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Supermercados estreiam na venda de medicamentos e acirram briga com farmácias

Assaí Farma, Carrefour e Grupo Mateus estão entre os grandes varejistas que apostam na comercialização de remédios
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Supermercados estreiam na venda de medicamentos e acirram briga com farmácias
Foto: Pixabay

Aplicação de injeção, furação de orelha, medição de pressão, testes de glicemia, Covid e gripe. Estes serviços, assim como a venda de dermocosméticos, medicamentos sem prescrição e os regulados, como as canetas emagrecedoras, estão disponíveis a partir desta quinta-feira (16) no Assaí Anhanguera, zona oeste de São Paulo. A inauguração do Assaí Farma marca a entrada do varejo alimentar na venda de medicamentos, desde que foi aprovada, em março, a lei 15.357/2026.

A legislação veio com restrições: é preciso que a farmácia esteja em um espaço segregado do resto do supermercado, com a presença de um farmacêutico responsável durante todo o período em que estiver aberta. No Assaí Farma, muro e prateleiras de vidro, além de antenas antifurto, separam a loja do restante do atacarejo.

A primeira das 25 farmácias da rede, previstas para serem inauguradas neste ano no estado de São Paulo, tem caixa próprio e ocupa 100 m² logo na entrada do Assaí Anhanguera. A loja tem 12 mil itens (SKUs), contra 10 mil do atacarejo.

Vagner Moraes, diretor de farmácias do Assaí, acredita que o consumidor vai incluir a ida à farmácia do atacarejo durante as compras de alimentos, com a possibilidade de fazer a aquisição on-line no aplicativo e a retirada na loja.

“Pesquisa realizada no ano passado apontou que 78% dos nossos consumidores estariam dispostos a comprar em farmácias instaladas dentro dos pontos de venda”, diz Moraes. O Assaí recebe cerca de 40 milhões de consumidores por mês em seus 313 atacarejos.

Moraes é cauteloso em relação à promessa do varejo alimentar de vender mais barato que as farmácias tradicionais. Como o Assaí Farma ainda está em fase inicial, não realizou compras em volume suficiente para garantir preços menores.

Para ganhar força na negociação com a indústria farmacêutica, o Assaí preparou um evento de inauguração nesta quarta (15) voltado a parceiros e rivais do varejo alimentar para discutir o modelo de farmácias dentro dos supermercados e unir forças para obter condições mais vantajosas com fabricantes.

Os supermercados estão interessados em um mercado que movimentou R$ 227 bilhões no país em 2025, alta de 12% no ano passado, fazendo do Brasil o 8º maior mercado no ranking mundial, segundo o Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos).

Quem está puxando as vendas do setor são as canetas emagrecedoras, cuja demanda aumentou 42% em volume em 2025, para 8,7 milhões de unidades, segundo a consultoria Iqvia, que audita a venda de medicamentos.

Os varejistas de alimentos vão disputar espaço com gigantes. Enquanto o Assaí Farma pretende abrir 25 lojas este ano, chegando a 250 em dois ou três anos, a RD Saúde, líder do setor com as redes Raia e Drogasil, soma mais de 3.500 lojas em quase 700 cidades.

Só neste ano, a RD Saúde está inaugurando mais de 300 lojas. Ao todo, o varejo farmacêutico nacional conta com cerca de 100 mil farmácias. Até recentemente, a legislação reservava às farmácias, drogarias, postos de saúde e hospitais a distribuição de medicamentos ao consumidor.

Outras iniciativas

Além do Assaí, outros grandes varejistas estão de olho nas farmácias dentro das lojas. A Plurix, dona de 180 lojas em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, com bandeiras como Amigão, Superpão e Avenida, vai fazer projetos-piloto em seis lojas do interior paulista.

O Carrefour, maior varejista do país, já conta com uma rede de 98 drogarias (85 com a bandeira Carrefour e 13 com Atacadão), em 10 estados e no Distrito Federal, todas fora das lojas, no espaço das galerias. “No quarto trimestre iremos abrir duas novas operações no Atacadão”, diz Leonardo Silva, diretor sênior de postos e drogarias do grupo.

O Grupo Mateus, terceiro maior grupo do varejo alimentar nacional, inaugurou no final de junho, em São Luís (MA), a primeira farmácia em parceria com o Grupo Toureiro, a Mix Toureiro Farma. É uma loja independente, de rua, de 1.000 m², mas que marca a chegada do grupo ao varejo farmacêutico, com o slogan “O menor preço do mundo”.

