Guardando Olavo na memória

7 de dezembro de 2023 às 0h02

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Crédito: Gláucia Rodrigues

“Ninguém morre. Parte primeiro” (Camões)

Olavo Romano, bom, leal e culto companheiro, distanciou-se na caminhada. Perdemo-lo de vista na encruzilhada. Partiu primeiro, conforme o lírico registro do poeta maior. Na saudade dos parentes e amigos restou a consoladora certeza do reencontro, mais adiante, noutra ladeira da existência. Possuía inteligência faiscante. Dela jorrava a verve que adornava falas e escritos de rico conteúdo. Olavo conhecia de cor e salteado a lida da palavra. Humanista, titular absoluto do escrete dos intelectuais de peso das Gerais, sabia enfocar e fotografar pelo verbo, de forma esplêndida, as emoções simples da gente do povo. Deixou-nos páginas memoráveis na contação de causos colhidos no colorido cotidiano das ruas. Tornou-se, assim, escritor aclamado, um retratista de primeira da alma montanhesa.

Numa camaradagem que varou décadas, reunimo-nos algumas vezes para troca de ideias sobre a variada, posto que complicada, temática humana. Com frequência, nessas ocasiões, afloravam historietas singulares em que, por força de circunstâncias inexplicáveis, vimo-nos envolvidos. À falta de uma melhor definição, vou buscar no capítulo das percepções extrassensoriais o termo que possa classificá-las: sincronicidades. Relato, em seguida, uma delas, bastante sugestiva. Antes de fazê-lo, entretanto, não resisto à tentação de relembrar que o bom humor e a gargalhada pode se afirmar feérica de Olavo espichavam sempre o bate-papo.

De certa feita, final dos anos 80, participei de uma reunião com Olavo na Secretaria da Fazenda, onde ele respondia pela Chefia de Gabinete do secretário Paulo Hadadd. Eu estava, então, Superintendente-Geral do Sistema Fiemg, função acumulada com a Presidência da Universidade do Trabalho de MG. Nesta última instituição, Olavo havia atuado em cargo executivo, assessorando o conceituado Professor Agnelo Viana. Entreguei-lhe um estudo da entidade da indústria para análise da equipe econômica do governo.

Ao pôr Olavo a par de que, no dia seguinte, viajaria para o Peru, ele expressou o desejo de que eu fosse portador de correspondência a uma funcionária graduada do Ministério da Educação em Lima, que fizera estágio em Belo Horizonte, na Ultramig. A correspondência, no entanto, não foi feita. Uma semana depois eu visitava Nazca, considerada uma espécie de Cabo Canaveral da pré-história. Acabara de sobrevoar as famosas linhas geométricas e, já agora, as percorria. Emparelhei-me, puxando conversa, com uma senhora que fazia o mesmo trajeto. Dela ouvi pergunta sobre minha nacionalidade, ao saber-me brasileiro, ela confessou gostar muito de meu país, sobretudo de Belo Horizonte, onde ficou amiga de um famoso escritor. Ele próprio, Olavo Romano. A mulher deixou-se tomar pelo maior espanto e júbilo incontido quando lhe revelei, à queima-roupa, que tinha sido incumbido por Olavo Romano de abraçá-la.

O abraço caloroso que lhe dei no deserto de Nazca, sob sol escaldante, arrancou do grupo de turistas vibrantes exclamações. Ao retornar a Belo Horizonte, procurei Olavo para dar-lhe notícia do assombroso encontro no Peru. Relembramos esta história incontável número de vezes.

Na despedida de Olavo, parentes e colegas tomaram conhecimento de belo e comovente poema escrito por sua irmã, Alcéa Romano. Faço questão de aqui reproduzi-lo, como homenagem fraternal à memória deste grande personagem da vida cultural.

“Olavo contou caso novo, e de novo, inovou / Falou do tio, da mãe, do avô. / Dos netos e dos filhos do senhor Nonô. / Do tempo, da vida, da graça, da praça, do povo, da Vila. / E o semblante de todos abrandou./ /As palavras, as letras, a fala, abraçou, Buscou, perguntou, conversou, se entregou./ Recebeu, agradeceu, repartiu, ofereceu este dom como prece./ Buscou nas estrelas, o que aqui não encontrou. / Partiu pra mais longe./ No plano Divino, foi refazer sua história. / E nós aqui, coração batendo e guardando o Olavo na memória”.

*Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

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