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O lado místico de Guimarães Rosa II

Conheça as confissões que revelam aspectos fascinantes de sua escrita
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O lado místico de Guimarães Rosa II
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Foi caindo já feita no papel” (Guimarães Rosa)

Como prometido, reproduzo a carta, de anos atrás, do saudoso amigo Luiz de Paula Ferreira, aludindo aos dons paranormais de Guimarães Rosa.

“Prezado Cesar, mexendo em velhos papéis, encontrei texto precioso de Guimarães Rosa, de dezenas de anos atrás, citando fenômenos presentes na vasta produção que lhe valeu ser incluído entre os 100 maiores escritores da historia. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza, anexo o texto, que merece divulgação em suas crônicas.”

No artigo, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos”. O texto deixa evidenciado, em boa interpretação parapsicológica, os dons de que o escritor era possuidor. Dividido em duas partes, aqui está o artigo, de Guima “Vida, arte e mais?”

‘Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e, em princípio, rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentes necessárias. No plano da arte e criação – já de si em boa parte sublunar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente, às vezes, quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro de bois, e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta.

A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando eu brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-me a simetria e ligação de suas partes. “O tema de “O Recado do Morro” (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava talvez, também, sob-razoável ação do vinho ou do conhaque”.

Na 2° parte do artigo, Rosa explica como foi com o “Grande Sertão”

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