Entre a luz e as trevas
“Onde houver trevas que eu leve a luz”. (São Francisco)
De repente, não mais que de repente, no silêncio da noite, durante voos condoreiros da imaginação, uma nesgasinha de dúvida espicaça o raciocínio lógico.
E se as Escrituras estiverem equivocadas? E se a Palavra sagrada, vinda do fundo e do alto dos tempos, contiver ensinamento inexato? E se os textos traduzidos do aramaico para o grego, do grego para o latim, do latim para os outros idiomas tiverem sido interpretados com imprecisão? E se não passar de colossal mal-entendido o conceito de que o ser humano foi feito à imagem e semelhança do Criador?
Falar verdade, bem mais do que difícil, afigura-se irremediavelmente impossível reconhecer no brutamontes que povoa este planeta, responsável por conflitos intermináveis, vidas despedaçadas, destruições irreparáveis, por inumeráveis outros atos atentatórios à dignidade da vida, criatura suficientemente provida de grau de espiritualidade capaz de espalhar harmonia por onde caminhe.
Da escotilha da nave que singra a prodigiosa vastidão cósmica, os astronautas captam imagem, de estonteante beleza, de nosso planeta. Como explicar dualidade tão atroz? Como explicar esse paradoxo atordoante? De uma mesma fonte geradora, brotam reações que vão de Alfa a Omega, produzindo, num dos extremos, efeitos apavorantes. A vontade que colocou a espaçonave no campo infinito do céu é a mesma que aciona os mísseis, semeando o terror e ameaçando a sobrevivência da espécie e o extermínio da civilização.
Mas que contradição insondável é essa que habita a condição humana! Repitamos: a mesmíssima inteligência que manipula partículas subatômicas, que cura enfermidades, que planta edificações portentosas é, desconsoladoramente, a mesma que gera instrumentos devastadores, eliminam vidas preciosas e transformam em escombros estruturas de conforto e bem-estar. Bem provavelmente, os equívocos detectados não estão situados no cerne das Escrituras e, sim, nas interpretações imperfeitas que delas fazemos, devido a contaminações nascidas da vaidade, da arrogância, da prepotência, da ambição hegemônica, inerentes a conduta humana. Tomados por embriagante autossuficiência, face a conquistas e avanços expressivos, o ser humano julga-se pronto, acabado e merecedor do selo da perfeição. Disso fazem prova, em não poucos momentos, muitos líderes mundiais que se arvoram em “donos do mundo”.
Ser feito à imagem e semelhança do Criador não significa atingir sua inalcançável plenitude, mas carregar em estado de semente a potência do divino: a liberdade de criar, a faculdade de escolher, a possibilidade tanto do gesto luminoso quanto da sombra devastadora. Em vez de retrato concluído, somos rascunho. Em vez de obra pronta, projeto em permanente construção. Daí a vertigem: entre a grandeza da vocação e a pequenez das escolhas cotidianas, abre-se o abismo em que tropeçam civilizações inteiras. O ser humano vagueia, enquanto evolui, entre a luz e as trevas.
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