Aposta em remédios não é para todo mundo

Comercializar remédio, porém, não é uma tarefa fácil. O preço de medicamentos é controlado no Brasil, por meio da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), vinculada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)

A CMED define o PMC (Preço Máximo ao Consumidor) -que é o teto cobrado pelas farmácias por um medicamento- a partir do PF (Preço Fábrica), que é o valor que remunera o fabricante e o distribuidor.

Segundo apurou a Folha com representantes da indústria e do varejo, a margem bruta do varejo farmacêutico varia de 25% a 33% sobre o PF. Um medicamento que tem preço fábrica de R$ 100, por exemplo, chega ao consumidor custando entre R$ 125 e R$ 133.

Os supermercados estariam dispostos a praticar 20% de margem bruta, ou seja, levar o mesmo remédio ao consumidor por R$ 120. Para isso, precisam formar volume -algo em que o varejo farmacêutico se especializou.

Para Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, montar uma farmácia em um supermercado só se justifica em lojas de alto tráfego e muito amplas, como atacarejos. “É uma operação que vai demandar caixa dedicado, mas não acredito em explosão de lojas no curto prazo.”

O presidente da Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), Nelson Mussolini, também não aposta em uma guinada nas vendas de medicamentos. “A legislação impôs limites à operação, o que para nós é favorável, não queríamos venda de canetas para emagrecer junto com salgadinhos”, diz.

Para a gaúcha Panvel, quinta maior rede do varejo farmacêutico do país, os supermercados não ameaçam a venda das farmácias. “Eles já tentaram antes, com as farmácias nas galerias, e redes como o Walmart e o Pão de Açúcar saíram do negócio. Quem ficou, reduziu a rede pela metade”, diz Júlio Mottin Neto, CEO da Panvel.

Edson Tamascia, presidente da Farmarcas -que gerencia uma rede de 1.700 farmácias e drogarias por meio do modelo de associativismo- se mostra igualmente cético. “A legislação foi muito boa para nós”, diz. “O varejo alimentar brasileiro queria vender medicamento sem prescrição nas gôndolas, como nos Estados Unidos.” Para ele, a dinâmica de venda e consumo de medicamentos é complexa e diferente da de alimentos. “São jornadas distintas”, afirma.

A aposta da Abras (Associação Brasileira de Supermercados) é outra. “A média de visita do consumidor ao varejo alimentar é de sete vezes por mês -contra 1,5 vez às farmácias”, afirma João Carlos Galassi, presidente da entidade. Segundo ele, mais concorrentes no varejo alimentar pode ajudar os consumidores. “As 29 grandes redes de farmácia detêm 60% das vendas do setor. Em supermercados, são necessárias mais de 1.000 empresas para chegar a este percentual”, diz. “Mais competição indica preço melhor.”

Indústria tentou venda direta e foi barrada

Mais gente está de olho na venda de medicamentos, o que deve acirrar a disputa pelos compradores. Os marketplaces e a própria indústria querem vender diretamente ao consumidor final.

A norueguesa Novo Nordisk, dona do Ozempic, Wegovy e Rybelsus, para controle de diabetes e obesidade, fechou uma parceria com a AS Medicamentos para a venda direta. Lançada neste mês, a operação durou uma semana e foi temporariamente suspensa.

Segundo apurou a Folha, o encerramento se deu por pressão das grandes varejistas farmacêuticas, que ameaçaram parar de vender os produtos. A pressão chega em um momento em que a patente do Ozempic no país caiu em março.

Procurada, a Novo Nordisk disse em nota que a suspensão visa “incorporar os aprendizados obtidos durante a fase piloto”, para criar “um modelo mais integrado ao setor de varejo farmacêutico, um parceiro estratégico da companhia”.

Já a Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), que reúne as 29 grandes redes de varejo farmacêutico do país, responsáveis por um faturamento de R$ 118,5 bilhões no ano passado, disse desconhecer essa pressão, mas criticou a iniciativa da fabricante por não seguir as normas da Anvisa.

No México, a Novo Nordisk deu início à venda de medicamentos pelo Mercado Livre. No Brasil, por conta da legislação, o marketplace comprou uma farmácia no Jabaquara, bairro da zona sul de São Paulo, em setembro do ano passado. Em 31 de março, anunciou o lançamento de um projeto-piloto para vender medicamentos sem prescrição.

Procurado para comentar a experiência, o Mercado Livre não concedeu entrevista.

Conteúdo distribuído por Folhapress

Daniele Madureira
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