Entre a eleição e o que acontece além das montanhas

A geopolítica (e as suas tensões) está cada vez mais presente em nossa vida cotidiana
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Entre a eleição e o que acontece além das montanhas
Foto: Reprodução Adobe Stock

Em períodos eleitorais, existe uma tendência quase natural de um país olhar para dentro. A conversa pública se concentra em nomes, pesquisas, alianças, promessas, contas públicas e nas escolhas que faremos nas urnas. É compreensível. O problema começa quando esse movimento estreita demais o nosso campo de visão. Porque, enquanto discutimos qual Brasil queremos construir a partir de outubro, o mundo continua redesenhando as condições em que esse Brasil terá de existir.

Há algum tempo venho falando sobre a importância de olhar além das montanhas. Para quem vive em Minas, a expressão tem uma força quase literal. As montanhas fazem parte da paisagem, da nossa história e da nossa identidade. Também servem como uma boa provocação: enxergar o que está do outro lado é parte indispensável de qualquer decisão que pretenda alcançar o futuro.

Hoje, esse exercício se tornou ainda mais importante. Tensões geopolíticas alteram rotas comerciais e preços de energia. Disputas entre grandes economias reorganizam cadeias produtivas. Decisões de bancos centrais atravessam fronteiras em segundos. A inteligência artificial desloca investimentos, redefine produtividade e aumenta a demanda por infraestrutura e energia. Tudo isso parece distante até aparecer no câmbio, nos juros, no preço dos alimentos, no custo de uma empresa ou nas oportunidades de trabalho.

A economia nunca respeitou muito bem as fronteiras. Agora, respeita ainda menos. O Brasil tem características que nos protegem em alguns momentos e nos expõem em outros. Somos relevantes na produção de alimentos, energia e commodities, temos um mercado interno importante e construímos mecanismos capazes de absorver parte dos choques externos. Ao mesmo tempo, dependemos de fertilizantes importados, de fluxos internacionais de capital, de mercados compradores para nossas exportações e de um ambiente global minimamente previsível para investir, financiar e crescer.

Por isso, uma guerra a milhares de quilômetros pode chegar ao supermercado. Uma disputa comercial entre Estados Unidos e China pode alterar a dinâmica das exportações brasileiras. Uma inovação desenvolvida em outro continente pode transformar profissões, empresas e modelos de negócio em Minas Gerais antes mesmo de percebermos que aquela mudança atravessou a montanha.

Quando falamos de cenário internacional, corremos o risco de tratar o assunto como uma abstração reservada a economistas, investidores ou grandes empresas. Geopolítica também é vida cotidiana. Está no emprego criado ou perdido, no orçamento das famílias, no preço da energia, na capacidade de uma pequena empresa acessar crédito, na decisão de um jovem sobre qual profissão seguir e até na quantidade de recursos públicos disponíveis para políticas sociais.

Olhar para fora, portanto, é também uma forma de compreender melhor o que acontece dentro. Nos próximos dias, teremos boas razões para acompanhar com atenção o debate brasileiro. Ele definirá escolhas relevantes para o País. Ainda assim, nenhuma delas será feita em uma sala fechada. O próximo governo, as empresas, os investidores e cada um de nós encontrarão um mundo mais fragmentado, veloz e interdependente.

Talvez o maior risco seja imaginar que podemos decidir o nosso futuro observando apenas o nosso próprio horizonte. As montanhas são parte de quem somos, porém nunca deveriam limitar até onde conseguimos enxergar.

Luciana Zanini
Sobre o autor

Luciana Zanini

Investidora e Conselheira

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