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Três livros discutem os novos desafios da liderança no mundo corporativo

Obras discutem liderança, cultura corporativa e inteligência emocional no ambiente de negócios
Três livros discutem os novos desafios da liderança no mundo corporativo
Foto: Reprodução

Há algo revelador na coincidência temática de três lançamentos recentes voltados ao universo da liderança e da gestão. Embora partam de abordagens distintas, “Genes Sustentadores”, de Rodrigo Tetti Garcia, “Inteligência Cênica”, de Ronaldo Loyola, e “Diário de Liderança”, de Livia Mandelli, convergem em um ponto central: a percepção de que empresas e carreiras não colapsam apenas por falhas técnicas ou crises externas. O desgaste costuma começar em dimensões menos visíveis, como comportamento, cultura, consciência emocional e capacidade de adaptação.

Em tempos de inteligência artificial, hiperconectividade e pressão constante por resultados, os três livros ajudam a compreender por que o discurso tradicional da liderança eficiente já não basta. O executivo racional, orientado apenas por performance e metas, parece insuficiente diante de organizações atravessadas por ansiedade, conflitos emocionais e mudanças aceleradas.

Rodrigo Tetti Garcia parte de uma pergunta objetiva e urgente: por que algumas empresas quebram enquanto outras conseguem se reinventar? Em “Genes Sustentadores”, o autor analisa o que chama de “código genético” das organizações, um conjunto de competências que determina a capacidade de adaptação e sobrevivência dos negócios em cenários de crise.

Inteligência Cênica
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O mérito do livro está em escapar da lógica simplista do turnaround heroico. Garcia mostra que crises raramente surgem de forma abrupta. Elas se acumulam silenciosamente em decisões mal calibradas, culturas organizacionais deterioradas e lideranças incapazes de reconhecer sinais de desgaste. Ao diferenciar recuperação de transformação, ele desloca o debate da emergência para a prevenção. Em outras palavras, mais importante do que apagar incêndios é desenvolver estruturas capazes de impedir que eles se espalhem.

A discussão ganha relevância especialmente no contexto brasileiro, marcado por fechamento acelerado de empresas e elevada fragilidade operacional. O autor sustenta que resiliência deixou de ser uma virtude abstrata para se tornar competência estratégica. E talvez o aspecto mais interessante da obra esteja justamente na defesa da ambidestria organizacional: a capacidade de manter eficiência no presente sem perder a habilidade de reinventar o futuro.

O palco invisível das corporações

Se Garcia olha para a sobrevivência das empresas, Ronaldo Loyola direciona o foco para a sobrevivência das carreiras. Em “Inteligência Cênica”, o executivo e pesquisador propõe uma leitura provocadora do ambiente corporativo como um “teatro invisível”, no qual reputações são construídas continuamente pela forma como as pessoas se posicionam, comunicam e interpretam contextos emocionais.

A metáfora teatral poderia facilmente resvalar em clichês motivacionais, mas Loyola evita esse caminho ao defender que atuação não significa falsidade. Para ele, Inteligência Cênica é a habilidade de adaptar linguagem, postura e comunicação sem perder autenticidade. Parece uma nuance simples, mas talvez esteja aí uma das discussões mais contemporâneas do mercado de trabalho.

Em um ambiente em que profissionais são constantemente observados, presencialmente ou nas redes sociais, saber ler o clima emocional das organizações tornou-se quase tão importante quanto dominar competências técnicas. Loyola acerta ao mostrar que carreiras frequentemente fracassam não por incompetência, mas por ingenuidade relacional, excesso de impulsividade ou incapacidade de compreender dinâmicas de poder.

O livro também toca em um ponto sensível do ambiente corporativo contemporâneo: o esgotamento emocional. Ao relacionar liderança, saúde mental e riscos psicossociais, o autor aproxima a discussão de temas cada vez mais presentes nas empresas, como burnout, assédio e toxicidade organizacional. Sua crítica à chamada “autenticidade brutal” é particularmente pertinente em uma era em que sinceridade excessiva muitas vezes é confundida com transparência.

Liderança além do piloto automático

Já “Diário de Liderança”, de Livia Mandelli, segue uma trilha diferente das duas obras anteriores. Menos analítico e mais introspectivo, o livro funciona como um exercício contínuo de autopercepção. A autora propõe 365 reflexões práticas para líderes que desejam interromper o piloto automático e compreender como pensamentos, emoções e padrões mentais moldam suas decisões.

Diário de Liderança
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O formato de diário poderia sugerir uma leitura leve ou motivacional, mas Livia Mandelli sustenta sua proposta em conceitos de neuroplasticidade, inteligência emocional e remodelagem comportamental. A ideia de que pequenas reflexões diárias podem alterar padrões neurais parece dialogar diretamente com um fenômeno corporativo contemporâneo: a dificuldade crescente de pausa e elaboração em rotinas marcadas por excesso de estímulos.

Há algo quase contracultural no convite ao silêncio e à escrita em um ambiente empresarial dominado por velocidade, produtividade e hiperexposição. Livia Mandelli parte do princípio de que liderança não nasce da repetição de fórmulas prontas, mas da capacidade de desenvolver consciência sobre si mesmo.

Novo mapa da gestão corporativa

Lidos em conjunto, os três livros ajudam a mapear uma transformação importante no universo corporativo. Durante décadas, liderança foi associada prioritariamente à autoridade, domínio técnico e capacidade de execução. Hoje, competências subjetivas ganham espaço crescente: consciência emocional, leitura de contexto, adaptabilidade, construção de cultura e coerência ética.

Talvez seja justamente essa a principal conexão entre as três obras. Todas rejeitam a ideia de que crescimento sustentável, seja empresarial ou individual, pode existir sem reflexão profunda sobre comportamento humano. Em comum, os autores parecem dizer que empresas adoecem como pessoas: lentamente, silenciosamente e, muitas vezes, pela incapacidade de reconhecer os próprios padrões.

Em um mercado cada vez mais pressionado por velocidade, tecnologia e resultados imediatos, os três livros ajudam a lembrar que liderança continua sendo, antes de tudo, um exercício de consciência, adaptação e construção de sentido. Fica a dica de leituras.

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