Brasil precisa desenvolver uma indústria cultural

O problema não é a falta de dinheiro, mas sim a ausência de uma estratégia bem articulada e de longo prazo
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Brasil precisa desenvolver uma indústria cultural
Foto: Reprodução Adobe Stock

Com tanto talento, País pode construir políticas que vão além do fomento e promovam o desenvolvimento econômico
O debate sobre políticas culturais no Brasil costuma girar em torno de uma única pergunta: quanto investir? Mas uma questão fundamental, que precisa ser tratada com mais abrangência, é quais estratégias adotar para estruturar o setor de forma sustentável. O Reino Unido, por exemplo, faz um movimento nesse sentido. O governo britânico anunciou recentemente um novo plano para sua indústria da música. O investimento de cerca de US$ 60 milhões chama atenção, mas a estratégia por trás dessa política é mais importante.

O objetivo não é apenas financiar artistas ou eventos, mas resolver gargalos que limitam o crescimento. O Brasil faz o contrário. A Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura destina dezenas de bilhões de reais ao setor cultural ao longo de seus ciclos, mas continuamos discutindo baixa profissionalização, pouca inserção internacional, dificuldade de acesso ao crédito, escassez de dados, excesso de burocracia, baixa competitividade e dependência crônica do financiamento público.

Não falta dinheiro, o que falta é uma estratégia bem articulada e de longo prazo. Precisamos tratar a cultura dentro de políticas de desenvolvimento econômico e não apenas como um setor que precisa de fomento para lançar suas obras no mercado. Música, audiovisual, games, design, patrimônio, moda, gastronomia e festivais movimentam cadeias produtivas inteiras, geram empregos, impulsionam o turismo, fortalecem marcas territoriais e ampliam as exportações. Esse potencial precisa ser aproveitado.

No Reino Unido, além de investir no setor, o plano prevê mecanismos permanentes de financiamento, incluindo fundos com participação de artistas consolidados para apoiar novas gerações e fortalecer todo o segmento. Uma dinâmica de corresponsabilidade na cadeia produtiva.

Durante minha participação no SXSW, em Austin, nos Estados Unidos, discutindo o futuro das indústrias criativas, ficou evidente que os países competitivos se preocupam com muito mais do que editais. O debate envolve inovação, propriedade intelectual, internacionalização, tecnologia, formação de talentos, acesso a mercados e modelos sustentáveis de financiamento.

No Brasil, falta construir uma política de Estado que transforme seu potencial em uma indústria cultural competitiva; e fazer com que cada real investido gere emprego, inovação e exportação e reduza a dependência do financiamento público. Quando a produção cultural é tratada como base de uma verdadeira indústria, todo o setor é reconhecido como gerador de renda, emprego e desenvolvimento. É preciso incentivar a criação de uma indústria cultural estratégica, capaz de converter o brilho de nossos talentos em competitividade global e valor econômico real.

Bárbara Botega
Sobre o autor

Bárbara Botega

Advogada, gestora pública, empresária e ex-secretária de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais

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