacuna histórica no desenvolvimento de vacinas contra a malária ao revelar um “panorama antes oculto” dos alvos reconhecidos pelo sistema imunológico humano.

“Não é fácil. Numa equipe formada por mulheres é muito difícil persistir. É o tempo inteiro, todo mundo tentando puxar a gente para baixo, dizendo que não vai funcionar, que a teoria está errada. Se fôssemos homens, seria diferente, um pouco menos difícil. Eu falo que o trabalho que a gente publicou, se fosse um homem, dariam dois trabalhos. Se fosse um homem americano ou europeu, daria uns quatro. Mas como somos mulheres brasileiras, dá um”, desabafa Caroline Junqueira.

A pesquisa já dura mais de 15 anos e pode levar mais 10 até que a transferência de tecnologia seja realizada e os primeiros frascos da vacina cheguem à população. Os ganhos, porém, desse desenvolvimento já começaram.

“Quando a gente, por exemplo, escreve um projeto de pesquisa, temos sempre que antecipar quais serão os produtos desse projeto. O produto não é só um artigo científico, é também a formação de recursos humanos, o produto é a elaboração de relatórios científicos. A formação de recursos humanos vai muito além. Esse artigo que publicamos, por exemplo, foram dois doutorados combinados, mas quantos alunos de mestrado, iniciação científica, pós-doutorados, técnicos de laboratório foram envolvidos? Então, tão importante quanto o produto final é o caminho desenvolvido e o conhecimento gerado,” afirma a autora sênior.

Sobre o autor

Daniela Maciel

Repórter do Diário do Comércio desde 2011. Graduada em Jornalismo pelo UniBH e em História pela UFMG.

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