Augusto Cury e Camila Cury*

Sobre a tragédia em Suzano: Até quando continuaremos a pagar a conta por causa da ausência de um trabalho emocional que capacite o Eu para torná-lo saudável? É urgente investir em uma educação que auxilie pais, responsáveis e professores a ensinar e potencializar as competências socioemocionais.

Há diversos tipos de Eu doente: tímido, ansioso, estressado, hiperpreocupado, hiperpensante, hipersensível, engessado, radical, inseguro, impulsivo, dissimulador, neurótico pelo poder, pela evidência social, por controlar os outros, etc.

Raramente não desenvolvemos defeitos na construção do Eu, e é mais fácil desenvolver características doentes do que saudáveis. Mas por que isso acontece? Porque já estamos imersos em uma sociedade altamente adoecida, com emoções tóxicas, desconectadas, que geram crianças, e, posteriormente, jovens e adultos que, se não ajudados a reeditarem as suas memórias, possuirão poucas chances de se (re)construírem de maneira saudável.

Há sempre um grande risco de o Eu ser escravo do passado, não conseguir reeditar suas vivências e experiências passadas, de tornar-se vítima destas situações. Neste caso de Suzano e de tantas outras tragédias, vemos que ao se ver vítima das memórias passadas e circunstâncias, um Eu doente pode também fazer vítimas do lado de fora, sejam estas fatais ou não.

Estes jovens que causaram isto se viram presos a pensamentos e ideias das quais não conseguiram fugir, ou reeditar, e, com tudo isso, tornaram-se algozes, atingindo várias pessoas de maneira física ou emocional e que, por sua vez, também necessitarão de auxílio para lidar com este trágico momento.

Nas batalhas psíquicas, não há dois vencedores. A mente adoece todas as vezes que não aprende a agir em seu próprio favor, confrontando suas mazelas. Todos somos inteligentes, mas é preciso aprender a usá-la para não permitirmos que o mundo de fora invada nossa paz e assuma o controle de quem somos ou do que estamos nos tornando.

Situações como esta, em Suzano, novamente nos traz à reflexão sobre o que estamos fazendo para transformarmos esta realidade, e ensinarmos nossas crianças e jovens a não serem vítimas de suas histórias do passado e a não criarem condições para formarem novas vítimas.

Em todas as situações, além de outras medidas, é essencial a educação da emoção e a potencialização de competências socioemocionais. É necessário aprender a desenvolver um Eu saudável, que não seja vítima das circunstâncias, das armadilhas da mente, dos traumas e angústias passados, mas que seja autor da própria história, capaz de se reerguer de suas dores, para poder oferecer o seu melhor a si mesmo e aos outros.
Nos solidarizamos imensamente com a dor destes jovens, e destas famílias, atingidas por esta tragédia.
 
*Escritor, autor de mais de 40 obras de Psicologia Aplicada / Psicóloga e Diretora-Geral da Escola da Inteligência